O cinismo estéril

Confesso ter feito um comentário ridículo sobre a tragédia do vôo 447 com alguns colegas. Pensei a respeito depois e não encontrei boa razão para o que dissera. Talvez eu quisesse fazer parte da turma descolada, que faz piada com qualquer coisa, mesmo que isso signifique ofender tanto a sensibilidade alheia quanto a própria inteligência. Mas há algo ainda mais estranho do que a piada com a tragédia (algo corriqueiro, aliás, do qual não escaparam nem o padre dos balões e Isabella, só para citar fatos recentes): a relativização do horror.

Neste post exemplar, Queda do avião: O cinismo é a nova hipocrisia, Alessandro Martins revela um argumento que muitos estão usando para diminuir a importância do caso e melhorar a imagem que os outros teem deles:

Alguém disse que não faz sentido se sensibilizar pela queda de um avião. Porque, afinal, morrem dúzias de crianças no exato momento em que digito esta frase. De fome, de doença, por violência, por absoluta falta de cuidado. E ninguém diz nada. O que é a queda de um avião diante disso, não é?, dizia esse sujeito e mais uns tantos.

Além de cínica, é uma justificativa francamente canalha porque pretende transformar o sujeito que a anuncia em alguém moralmente superior, ao dar maior atenção às crianças pobres do que a morte de duas dezenas de burgueses. Sim, além de estúpido, é um argumento com um ranço ideológico ultrapassado e cruel, que despreza o direito de indivíduos a vida ao insinuar que algumas mortes são menos desejáveis do que outras, o que equivale a dizer que algumas vidas têm maior valor do que outras. Essa gente insensível, porém considerada culta, avançada e moderna tem sempre uma opinião certeira e sarcástica sobre qualquer assunto, o que pode ser entendido também uma tentativa desesperada de esconder a falta de conhecimento e de cultura com aquela noção vaga e meio adolescente, a tal atitude.

Não é, de forma alguma, um fenômeno brasileiro, mas que viceja por aqui porque nós, nhambiquaras, somos mestres do duplipensar, definido em 1984, de George Orwell, como a capacidade em acreditar em duas coisas contraditórias ao mesmo tempo, ou de agir de forma absolutamente contrária aos próprios princípios e achar formas de conciliá-los sem a menor culpa. Como diria Groucho Marx: “Estes são os meus princípios. Se não gostar, tenho outros que posso lhe apresentar”. Condenamos a corrupção e pagamos para ser liberados de uma multa de trânsito, reclamamos dos impostos mas acreditamos que tudo seria melhor se a imensa carga tributária fosse revertida em serviços para a população. E, finalmente, nos gabamos de nossa sensibilidade e calor humano, mas somos capazes de opiniões cruéis e cínicas sobre vidas alheias. Com toda a tranquilidade do mundo.

3 Respostas to “O cinismo estéril”

  1. léo mariano Says:

    oi Marcelo

    O que me deixa sem chão nesse assunto é como as pessoas se negam a ficar surpresas.

    um barreira de indiferença nutrida com muito cinismo.

    Não se fica mias espantado.

    E ,não sei, quando se abandona o Espanto à favor de um “indiferença inteligente” me parece que se força a muchar todos os outros dons cognitivos, tais quais o medo, a esperança, a tristeza.

    Ferreira Gullar disse uma vez que o artista vive do espnto de viver. mas, pô, não deveria ser só o artista, mas todos.

    Isso eu acho.

    Abs

    PS: Aos poucos voltando.

    • Marcelo Lopes Says:

      léo,

      Concordo plenamente com você. Às vezes penso o mesmo diante da indiferença de tantos leitores aos jornais sensacionalistas e suas matérias sangrentas. Deveríamos cultivar mais este assombro diante do mundo.

      Abs!
      Marcelo.

  2. Cracatoa destaca de 3.6.2009 a 12.6.2009 | Cracatoa Simplesmente Sumiu Says:

    […] O cinismo estéril – Um artigo sobre o estado de cinismo em que nos encontramos […]

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