A última inocência

Hoje em dia é comum ridicularizar, apontar os erros, duvidar das motivações ou até mesmo acreditar nas mais diversas teorias de conspiração que dizem que as conquistas do programa espacial não passaram de uma fraude grotesca. Nada disso me importa neste texto, não pretendo defender a exploração do espaço ou refutar os argumentos falhos de quem acredita que o homem não foi à Lua. Porque a óbvia motivação deste post é a comemoração dos 40 anos desde que Armstrong deu uma pisada no solo poeirento do nosso satélite.

Deixo para outros livros, blogs e sites a admiração científica, o fascínio pela técnica, aventura ou mesmo pela coragem de quem resolver encarar o que foi, muito provavelmente, a mais espetacultar viagem já realizada por alguns poucos seres humanos. Tudo isso tem seu valor, lugar e espaço nas descrições detalhadas que o evento ganhará nos próximos dias. Documentários, a reprise de Da Terra à Lua, livros, sites, tudo isso pode ser encontrado com pouco esforço e alguma paciência – afinal, o material disponível é gigantesco. Mas, se eu resolver falar disso, além de pouco ou quase nada acrescentar, ainda correria o risco de escrever alguma bobagem. Não passo de um entusiasta formado pelo Discovery Channel e pela SuperInteressante, já disse isso.

Talvez tão fascinante quanto os primeiros voos espaciais em direção à Lua tenha sido a reação da humanidade, não apenas a dos norte-americanos. Primeiro evento que realmente contou com uma audiência global, unida pela televisão, a descida do homem na nossa companheira pedregosa e estéril eletrizou o planeta num momento delicado da história. Não era mais o tempo de Norman Rockwell ou do retorno dos soldados do solo europeu; é impossível negar que em 1969 o mundo parecia ter se voltado contra si todas as dúvidas possíveis e resolvido, de uma hora para outra, colocar tudo em xeque. No meio desta aparente convulsão, e sob o governo de um presidente que, alguns já intuíam, seria odiado em poucos anos, contra qualquer expectativa lança-se a Apolo 11 rumo ao espaço. Não que outras naves tripuladas não houvessem ido tão longe; mas naquela estavam Buzz e Armstrong, que caminhariam no solo lunar.

Caminhar é um ato tão básico e simbólico de nossa humanidade que talvez isso tenha escapado àqueles homens. Sei bem que é vulgar (e nada novo) falar disso, mas de certa forma, observar o modo desajeitado e inseguro com que os homens venciam as minúsculas distâncias que lhes eram permitidas na Lua nos lembrava de nossa fragilidade. Naquele momento breve, havia um fascínio que só pode ser descrito como inocência nos olhares de boa parte do mundo. Pela última vez, recuperamos a delicadíssima inocência infantil de admirar uma nova paisagem, um brinquedo nunca antes visto, um animal fascinante e desconhecido. Estávamos orgulhosos de nossa humanidade, de nossa capacidade em superar e vencer o que parecia impossível poucos anos antes. Tínhamos ali a esperança que obras de ficção científica já haviam espalhado: de um futuro próspero e pacífico organizado pela ciência. Era, claro, uma ideia ingênua demais, simplória demais. Mas estávamos contagiados por ela. Isso foi memorável, e aconteceu naquele dia pela última vez.

Seis anos e meio depois, eu nasceria. O fascínio já havia cedido à rotina quando, em 1972, a última missão lunar tripulada retornou. No ano de meu nascimento, o projeto Apolo foi aposentado e anunciado o ônibus espacial, que agora está também prestes a ser desativado.

A frase que motivou este post veio do blog português de ficção científica Blade Runner:

Durante os anos mágicos do Programa Apollo, a Humanidade pode espreitar o mundo e o universo pelo olhar fascinado de uma criança. Nunca mais a Humanidade foi tão jovem.

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