A Normalopatia

J.P.Coutinho, sempre exato, discorre sobre a normalopatia (neologismo dele), ou seja, a irritante obsessão da psicologia moderna em enquadrar a todos nós em um modelo de normalidade. Timidez? Tem de ser curada. Mau humor? Indesejável. Tristeza? Atrapalha a vida. Agora as nossas pequenas neuroses, que mal mereciam tal designação, são descritas como doenças. Em breve, serão vítimas de preconceito quaisquer sujeitos que não se enquadrem na lista de características pessoais desejáveis.

Enquanto isso, na sala de justiça, a consultora contratada para avaliação de livros para a Secretaria de Estado da Educação de São Paulo será punida pela desastrada sugestão de incluir o livro em quadrinhos para adultos Dez na Área, Um na Banheira e Ninguém no Gol a alunos do ensino fundamental. A bagunça, certamente, é bem conhecida: após comprar lotes da obra, alguém percebeu que as histórias envolviam sexo, preconceito e referências politicamente incorretas. Algo de errado? Não. Mas é bastante óbvio que não se trata de material destinado a molecada de nove anos. Quem errou neste caso? O estado, claro, que, na sua incompetência educacional, fez a escolha. Quem foi satanizado? O livro, evidentemente. Afinal, todo mundo sabe que quadrinho é coisa de criança, certo? Não, errado. Aliás, não poderia estar mais errado.

Continuando a irritante série de perguntas, o que o primeiro parágrafo tem a ver com segundo? São demonstrações claras da nossa incapacidade de aceitar a diversidade, seja de pessoas, seja de obras artísticas. Falta-nos a habilidade para encarar o fato inapelável de que o mundo é complicado, estranho, perigoso e que está o tempo todo desafiando nossas ideias tão certinhas e bem estabelecidas. Não, não estou defendendo a abolição dos valores pessoais, longe disso: talvez eles sejam mais necessários hoje do que em qualquer tempo. Apenas estou dizendo que o exagero na nossa natural tendência a classificar e organizar a realidade pode ser danosa. Assim como queremos descrever detalhadamente e adequar o maior número possível de indivíduos a um ideal patético de normalidade, impomos limites artificiais aos gêneros e meios artísticos. O caso dos quadrinhos é emblemático.

Pegue-se um álbum como Retalhos, de Craig Thompson, ou Persepólis, de Marjani Satrapi; ou ainda a obra de um gênio como Will Eisner e ficará logo claro que se tratam de artistas que fizeram uso de um meio tradicionalmente associado à infância para contar histórias voltadas a adultos. E tenho certeza de que os resultados não seriam os mesmos se eles tivessem escrito suas tramas como romances convencionais. Quando não conseguimos encaixar uma obra naquilo que esperamos dela, apelamos ao puritanismo e a desculpa esfarrapada de proteger nossas crianças para ocultar nossa incompetência e a mais pura e simples estupidez.

Quanto às pessoas cujas personalidades agora são classificadas como doenças, a resposta é a mesma: neste caso, não recorremos a proibição e sim a psicologia, já descrita mais de uma vez como o sacerdócio secular do nosso tempo. Se é difícil lidar com o tímido, o expansivo, o anti-social e o mau humorado, então é porque eles devem ser doentes e precisam de tratamento para ficar iguaizinhos a nós. Há duas consequências terríveis desta ideia. A primeira, é presumir tolamente que somos normais. Não somos; em menor ou maior grau, todos carregamos nossas frustrações, neuroses, esquisitices. A segunda é desviar esforços que seriam melhor investidos na ajuda àqueles que mais precisam de apoio e sofrem a ponto de ter suas vidas devastadas por enfermidades reais ou características psicológicas, digamos, exacerbadas.

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