Apenas Uma Vez

Tenho uma certa inveja dos músicos; tudo por culpa das jam sessions, ou qualquer encontro parecido. A quem vive fora do universo musical, como eu, parece improvável que duas ou mais pessoas que jamais se viram possam se juntar em um palco ou estúdio e, a partir de um início relativamente tímido, ir ganhando confiança exclusivamente por meio da música até interpretar ou mesmo criar uma composição. Esta capacidade que a música tem de irmanar seus amantes devotos (os diletantes ficam assistindo) é explorada admiravelmente na mais bela sequência do igualmente belo filme Apenas Uma Vez, que assisti ontem depois de mais de um ano de atraso.

Produção independente irlandesa de 2008, vencedora do Oscar de melhor música por Falling Slowly, Apenas Uma Vez é um filme simples, delicado e (pasmem!) musical. Mas não é um musical ao estilo da, digamos, antiga Hollywood (uma forma cujos últimos exemplares talvez tenham sido Chicago, Moulin Rouge e Todos Dizem Eu Te Amo). Aqui as canções surgem naturalmente porque os personagens principais, Ele e Ela, são músicos. Na sequência que citei, ambos vão a loja em que Ela toca um piano emprestado. Ele sugere que tentem cantar uma de suas composições (Falling Slowly, naturalmente). No início, eles tentam se entender, olham constantemente um para o outro, experimentam com algum receio as cordas e as teclas. No final, criam no mesmo ritmo, reconhecem-se na experiência criadora, que se torna uma metáfora simples e exata da experiência amorosa – que, no caso dos personagens de Apenas Uma Vez, já os machucara profundamente.

Aliás, vale dizer que a trilha sonora do filme é marcada por letras simples, mas não simplórias. Atingir a simplicidade é algo dificílimo para um compositor. A estrofe exata, a precisão na descrição de sentimentos, a elegância, a transmissão de um estado interior imediatamente reconhecido por quem ouve a música – no filme, uma combinação de perda, solidão, tristeza e superficialmente paradoxais esperança e redenção.

Aproveitarei para ressuscitar o Todos os Filmes com minha opinião sobre Apenas Uma Vez – por isso mesmo não falarei mais sobre ele aqui. Mas desde já recomendo sem restrições.

ATUALIZAÇÃO: Resenha publicada no Todos os Filmes.

2 Respostas to “Apenas Uma Vez”

  1. Criscalina Says:

    Eu também morro de inveja dos músicos. Uma das cenas que eu mais gosto de ver é a cumplicidade de músicos no palco, principalmente em jam sessions. E como eles se encontram no mundo, né? Como se fizessem parte de uma sociedade paralela. Morro de inveja. Mesmo gostando de um zilhões de coisas deste mundo, nunca fiz parte de um mundo paralelo parecido com o mundo dos músicos… E este filme é lindo demais.😀

    • Marcelo Lopes Says:

      Criscalina,

      Eu também sinto essa inveja. E veja que sou um desenhista (meio ruinzinho, mas sou) e nos encontros percebo que todos falamos a mesma língua e nos entendemos com facilidade. Mas continuo com a sensação de que com os músicos a cumplicidade está em outro nível, como você mesma disse, num mundo paralelo.
      E Apenas Uma Vez é um filmaço!

      Abs!
      Marcelo.

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