Rumo à Estação Irrelevância

Você conhece a Mayara? Não? Mas está sabendo da foto famosa de Obama (que, no final das contas, não estava olhando) e Sarkozy observando a derriére de uma menina brasileira durante reunião do G8, não está? Acredito que sim, mesmo que você tenha tido a decência de evitar os noticiários nos dias seguintes ao fato. Então deixe que eu os apresente: a menina chama-se Mayara. E não, ela não estava lá por causa de seus atributos físicos, ela foi convidada da UNESCO como representante brasileira de jovens que atuam em prol de suas comunidades. Certamente, isso não foi noticiado, ou se o foi, apenas por uns poucos segundos. Eu fui um dos ingênuos que quis acreditar (I want to believe, diria o Fox Mulder) que a mídia teria um mínimo de vergonha na cara e não exploraria excessivamente o caso. Veja bem o que eu disse: excessivamente. Porque era certo que Mayara (lembra?) viraria notícia por culpa da maldita foto. Em outras palavras, encarnei ao mesmo tempo os três macacos idiotas, ora com as mãos sobre os olhos ora sobre os ouvidos e a boca. Mas isso ao menos serviu para que eu inventasse uma nova teoria, a partir de outra, de origem bem mais nobre.

Dizia Nelson Rodrigues que o brasileiro sofre de complexo de vira-lata. Antes mesmo de se informar sobre o estado de alguma coisa por aqui, já acredita que fora do país certamente a situação é melhor. Eu mesmo já fui acusado de ser portador deste complexo. Nego e renego a acusação. Eu apenas não consigo fingir que tudo está indo bem quando claramente vivemos numa terra que dá voltas ao redor de si mesma indefinidamente nos últimos… 509 anos, eu acho. Há coisas admiráveis aqui? Sim, há pessoas fantásticas, algumas poucas públicas, além de uma multidão de anônimos que merecem o respeito e o reconhecimento que provavelmente jamais terão.

Porque a maioria gosta mesmo é de auto-engano. Na falta de características positivas relevantes que possam ser eleitas como marcos admiráveis de nossa cultura, digo, da cultura nacional, tratamos de identificar traços de cultura periféricos e damos aura de grande coisa a eles. É o complexo de vira-latas reverso. O Brasil pode ter uma elite política abominável, péssimos índices educacionais, uma população que ainda acredita em boa parte na força do tacape ditatorial e uma desigualdade social equiparável a um abismo, mas ainda é o melhor lugar do mundo para se viver porque nossas mulheres são mais sensuais, nosso carnaval mais bacana e nosso jeitinho, opa, capaz de resolver qualquer problema. Veja que não estou negando nada disso. Ok, a mulher brasileira é bonita sim (mas colocá-las todas no mesmo caldeirão que comporta, sei lá, a Mulher-Melancia, é ofender quem deseja se destacar pela inteligência e não pela bunda, e a Mayara aí do primeiro parágrafo concordaria comigo), o carnaval é gigantesco (detesto carnaval, todo mundo sabe disso; mas gera muito emprego e movimenta boa parte da indústria do turismo, o que ofusca muitos outros eventos e cidades mil vezes mais interessantes do que esta festança besta) e o jeitinho tem lá seu lado positivo (a adversidade treinou alguns dos profissionais brasileiros mais interessantes do mercado internacional, mas é uma cultura está por trás de toda corrupção, da cervejinha para o guarda aos desvios bilionários de recursos). O fato é que tudo isso é acessório: não melhora nossos índices sociais, não aumenta a eficiência do estado e não educa ninguém.

Pelo contrário: a nossa obsessão pelo supérfluo serve apenas para desmotivar quem deseja o aprimoramento pessoal verdadeiro ou até mesmo quem, como Mayara, quer ajudar seus próximos. O orgulho da nossa sensualidade, nosso estilo e nossa ginga, por mais interessantes que sejam, serve também para esconder o óbvio: que estamos fracassando em quase tudo que é relevante. E não, a bunda de uma menina (ela tem 17 anos) sob os olhares atentos do presidente francês não é relevante. O trabalho de Mayara e a quase inútil esperança de que gente como ela faz parte de um Brasil menos estúpido, de mau gosto, machista e atrasado é que deveria ser relevante.

Do jeito que vamos, nosso destino é o igual ao nosso passado: de irrelevância.

Post inspirado em Mayara, Obama e a imprensa ridícula.

Uma resposta to “Rumo à Estação Irrelevância”

  1. Topifaive Até parece que não sou brasileiro « Universo Tangente Says:

    […] a coisa é mais séria. Eu sei que citar a si mesmo é perigoso, mas não vou reescrever o que já disse antes; basta copiar e colar: a adversidade treinou alguns dos profissionais brasileiros mais […]

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