Sobre o Nosso Tempo

Tenho algumas anotações aqui, que esperam ser transformadas em posts, especialmente depois desta pausa de uma semana no blog. Estava com vontade de falar sobre a minha releitura (no sentido de “ler pela segunda vez”, não naquele sentido que artistas e sociólogos dão ao termo) de O Coração das Trevas, de Joseph Conrad, mas percebi que não combinava nem um pouco com a data. Deixemos Conrad para outra hora.

O blog do Polzonoff, que sempre acompanhei, virou um índice para as suas twittadas diárias. E quer saber? Ficou ótimo, tanto que estou até pensando em entrar seriamente para a turma dos twitteiros – ao menos uma vez por dia, e olhe lá. De lá veio o link para um livro cujo título é bastante curioso e está na estante de auto-ajuda da Livraria Cultura: 50 Motivos Para Amar o Nosso Tempo . Sim, todos sabem a aversão que tenho a auto-ajuda, mas, concordo quando ele diz acreditar na sinceridade dos leitores que desejam, simples e naturalmente, melhorar algum aspecto de suas vidas. Mas não foi isso que me atraiu no livro e seu título curioso.

Lembrei-me de um artigo do escritor de ficção científica Isaac Asimov na versão brasileira da revista que leva o seu nome, em que ele narra um encontro com jovens. Um deles teria dito que sua vida seria bem melhor na Grécia ou Roma antigas. O escritor replicou, afirmando que ele teria uma ótima vida como escravo, que era a mais provável “ocupação” que o jovem conseguiria. A saudade por um tempo jamais vivido é uma bobagem, a qual todos sucumbimos, por algum tempo de nossas vidas. Somos bombardeados o tempo todo com afirmações categóricas sobre como tudo era melhor no passado, a vida mais leve e fácil. E não é difícil dar alguma razão a estes argumentos diante das complexidades da nossa existência moderna. O outro lado é igualmente enganoso: acreditar que estamos no melhor dos tempos, o que também é inevitável. A isso gosto de dar o nome de cronocentrismo (termo que tem acepções mais rigorosas na academia, a minha é bem relaxada…), ou seja, a crença de que nossa época é o ápice da suposta evolução da humanidade. Não lembro bem e peço que me corrijam, mas parece-me que Aristóteles teria dito que tudo o que era preciso para facilitar a vida do homem já havia sido inventado e restava-nos a filosofia e o estudo do funcionamento do universo. Do Iluminismo a Revolução Industrial, passando, claro, pelo fim da história pregado por socialistas e liberais (cada um a sua maneira, claro), a ilusão de que o tempo em que vivemos é o último degrau da humanidade é tão comum e perniciosa quanto o saudosismo.

Seja lá qual for a sua opinião sobre nossa era, nem eu ou você podemos escapar a sina de ser um “homem ou mulher de nosso tempo”. Gosto de ler sobre o século XIX, o Renascimento e a Idade Média, mas nada me fará um burguês londrino, um pintor italiano ou um templário. E, como eu não acredito em reencarnação, não fui nenhum destes personagens. Resta-me apenas esta existência, que muita gente diz ser menor e menos interessante do que a maioria das que me precederam. Não concordar com esta postura, parece-me, é o mote deste 50 Motivos Para Amar o Nosso Tempo. Uma lufada de otimismo com olhos céticos.

E as grandes vedetes deste otimismo sem apelação a síndrome de Pollyana são, certamente, as conquistas das quais nem damos conta: tecnologia e ciência e os resultados sociais destas mudanças. Não percebemos, mas talvez estejamos no meio de uma grande revolução no modo como produzimos, consumimos e distribuímos informação. E informação, lembre-se sempre disso, não faz muito tempo, era algo exclusivo de uma parcela quase irrisória da humanidade. Sim, ainda é uma parcela bem raquítica a que tem acesso a tudo isso, mas é o suficiente para criar pressão por liberdades e direitos num ritmo e volume jamais experimentados. É tudo muito confuso? É, bastante, e deixa eu dizer uma coisa: o mundo sempre foi e sempre será uma confusão assustadora.

É preciso ter a consciência do preço que foi pago (em vidas, inclusive e especialmente) para que a humanidade chegasse até aqui; é necessário, sim, conhecer o passado. Mas adorá-lo cegamente nos impede de identificar e usar as gigantescas possibilidades que certos recursos modernos nos oferecem.  Exatamente os recursos tornam a vida hoje tão interessante e excitante – e naturalmente difícil.

Só para citar um exemplo: Desde quando uma pessoa qualquer, como eu, teria leitores de todas as partes graças a um esforço técnico relativamente pequeno? Faz muito pouco tempo que isso se tornou possível – menos de duas décadas.

5 Respostas to “Sobre o Nosso Tempo”

  1. Vandão Says:

    Nossa, Marcelão ! Muito bom este post. Agora, a toda pessoa que falar comigo que gostaria de ter nascido na década de 70 por causa de Woodstock, vou mandar fazer uma visita ao seu blog. Hehehe…

    • Marcelo Lopes Says:

      Vandão,

      Sumiu, hein, rapaz?
      Obrigado pelo elogio!
      Eu acho que, quando alguém diz que gostaria de ter estado em determinado lugar/tempo, ela quer dizer que gostaria de ter experimentado o clima, os valores, a “atmosfera” daquele instante. No fundo, no fundo, o que muita gente deseja é um passeio de montanha-russa: desafiador, diferente, mas que nos coloque de volta a nossa vida diária em segurança…

      Abs,

      Marcelo.

  2. Fernando Says:

    Muito bom esse post, abraço…

  3. Carlos Kurare Says:

    Digo isso há décadas, literalmente!
    A vida fica melhor para a humanidade a cada dia. As conquistas são muitas, só nos falta evoluirmos como civilização, e é claro evitarmos a explosão do DEMOgráfica! Seriamos melhor se fôssemos menos!
    Carlos Kurare

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