Coração das Trevas, de Joseph Conrad

Publicado em 1922, Coração das Trevas é o típico clássico mais citado e admirado do que propriamente lido. Em parte, culpa do filmaço de Coppola, Apocalipse Now, que, todos já sabemos, desloca a ação da África equatorial para a Guerra do Vietnã. A esta altura, a maioria já associou a imagem de Marlon Brando a de Kurz e sua frase “O horror, o horror” sem sequer saber que se trata de uma adaptação.

(Nota rápida: Muito embora a maioria das traduções trate de colocar um artigo antes de Coração das Trevas, vale a pena dizer que o título original é mesmo Heart of Darkness. O insidioso, embora não necessariamente incorreto, artigo tende a querer localizar, especificar o lugar onde estão as tais trevas. Certamente, não era esta a intenção de Conrad. Logo, daqui para frente, refiro-me ao livro apenas como Coração das Trevas)

É um livro que se lê rapidamente e se demora a esquecer. Narrado pelo marinheiro Marlow, talvez levado pelo relativo tédio da chegada do barco onde está no início da história em direção a Londres, talvez como uma forma de confissão que não espera nem se faz em virtude da redenção, conta seu período como empregado de uma companhia inglesa na África e seu encontro tardio com o Sr. Kurz. O notável Sr. Kurz é um dos personagens mais impressionantes e enigmáticos da literatura. Sua trajetória não é dita em detalhes, muito do que sabemos a seu respeito vem de relatos de terceiros, mesmo seu aspecto físico parece difícil de definir – embora magro e abatido, permanece altivo. Jamais podemos ler seus magníficos discursos, supostamente capazes de eletrizar multidões, tanto de nativos quanto de pobres-diabos perdidos naquela selva. Conrad nos pergunta se acreditamos na grandeza de Kurz ou se somos capazes de ver apenas sua ruína – quando Marlow o conhece, está à beira da morte, guardado por uma tribo especialmente hostil. É certo que enlouquecera, mas teria sido a febre louca do marfim ou algo mais? Por outro lado, seria possível a um homem enlouquecer por excesso de lucidez? Ou esta pergunta não seria apenas uma visão romântica da decadência inevitável que acometeu não apenas Kurz, mas tudo e todos à sua volta? Todo o livro está habitado por demonstrações de atos selvagens que visam a… absolutamente nada. Como o navio ancorado que atira seus canhões em direção a floresta, como se cumprindo uma grande missão; ou os nativos que se deixam levar pela fadiga e exploração; ou a orgia patética dos companheiros de viagem que não perdem a oportunidade de atirar, sem qualquer habilidade, contra os membros da tal tribo.

Há um esgotamento crescente dos desejos, da vontade, da moral, rumo a um mundo cuja finalidade, o propósito mesmo de sua existência, escapa ao narrador. Apesar de algumas das mais intensas descrições já feitas desta derrocada, o momento mais impressionante de Coração das Trevas é seu desfecho, quando Marlow se encontra com a mulher que Kurz tinha como companheira. A descrição do seu estado de viúva e a da sala e seus móveis em que encontram é magnífica e lamento não ter aqui um exemplar do livro para citar. Marlow dialoga rapidamente com um Kurz que não conhecera: são. E mente para ela, deixando que o Kurz anterior a sua partida continue existindo – ainda que ela pareça saber disso.

Talvez nunca um livro tenha sido tão preciso ao discorrer sobre o que não há como ser dito.

Sim, eu sei, é presunçoso amarrar um autor a outro, mas fiquemos com Pessoa:

O inexplicável horror
De saber que esta vida é verdadeira,
Que é uma coisa real, que é [como um] ser
Em todo o seu mistério
Realmente real.

5 Respostas to “Coração das Trevas, de Joseph Conrad”

  1. Ricardo Antônio Lucas Camargo Says:

    Nada de presunçoso em amarrar Fernando Pessoa a Conrad, na medida em que a preocupação de ambos, com a vida como um encadear de conflitos e sofrimentos sem sentido, uma história cheia de fúria e som – para usar a expressão de Shakespeare no seu Macbeth – é similar. Creio que seria interessante, também, recordar uma comunhão de interesses de Conrad e Kafka – curiosamente, ambos eslavos de nascimento e falecidos no mesmo ano – no que tange às situações insustentáveis e inexoráveis em que o ser humano se enleia, sem delas conseguir sair, embrenhando-se nelas cada vez mais e mais, o primeiro, entretanto, em ritmo de ágil aventura, o segundo, em caráter mais intimista, mas nem por isto menos brutal.

  2. Direito, literatura e a manipulação da irracionalidade pelo poder econômico « Blog Direito Econômico Says:

    […] LOPES, Marcelo. Coração das trevas, de Joseph Conrad. https://universotangente.wordpress.com/2009/07/14/coracao-das-trevas-de-joseph-conrad/, acessado em 16 maio […]

  3. Lígia Savio Says:

    Olá! Muito pertinente sua associação de Conrad com Fernando Pessoa. Acabei de reler o Fausto do autor português e a palavra que mais aparece é o “horror”. A partir daí já pensei em Conrad. É um horror metafísico, o horror de existir, o horror de saber que não é possível compreender, que o universo não tem fim, que nada tem fundo, ou se tem, não podemos atingi-lo nunca, nem talvez depois da morte. E vale lembrar que O coração das trevas é de 1902. O Fausto de Pessoa começa a ser escrito em 1908 e ele lia perfeitamente em inglês, língua em que foi alfabetizado…Abraços
    Lígia

    • Marcelo Lopes Says:

      Lígia,

      Obrigado pelo comentário. Este horror metafísico aparece de forma às vezes caricata, às vezes deseperada, e de forma bem diferente em Thomas Bernhard também, um dos meus contemporâneos preferidos.

      Abs!
      Marcelo.

  4. gabriela peralta Says:

    muito obrigado pelo resumo-*-

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