Archive for julho \29\UTC 2009

Ela voltou

quarta-feira, 29 julho, 2009

Sim, eu achei que este ano não a teríamos, mas, frustrando a torcida adversária (é impossível não se render a uma citação futebolísitica), a Copa de Literatura Brasileira chega a sua terceira edição. Entre outros, competem pelo troféu 2009 Daniel Galera, João Gilberto Noll, Lourenço Mutarelli, Milton Hatoum e (até) Paulo Coelho.

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Destino

terça-feira, 28 julho, 2009

Confesso que a história deste casal de idosos bolivianos me fez pensar. Irma e Jorge, residentes em um asilo, se encontravam sempre na hora das refeições e algumas vezes tomavam sorvete juntos. Com o tempo, e como geralmente acontece nestas circunstâncias, foram se tornando mais próximos até que o relacionamento se tornou romance. Acabaram expulsos do asilo e ao menos ele foi insultado pela família. Rodaram boa parte do país, quase sem dinheiro, atrás de algum lugar para ficar até que decidiram contar sua história numa rádio.

A pergunta óbvia que salta da notícia é: em nome de quê, afinal, se impõe este tipo de sofrimento a quem não o merece? Talvez ainda mais óbvia seja a resposta. Para a manutenção de uma ideia limitada de sociedade, exaurida de seu natural dinamismo, é preciso, dentre várias outras coisas, que os idosos sejam inúteis. Que lhes sejam subtraídos os direitos mais básicos, sob a irreal alegação de que, agindo assim, os estamos protegendo. Que sirvam de referência paisagística; no máximo em praças, mas, preferencialmente, em quartos fechados e devidamente, higienicamente, afastados das famílias, amigos, da mais remota possibilidade de alguma forma de satisfação pessoal.

Num mundo que, a cada dia, fica mais velho e onde nós, ainda jovens, almejamos que a etapa final de nossas vidas seja melhor do que as de nossos avós, esta concepção tão naturalmente aceita não passa de anacronismo. Pior: é a mais pura e simples burrice. A silenciosa vingança dos idosos que maltratamos e desprezamos virá lentamente, ao longo dos próximos anos. Nós a sentiremos literalmente na pele, quando ela perder a elasticidade e o viço; quando nosso corpo nos trair nas atividades mais simples; quando nossa vitalidade se resumir ao olhar apressado e urgente que dirigiremos a quem nos desprezará e deixará de nos ouvir. É apenas uma questão de tempo, pode esperar.

Sobre o Passado

segunda-feira, 27 julho, 2009

A partir da indicação da Dicta & Contradicta, cheguei ao belo discurso que o intelectual polonês Leszek Kolakowski proferiu quando recebeu o Prêmio Kluge (uma espécie de Nobel para áreas não premiadas pela Academia Sueca, como história, política, antropologia…), do qual retiro logo do primeiro parágrafo o trecho:

The past by definition is an ocean of events that once happened; and those events are either retained in our memory, that is to say they exist only as part of our psychological reality, or reconstructed by us on the basis of our present experience – and it is only this present experience, ou present reconstruction of the past, that is real, not the past as such. In other words, the entire realm of the past exists only as portion of our (or strictly speaking, my) counsciousness; the past in itself is nothing.

Vale a pena ler; é simples, poderoso e pertinente. Além de terminar assim:

One might ask what is the point of repeating these banalities. The answer is that it is important to keep on repeating them, again and again, because these are banalities we often find it convenient to forget; and if we forget them, and they fall into oblivion, we will be condemning our culture, that is to say ourselves, to ultimate and irrevocable ruin.

Eu até pensei em traduzir os trechos, mas duvido bastante da minha competência nessa área; além do quê, se com meu inglês raquítico, eu li o discurso sem problemas…

O Visionário

segunda-feira, 20 julho, 2009

Em 1960, quando Fellini lançou A Doce Vida, teve de arcar com a incompreensão de boa parte do público e a rejeição de uma fatia da Igreja – o que, na Itália daquele tempo, ainda era um veto considerável. O livro Fellini Visionário transcreve os roteiros deste filme e de 8 1/2 e Amacord, além de trechos de entrevistas memoráveis, como o que vai abaixo, concedida a Alberto Moravia, publicada no jornal L’Expresso, em 1965:

Tudo que faço é apresentar um problema da maneira mais eficaz. Por que deveria propor uma solução? Por acaso sou santo ou líder? Os outros que encontrem a solução, os pastores de almas, os reformadores da sociedade. Sou um diretor que faz um filme. De resto A Doce Vida não tem nenhuma intenção social. É uma fábula contada como uma balada.
Todo artista vive uma realidade que não pode ignorar. Essa realidade não me agrada nem um pouco, bem entendido. No entanto, meu filme não é apenas isso. Em A Doce Vida também observo o homem com uma atenção diferente e, creio eu, mais nobre do que a de um sociólogo. Examino a miséria de sua alma, as doenças de seu espírito; parto com ele em busca de uma luz indispensável.[…]
Sempre houve em meus filmes algp de provocante. Digo isso sem me vangloriar, pois nunca é o que tenho em mente. […] Ocorreu uma cisão entre os que admitem um discurso sincero e os que o temem: entre aqueles que, mesmo correndo o risco de se enganar, tentam encontrar a verdade – ainda que seja uma pequenina verdade – e aqueles que por preguiça se recusam a procurá-la. Sou apenas um nômade, com os olhos bem abertos para conhecer a vida.

Algo que todo artista precisa entender.

A última inocência

segunda-feira, 20 julho, 2009

Hoje em dia é comum ridicularizar, apontar os erros, duvidar das motivações ou até mesmo acreditar nas mais diversas teorias de conspiração que dizem que as conquistas do programa espacial não passaram de uma fraude grotesca. Nada disso me importa neste texto, não pretendo defender a exploração do espaço ou refutar os argumentos falhos de quem acredita que o homem não foi à Lua. Porque a óbvia motivação deste post é a comemoração dos 40 anos desde que Armstrong deu uma pisada no solo poeirento do nosso satélite.

Deixo para outros livros, blogs e sites a admiração científica, o fascínio pela técnica, aventura ou mesmo pela coragem de quem resolver encarar o que foi, muito provavelmente, a mais espetacultar viagem já realizada por alguns poucos seres humanos. Tudo isso tem seu valor, lugar e espaço nas descrições detalhadas que o evento ganhará nos próximos dias. Documentários, a reprise de Da Terra à Lua, livros, sites, tudo isso pode ser encontrado com pouco esforço e alguma paciência – afinal, o material disponível é gigantesco. Mas, se eu resolver falar disso, além de pouco ou quase nada acrescentar, ainda correria o risco de escrever alguma bobagem. Não passo de um entusiasta formado pelo Discovery Channel e pela SuperInteressante, já disse isso.

Talvez tão fascinante quanto os primeiros voos espaciais em direção à Lua tenha sido a reação da humanidade, não apenas a dos norte-americanos. Primeiro evento que realmente contou com uma audiência global, unida pela televisão, a descida do homem na nossa companheira pedregosa e estéril eletrizou o planeta num momento delicado da história. Não era mais o tempo de Norman Rockwell ou do retorno dos soldados do solo europeu; é impossível negar que em 1969 o mundo parecia ter se voltado contra si todas as dúvidas possíveis e resolvido, de uma hora para outra, colocar tudo em xeque. No meio desta aparente convulsão, e sob o governo de um presidente que, alguns já intuíam, seria odiado em poucos anos, contra qualquer expectativa lança-se a Apolo 11 rumo ao espaço. Não que outras naves tripuladas não houvessem ido tão longe; mas naquela estavam Buzz e Armstrong, que caminhariam no solo lunar.

Caminhar é um ato tão básico e simbólico de nossa humanidade que talvez isso tenha escapado àqueles homens. Sei bem que é vulgar (e nada novo) falar disso, mas de certa forma, observar o modo desajeitado e inseguro com que os homens venciam as minúsculas distâncias que lhes eram permitidas na Lua nos lembrava de nossa fragilidade. Naquele momento breve, havia um fascínio que só pode ser descrito como inocência nos olhares de boa parte do mundo. Pela última vez, recuperamos a delicadíssima inocência infantil de admirar uma nova paisagem, um brinquedo nunca antes visto, um animal fascinante e desconhecido. Estávamos orgulhosos de nossa humanidade, de nossa capacidade em superar e vencer o que parecia impossível poucos anos antes. Tínhamos ali a esperança que obras de ficção científica já haviam espalhado: de um futuro próspero e pacífico organizado pela ciência. Era, claro, uma ideia ingênua demais, simplória demais. Mas estávamos contagiados por ela. Isso foi memorável, e aconteceu naquele dia pela última vez.

Seis anos e meio depois, eu nasceria. O fascínio já havia cedido à rotina quando, em 1972, a última missão lunar tripulada retornou. No ano de meu nascimento, o projeto Apolo foi aposentado e anunciado o ônibus espacial, que agora está também prestes a ser desativado.

A frase que motivou este post veio do blog português de ficção científica Blade Runner:

Durante os anos mágicos do Programa Apollo, a Humanidade pode espreitar o mundo e o universo pelo olhar fascinado de uma criança. Nunca mais a Humanidade foi tão jovem.

Rumo à Estação Irrelevância

quinta-feira, 16 julho, 2009

Você conhece a Mayara? Não? Mas está sabendo da foto famosa de Obama (que, no final das contas, não estava olhando) e Sarkozy observando a derriére de uma menina brasileira durante reunião do G8, não está? Acredito que sim, mesmo que você tenha tido a decência de evitar os noticiários nos dias seguintes ao fato. Então deixe que eu os apresente: a menina chama-se Mayara. E não, ela não estava lá por causa de seus atributos físicos, ela foi convidada da UNESCO como representante brasileira de jovens que atuam em prol de suas comunidades. Certamente, isso não foi noticiado, ou se o foi, apenas por uns poucos segundos. Eu fui um dos ingênuos que quis acreditar (I want to believe, diria o Fox Mulder) que a mídia teria um mínimo de vergonha na cara e não exploraria excessivamente o caso. Veja bem o que eu disse: excessivamente. Porque era certo que Mayara (lembra?) viraria notícia por culpa da maldita foto. Em outras palavras, encarnei ao mesmo tempo os três macacos idiotas, ora com as mãos sobre os olhos ora sobre os ouvidos e a boca. Mas isso ao menos serviu para que eu inventasse uma nova teoria, a partir de outra, de origem bem mais nobre.

Dizia Nelson Rodrigues que o brasileiro sofre de complexo de vira-lata. Antes mesmo de se informar sobre o estado de alguma coisa por aqui, já acredita que fora do país certamente a situação é melhor. Eu mesmo já fui acusado de ser portador deste complexo. Nego e renego a acusação. Eu apenas não consigo fingir que tudo está indo bem quando claramente vivemos numa terra que dá voltas ao redor de si mesma indefinidamente nos últimos… 509 anos, eu acho. Há coisas admiráveis aqui? Sim, há pessoas fantásticas, algumas poucas públicas, além de uma multidão de anônimos que merecem o respeito e o reconhecimento que provavelmente jamais terão.

Porque a maioria gosta mesmo é de auto-engano. Na falta de características positivas relevantes que possam ser eleitas como marcos admiráveis de nossa cultura, digo, da cultura nacional, tratamos de identificar traços de cultura periféricos e damos aura de grande coisa a eles. É o complexo de vira-latas reverso. O Brasil pode ter uma elite política abominável, péssimos índices educacionais, uma população que ainda acredita em boa parte na força do tacape ditatorial e uma desigualdade social equiparável a um abismo, mas ainda é o melhor lugar do mundo para se viver porque nossas mulheres são mais sensuais, nosso carnaval mais bacana e nosso jeitinho, opa, capaz de resolver qualquer problema. Veja que não estou negando nada disso. Ok, a mulher brasileira é bonita sim (mas colocá-las todas no mesmo caldeirão que comporta, sei lá, a Mulher-Melancia, é ofender quem deseja se destacar pela inteligência e não pela bunda, e a Mayara aí do primeiro parágrafo concordaria comigo), o carnaval é gigantesco (detesto carnaval, todo mundo sabe disso; mas gera muito emprego e movimenta boa parte da indústria do turismo, o que ofusca muitos outros eventos e cidades mil vezes mais interessantes do que esta festança besta) e o jeitinho tem lá seu lado positivo (a adversidade treinou alguns dos profissionais brasileiros mais interessantes do mercado internacional, mas é uma cultura está por trás de toda corrupção, da cervejinha para o guarda aos desvios bilionários de recursos). O fato é que tudo isso é acessório: não melhora nossos índices sociais, não aumenta a eficiência do estado e não educa ninguém.

Pelo contrário: a nossa obsessão pelo supérfluo serve apenas para desmotivar quem deseja o aprimoramento pessoal verdadeiro ou até mesmo quem, como Mayara, quer ajudar seus próximos. O orgulho da nossa sensualidade, nosso estilo e nossa ginga, por mais interessantes que sejam, serve também para esconder o óbvio: que estamos fracassando em quase tudo que é relevante. E não, a bunda de uma menina (ela tem 17 anos) sob os olhares atentos do presidente francês não é relevante. O trabalho de Mayara e a quase inútil esperança de que gente como ela faz parte de um Brasil menos estúpido, de mau gosto, machista e atrasado é que deveria ser relevante.

Do jeito que vamos, nosso destino é o igual ao nosso passado: de irrelevância.

Post inspirado em Mayara, Obama e a imprensa ridícula.

Coração das Trevas, de Joseph Conrad

terça-feira, 14 julho, 2009

Publicado em 1922, Coração das Trevas é o típico clássico mais citado e admirado do que propriamente lido. Em parte, culpa do filmaço de Coppola, Apocalipse Now, que, todos já sabemos, desloca a ação da África equatorial para a Guerra do Vietnã. A esta altura, a maioria já associou a imagem de Marlon Brando a de Kurz e sua frase “O horror, o horror” sem sequer saber que se trata de uma adaptação.

(Nota rápida: Muito embora a maioria das traduções trate de colocar um artigo antes de Coração das Trevas, vale a pena dizer que o título original é mesmo Heart of Darkness. O insidioso, embora não necessariamente incorreto, artigo tende a querer localizar, especificar o lugar onde estão as tais trevas. Certamente, não era esta a intenção de Conrad. Logo, daqui para frente, refiro-me ao livro apenas como Coração das Trevas)

É um livro que se lê rapidamente e se demora a esquecer. Narrado pelo marinheiro Marlow, talvez levado pelo relativo tédio da chegada do barco onde está no início da história em direção a Londres, talvez como uma forma de confissão que não espera nem se faz em virtude da redenção, conta seu período como empregado de uma companhia inglesa na África e seu encontro tardio com o Sr. Kurz. O notável Sr. Kurz é um dos personagens mais impressionantes e enigmáticos da literatura. Sua trajetória não é dita em detalhes, muito do que sabemos a seu respeito vem de relatos de terceiros, mesmo seu aspecto físico parece difícil de definir – embora magro e abatido, permanece altivo. Jamais podemos ler seus magníficos discursos, supostamente capazes de eletrizar multidões, tanto de nativos quanto de pobres-diabos perdidos naquela selva. Conrad nos pergunta se acreditamos na grandeza de Kurz ou se somos capazes de ver apenas sua ruína – quando Marlow o conhece, está à beira da morte, guardado por uma tribo especialmente hostil. É certo que enlouquecera, mas teria sido a febre louca do marfim ou algo mais? Por outro lado, seria possível a um homem enlouquecer por excesso de lucidez? Ou esta pergunta não seria apenas uma visão romântica da decadência inevitável que acometeu não apenas Kurz, mas tudo e todos à sua volta? Todo o livro está habitado por demonstrações de atos selvagens que visam a… absolutamente nada. Como o navio ancorado que atira seus canhões em direção a floresta, como se cumprindo uma grande missão; ou os nativos que se deixam levar pela fadiga e exploração; ou a orgia patética dos companheiros de viagem que não perdem a oportunidade de atirar, sem qualquer habilidade, contra os membros da tal tribo.

Há um esgotamento crescente dos desejos, da vontade, da moral, rumo a um mundo cuja finalidade, o propósito mesmo de sua existência, escapa ao narrador. Apesar de algumas das mais intensas descrições já feitas desta derrocada, o momento mais impressionante de Coração das Trevas é seu desfecho, quando Marlow se encontra com a mulher que Kurz tinha como companheira. A descrição do seu estado de viúva e a da sala e seus móveis em que encontram é magnífica e lamento não ter aqui um exemplar do livro para citar. Marlow dialoga rapidamente com um Kurz que não conhecera: são. E mente para ela, deixando que o Kurz anterior a sua partida continue existindo – ainda que ela pareça saber disso.

Talvez nunca um livro tenha sido tão preciso ao discorrer sobre o que não há como ser dito.

Sim, eu sei, é presunçoso amarrar um autor a outro, mas fiquemos com Pessoa:

O inexplicável horror
De saber que esta vida é verdadeira,
Que é uma coisa real, que é [como um] ser
Em todo o seu mistério
Realmente real.

A Normalopatia

sábado, 11 julho, 2009

J.P.Coutinho, sempre exato, discorre sobre a normalopatia (neologismo dele), ou seja, a irritante obsessão da psicologia moderna em enquadrar a todos nós em um modelo de normalidade. Timidez? Tem de ser curada. Mau humor? Indesejável. Tristeza? Atrapalha a vida. Agora as nossas pequenas neuroses, que mal mereciam tal designação, são descritas como doenças. Em breve, serão vítimas de preconceito quaisquer sujeitos que não se enquadrem na lista de características pessoais desejáveis.

Enquanto isso, na sala de justiça, a consultora contratada para avaliação de livros para a Secretaria de Estado da Educação de São Paulo será punida pela desastrada sugestão de incluir o livro em quadrinhos para adultos Dez na Área, Um na Banheira e Ninguém no Gol a alunos do ensino fundamental. A bagunça, certamente, é bem conhecida: após comprar lotes da obra, alguém percebeu que as histórias envolviam sexo, preconceito e referências politicamente incorretas. Algo de errado? Não. Mas é bastante óbvio que não se trata de material destinado a molecada de nove anos. Quem errou neste caso? O estado, claro, que, na sua incompetência educacional, fez a escolha. Quem foi satanizado? O livro, evidentemente. Afinal, todo mundo sabe que quadrinho é coisa de criança, certo? Não, errado. Aliás, não poderia estar mais errado.

Continuando a irritante série de perguntas, o que o primeiro parágrafo tem a ver com segundo? São demonstrações claras da nossa incapacidade de aceitar a diversidade, seja de pessoas, seja de obras artísticas. Falta-nos a habilidade para encarar o fato inapelável de que o mundo é complicado, estranho, perigoso e que está o tempo todo desafiando nossas ideias tão certinhas e bem estabelecidas. Não, não estou defendendo a abolição dos valores pessoais, longe disso: talvez eles sejam mais necessários hoje do que em qualquer tempo. Apenas estou dizendo que o exagero na nossa natural tendência a classificar e organizar a realidade pode ser danosa. Assim como queremos descrever detalhadamente e adequar o maior número possível de indivíduos a um ideal patético de normalidade, impomos limites artificiais aos gêneros e meios artísticos. O caso dos quadrinhos é emblemático.

Pegue-se um álbum como Retalhos, de Craig Thompson, ou Persepólis, de Marjani Satrapi; ou ainda a obra de um gênio como Will Eisner e ficará logo claro que se tratam de artistas que fizeram uso de um meio tradicionalmente associado à infância para contar histórias voltadas a adultos. E tenho certeza de que os resultados não seriam os mesmos se eles tivessem escrito suas tramas como romances convencionais. Quando não conseguimos encaixar uma obra naquilo que esperamos dela, apelamos ao puritanismo e a desculpa esfarrapada de proteger nossas crianças para ocultar nossa incompetência e a mais pura e simples estupidez.

Quanto às pessoas cujas personalidades agora são classificadas como doenças, a resposta é a mesma: neste caso, não recorremos a proibição e sim a psicologia, já descrita mais de uma vez como o sacerdócio secular do nosso tempo. Se é difícil lidar com o tímido, o expansivo, o anti-social e o mau humorado, então é porque eles devem ser doentes e precisam de tratamento para ficar iguaizinhos a nós. Há duas consequências terríveis desta ideia. A primeira, é presumir tolamente que somos normais. Não somos; em menor ou maior grau, todos carregamos nossas frustrações, neuroses, esquisitices. A segunda é desviar esforços que seriam melhor investidos na ajuda àqueles que mais precisam de apoio e sofrem a ponto de ter suas vidas devastadas por enfermidades reais ou características psicológicas, digamos, exacerbadas.

Coisas que eu gostaria de ter dito – 7

sexta-feira, 10 julho, 2009

A grande literatura é uma festa, mas para dentro.

Daniel Piza, contestando a atmosfera da FLIP (Feira Internacional do Livro de Parati).

Eis o nó górdio: a verdadeira literatura, que vai de Shakespeare a Pynchon, passando por Guimarães Rosa e Osman Lins, preocupa-se com aquilo que a filosofia chama de comunicação substancial. Ela lida com dois temas: a vida e a morte – e a única coisa que o escritor sério sabe sobre eles é que a última sempre ganha a partida. Portanto, a verdadeira literatura é uma obsessiva reflexão sobre a perda, o sofrimento, a dor – e sobre o fracasso. Quando um romance, um conto ou um poema mexe com as entranhas e a mente de um leitor, é porque o tema do fracasso foi abordado e superado com elegância estética, algo que só o grande artista consegue realizar.

Ainda abordando a FLIP, Martim Vasques da Cunha no site da Dicta&Contradicta, ilumina, em um curto e preciso parágrafo, a alta literatura. Aliás, todo o artigo merece ser lido.

Agora, as pessoas que se julgam “esclarecidas” costumam nutrir fortes preconceitos também, o que é muito fácil de demonstrar. Em meu meio social, acho que nenhum grupo é mais implicitamente rejeitado do que… os protestantes.

Assim como Pedro Sette Câmara, não sou protestante, e concordo com seu texto expondo o preconceito que a maioria de nós têm contra eles.

[…] há uma ligação íntima entre garantias públicas de propriedade e liberdade individual: […] enquanto a propriedade existe de certa forma sem a liberdade, o contrário é inconcebível.

Richard Pipes, no prefácio do livro Propriedade & Liberdade.

Reconhecimento

sábado, 4 julho, 2009

Já disse isso antes: sou um eterno aprendiz de desenhista. Por isso mesmo, frequento esporadicamente (há mais de um ano que não entro lá) uma comunidade excepcional de desenhistas muito melhores e mais generosos do que eu. Quando a telenovela da Record Os Mutantes – Caminhos do Coração foi anunciada, um dos primeiros a ridicularizar a iniciativa fui eu – afinal, era uma telenovela. Um membro do fórum respondeu que minha atitude estava equivocada, porque eu desprezava totalmente as possibilidades de crescimento do mercado para ilustradores, técnicos em computação gráfica, artistas conceituais e afins que uma iniciativa pop como aquela poderia proporcionar.

Quer saber? Ele tinha toda a razão.

Em meu desprezo pela telenovela, deixei de perceber o óbvio: muito ilustrador e desenhista reclama do mercado restrito para profissionais da área no Brasil e quando surge uma oportunidade, despreza a iniciativa. Dito isso, reconheço que admiro os profissionais que fazem as telenovelas, nem tanto pelo resultado final, mas pelo monumental trabalho envolvido. No caso específico da tal novela dos mutantes, li um artigo tempos atrás sobre a loucura que era – ou é, sei lá se a produção ainda existe – para a equipe de efeitos visuais criar em poucos dias o que levaria semanas ou meses para ser entregue a um filme de Hollywood. Sinceramente, com restrições tão sérias de tempo, o que estes caras fazem não é menos do que milagre – mesmo que a qualidade final não rivalize com o cinemão, e seria absurdo pedir isso, talvez esteja próximo do nível das produções de fantasia do Hallmark Channel.

Também é verdade que escrever uma telenovela não é nada fácil. Não bastasse ter de cuidar ao mesmo tempo de dezenas de personagens e tramas paralelas, ainda há a obrigação de agradar a milhões de espectadores que desejam se empanturrar das mesmas histórias e dramas por meses, anos a fio. Mesmo com uma equipe especializada que auxilia os autores mais cobiçados do mercado da teledramaturgia, é complicado gerenciar uma história que se pulveriza em várias mãos. Sinceramente, é um trabalho que não gostaria de ter.

Até porque minha opinião sobre as telenovelas não muda, apesar do reconhecimento do trabalho dos profissionais envolvidos. Continuo achando as tramas rasas, os personagens mais estúpidos do que o mais lerdo dos seres humanos e as polêmicas cirurgicamente calculadas, maçantes. Sim, já assisti a novelas, eu admito, embora a última completa tenha sido Renascer, se não me engano; ou seja, desde o fim da adolescência perdi o interesse por este tipo de produção. E admito também que gosto pelo menos de um diretor, Luiz Fernando de Carvalho, que não é o mais bem cotado exatamente porque foge da linguagem televisiva e se aproxima bastante da cinematográfica. Seu último bom trabalho na TV foi a primeira fase de Hoje É Dia De Maria – não gostei da segunda, nem de Capitu. Além de ter dirigido a angustiante adaptação de Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar, para a telona.

Quanto aos autores, é possível identificar as obsessões e estilo de cada um (bastam alguns capítulos para isso), mas confesso que não conseguem despertar o menor interesse em mim. Nossos atores são, em boa parte, muito bons e sabem suportar o peso de interpretar o mesmo personagem por meses e dar-lhes uma dimensão admirável. Sobre os profissionais, já expressei minha admiração.

Minha relaçao com a telenovela é parecida com a que tenho com a música. Não adianta nada alguém me dizer que, sei lá, a Sandy tem uma boa voz se as letras das músicas que ela canta são pavorosas. De nada adianta todo o trabalho que técnicos, atores, diretores e autores têm para levar uma telenovela ao ar se o texto não consegue fugir das mesmas tramas, situações e cacoetes de vinte anos atrás. Hoje em dia, se alguém começa a assitir a um capítulo de telenovela perto de mim, durmo, leio um livro ou vou para a internet. E acabo escrevendo um post como este.