Archive for agosto \30\UTC 2009

Túnel do tempo

domingo, 30 agosto, 2009

Tentando fugir da ausência neste blog, reapareço com duas lembranças de cultura pop da minha infância e adolescência – e talvez de mais alguns.

Na Terra Magazine, o escritor e jornalista Roberto de Sousa Causo resenha a nova versão do filme A Onda. Confesso: A Onda é um de meus pequenos traumas escolares: perdi o número de vezes em que alguma professora de história decidia passar este filme para a turma. Ajudava o fato de, na verdade, ser um telefilme dos anos 70 de apenas 44 minutos de duração – ou seja, encaixava-se perfeitamente em uma aula. Outros campeões de audiência estudantil eram Em Nome de Deus, sobre Abelardo e Heloísa, e o perturbador O Senhor das Moscas, baseado no livro de William Golding. De qualquer forma, o novo A Onda parece bem melhor do que a sua versão original – mesmo moleque, eu a achava tímida – indo numa toada mais parecida com O Aprendiz de Brian Singer. Assim que eu o assistir, escrevo com mais cuidado.

Já no UniversoHQ, é a vez da antiga revista em quadrinhos dos Trapalhões, editada nos anos 80 pela Bloch e Rio Gráfica, ser lembrada. Alguns anos atrás, havia uma única imagem desta esquecida revista na internet – a mesma que os editores da SuperInteressante tiveram que usar em uma nota sobre a investida do quarteto nos quadrinhos. A maioria lembra-se de um título relativamente recente em que os Trapalhões eram apresentados como crianças, as histórias simples e inocentes. Esqueça isso. A revista dos anos 80 era absurda, escrachada, recheada de metalinguagem, um tanto sacana e sem nenhum medo de ser o que hoje chamamos de politicamente incorreto, às vezes grosseira e frequentemente esperta. E, num contraponto a uniformização dos títulos atuais, servia de veículo para as preferências de seus autores e desenhistas – sejam esportivas ou até ideológicas – que os leitores acabavam identificando. Foram surpreendentes 83 edições até o cancelamento em 1986. Gostaria de ainda ter algum exemplar.

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E pur si muove

quinta-feira, 20 agosto, 2009

Escrevi este post e o enviei para amigos que, assim como eu, trabalham com TI (Tecnologia de Informação) e desenvolvimento de software. Pode não ser interessante para quem não vive nesta área, mas se refere a algumas alterações profundas e francamente irreversíveis que vemos acontecer, em especial na web/internet/tecnologia. Curiosamente, são os profissionais de TI da minha geração (e anteriores) alguns dos mais resistentes a estas mudanças.

Sei que muitos profissionais de TI têm alguma preguiça em acompanhar a evolução do relacionamento das pessoas com a internet (área dos profissionais de mídia), mas é preciso entender algumas coisas.

Se você tem mais ou menos uns 35-45 anos e trabalha com TI, muito provavelmente já é um dinossauro.

Isso mesmo. Um braquiossauro de pescoço comprido e olhar ingênuo.

Nossa geração ainda pensa em internet como sinônimo de navegação por páginas, pesquisa por palavras, pornografia (sim, pode admitir; mesmo que você não consuma isso, pensa que a internet é, entre outras coisas, um repositório de safadezas), sites institucionais e um ou outro serviço online. E, sim, ainda usamos e-mail.

Pois é melhor saber a verdade agora do que tarde demais: tudo isso é coisa do século XX, ficou para trás, assim como o Netscape, a Compuserve e os CDs da AOL. Serviu como base, mas está morto e enterrado.

O futuro é da mídia social.

Wikis, redes sociais, mashups, blogs, twitter, Youtube. São apenas alguns dos produtos e conceitos que nasceram do desejo que as pessoas têm de se comunicar umas com as outras. A mídia social não é criada mais por empresas, mas pelas pessoas, pelos que nós chamamos às vezes com algum desdém de “usuários”. Eles alteram e adaptam os produtos às suas necessidades – ninguém usa mais e-mail, manda scrap. Eles juntam os produtos e criam coisas novas, muito diferentes do que os criadores originais dos serviços haviam imaginado (estão criando a web semântica e ainda não sabem disso).

E não adianta reclamar nem ofender a inteligência deles porque não entenderam o serviço genial que você projetou.

Porque quem está certo nesta história são eles; os não-técnicos entenderam que o mundo digital caminha para a ubiquidade – ou seja, estará em todo lugar, sempre ao nosso lado, sempre conectado. Aliás, a ideia mesmo de conectar-se já é antiga, não faz sentido.

Não estamos conectados. Somos conectados.

Em breve, nós, os dinossauros, seremos numericamente inferiores. Os meninos e meninas da geração Y não usam mais e-mail, não se interessam por sites institucionais e não ligam (muito) para a nossa paranóia com a privacidade digital. Redes sociais são mais populares do que pornografia, os jornais não são mais lidos e as rádios não são mais ouvidas.

Estamos assistindo ao mais furioso e poderoso rascunho do futuro digital já imaginado.

Duvida? Então leia isto: As estatísticas mostram que as mídias socias são muito maiores do que você pensa (em inglês).

E pense a respeito.

Topifaive Sugestões para Gramado

quarta-feira, 19 agosto, 2009

Depois que a Xuxa (sim, a Xuxa, ela mesma) foi homenageada no Festival de Cinema de Gramado, gostaria de deixar algumas sugestões para as próximas edições:

1.Paulo Cesar Pereio: Precisa explicar? Ninguém no cinema nacional diz(ia) um sonoro palavrão como ele.

2. Selton Mello, Lázaro Ramos e Wagner Moura: De cada 10 filmes nacionais dos últimos anos, 11 têm ao menos um destes. Eles são ótimos atores, mas mereceriam o prêmio arroz-de-festa.

3. Guilherme Fontes: O cara que recebeu para fazer um filme e não fez. No mundo do software existem programas apelidados de vaporware, ou seja, sistemas prometidos e jamais entregues. Chatô é o primeiro vapormovie do cinema nacional. Um marco.

4. Carla Perez: Se a Xuxa pode, então a atriz(?) de Cinderela Baiana(???) também, já que seus filmes estão no mesmo nível (entenda isso como quiser, ou melhor, da única forma possível).

5. O Rambú do Amazonas: Se a ideia é premiar trasheira, que se reconheça um trash legítimo, autêntico e divertido.

Velha nova polêmica

sexta-feira, 14 agosto, 2009

É, aconteceu de novo. Um tirinha do Chico Bento, personagem de Maurício de Souza, causou polêmica ao ser incluída numa cartilha distribuída pela Secretaria da Educação da Bahia. Na tirinha, após ouvir um filho de “coroné” se gabar das cabeças de gado de seu pai, Chico manda o moleque meter o rebanho inteirinho numa área anatômica que raramente vê a luz do dia. Sejamos sinceros: as chances de Maurício de Souza publicar uma tira destas devem ser as mesmas de o Sr. Spock se materializar agora, na sua frente, vestido de Carmen Miranda e cantando A Balada de Bilbo Baggins em russo. Então, de onde veio a tirinha que causou a celeuma toda?
Da internet, claro.
É muito comum encontrar versões pornográficas de personagens famosos ou tiras com as falas trocadas, geralmente transbordando de palavrões. É humor adolescente e de mau gosto, ao estilo do (hilário e cretino) Batman-Feira da Fruta. Acreditamos que um profissional de educação, destes que selecionam o material que o seu filho vai estudar, tem a capacidade de discernir entre o material não-oficial e o legítimo. Mais: temos a certeza absoluta de que ele lê o que recomenda e que sabe muito bem que o fato de o conteúdo se apresentar na forma de quadrinhos não significa que seja adequado a crianças, certo? Estou excluindo a possibilidade de sabotagem ou brincadeira de mau gosto porque o histórico está contra as escolhas. Se a tirinha realmente foi selecionada por alguém cuja responsabilidade inclui aquilo que as crianças estudarão nas escolas, então jamais deveria trabalhar com isso.
Na verdade, estes casos são tão inacreditavelmente bizarros que só me permitem uma conclusão, nada nova: somos um país de analfabetos funcionais e de preguiçosos crônicos. E pior: alguns destes analfabetos e preguiçosos (muitas vezes as duas coisas numa única pessoa) estão ligados aos órgãos educacionais, lugares onde o senso comum diz que este tipo de profissional seria naturalmente excluído e barrado.

BBB – Big Brother Books

terça-feira, 11 agosto, 2009

Sim, eu sei que o título não faz muito sentido, eu só quis mesmo aproveitar a sigla BBB, que já virou mania por aqui – e correr o risco de atrair para-quedistas, claro. De qualquer forma, para mim, na escala do lixo televisivo, reality shows nos moldes do tal Big Brother estão praticamente no topo, e só perdem para os programas de barracos com testes de DNA e o humor raquítico, miserável e repetitivo (preciso mesmo dizer o nome?) que infesta os finais de semana da TV aberta – o CQC é uma exceção tão interessante que nem parece real.  Para reforçar minha fama de rabugento, chego a dizer que detesto reality shows ainda mais do que detesto o carnaval, a banda Calypso e a Fanta Uva juntos – quem me conhece, sabe o que isso significa. (*)

E quando o reality show chega a literatura, como fica? Esta ideia louca partiu de um blogueiro, segundo a notícia da Folha Online. Trata-se de um desafio online para escritores que devem criar um texto (pode ser crônica, conto, poesia, o que de na telha do Pedro Bial da internet, o cipriota Constantine Markides, inventar) semanal que será votado pelos leitores do blog. O menos votado sai até que apenas um sobreviva ao desafio e então ganhará… nada. Nem prêmio em dinheiro, nem publicação dos textos, nada. Markides diz que existem editoras interessadas, mas não promete coisa alguma. Ao menos é sincero.

Na verdade, comunidades online de aprendizes de escritores existem aos montes e funcionam mais ou menos assim. Temas são propostos, uma turma escreve, outra turma vota. Não é novidade alguma, o que faltava era alguma cara-de-pau e espírito marqueteiro para explorar o voyeurismo da internet. Claro que um BB literário atrairá apenas o mesmo público que já lê online, mas não é este o ponto. O ponto é que a internet se consolida, cada vez mais, como o espaço mais acessível ao escritor iniciante. Assim como o fim do jornalismo como conhecemos já foi decretado, a literatura online (ou em e-readers, ou no celular, ou num chip de memória implantado na sua cabeça) é um fato consumado. Este reality show não me interessa, mas é uma amostra desta nova realidade. Boa ou ruim, oportunidade de fato para bons talentos ou não, são perguntas que ainda serão respondidas – ou não, como diria Caetano.

Ainda dedicarei um post (que estou tentando escrever com mais pesquisa e informações) ou série de posts a questão da literatura online, digital, impressa, etc. Não dá para discutir um assunto tão vasto rapidamente.

E, sim, a ideia já ganhou uma versão nacional, mas dedicada ao gênero policial.

(*) Dica para quem não vai com a minha cara: se quiser me punir, basta me sequestrar. E depois me libertar, socado dentro de um daqueles medonhos abadás, no carnaval da Bahia, bem no meio da multidão atrás de um trio elétrico tocando Calypso e apenas com uma latinha de Fanta Uva quente na mão para matar a sede.

Da Mona Lisa ao projeto Apolo

domingo, 9 agosto, 2009

Imagina-se que o equipamento projetado para as longas e difíceis caminhadas no espaço ou na superfície da Lua sejam imunes ao tempo. Criados para resistir a radiação, variações de temperatura e micrometeoros, parece surpreendente descobrir que não estão imunes aos elementos da Terra. Sim, os trajes espaciais do projeto Apolo estão se deteriorando, protegidos por grossas paredes de vidro no museu do Instituto Smithsoniano.

As roupas espaciais são feitas de 21 camadas de vários materiais diferentes. Mais próxima ao corpo há uma camada macia na qual foram costurados tubos de plástico para a circulação de água. A camada seguinte é feita de náilon, com frestas para ventilação. Depois vem uma vestimenta composta de diversas camadas de vários materiais sintéticos para a pressurização. Os quadris, os joelhos e os cotovelos são acolchoados com espuma de borracha. Uma camada de politereftalato de etileno (PET), combinado a outros materiais a prova de fogo, protegia os astronautas do calor. A camada externa é feita de teflon branco.

No entanto, estão em visível processo de destruição pelo tempo e pelo clima – umidade, poeira, o ar, todos os componentes tão mundanos e conhecidos cuja ação a maioria de nós só percebe ao encarar as próprias rugas irrompendo ao lado dos olhos. Não é novidade que nossas existências são curtas demais, insignificantes demais quando comparadas às escalas do universo ou mesmo do nosso minúsculo planeta. Já tratei disso em outro post, mas é impressionante constatar mais uma vez como o registro da passagem de nossa civilzação, orgulhosa e gigantesca, está fadado a se perder. Sequer os restos físicos de nossas maiores conquistas, como as viagens a Lua, estão imunes ao tempo. Como conclui Mary Baker, na reportagem do Der Spielgel traduzida pelo UOL:

“Daqui a 500 anos a Mona Lisa ainda existirá. As roupas do programa Apollo não”.

Em Defesa da Aventura

quinta-feira, 6 agosto, 2009

Sim, eu estou linkando mais textos alheios do que produzindo os meus próprios; há várias razões para isso, mas acredito que nenhuma delas realmente interessa aos meus seis leitores e meio. De qualquer forma, se vale a desculpa, espero melhorar o ritmo nas próximas semanas.

Para não quebrar a tradição, recomendo enfaticamente a leitura do artigo Em Defesa da Aventura, de Homero a Conrad, escrito por Rodrigo Duarte Garcia para a Dicta & Contradicta. Um trecho:

[…]o pior dos leitores é o que perdeu – ou simplesmente abandonou – a experiência essencial da imaginação e da suspension of disbelief: aquele completamente incapaz de ler uma obra de ficção que não seja estritamente realista. E aqui é interessante notar que a esmagadora maioria dos leitores que se pretendem sérios (na falta de palavra melhor) fazem atualmente parte desse grupo de maus-leitores. A conseqüência disso – ou causa, dependendo do círculo vicioso ontológico da questão – é que a literatura moderna séria & respeitável também está em grande parte composta por obras realistas, feitas de histórias verossímeis e identificáveis com a experiência ordinária do mais ordinário dos homens.

O que é no mínimo estranho, convenhamos. A própria razão de ser da literatura é ocupar-se do excepcional e, até o século dezenove, as histórias sempre foram contadas justamente porque havia nelas algo de interessante e extraordinário: “As atribulações de Aquiles ou Rolando foram contadas porque eram excepcionalmente heróicas; o fardo matricida de Orestes, porque era um fardo excepcional e improvável; a vida de um santo, porque era excepcionalmente sagrada; a má-sorte de Édipo, Ballin, ou Kullervo, porque também era algo além de qualquer precedente. (…) Se somos tão radicalmente realistas a ponto de afirmar que a boa ficção deve ser ‘como a vida’, teremos contra nós a prática literária e a experiência de quase toda a raça humana”.

Começos inesquecíveis: Coração Tão Branco, de Javier Marías

terça-feira, 4 agosto, 2009

Não neguemos: a literatura nos pega logo nas primeiras frases. Autores capazes de capturar nuances, insinuar, instigar, logo no início de suas obras são poucos e raros – pensa-se logo em Kafka, Melville, Nabokov. Então começo esta série com a espetacular frase de abertura de Coração Tão Branco, do espanhol Javer Marías, na tradução de Eduardo Brandão:

Eu não quis saber, mas soube que uma das meninas, quando já não era menina e não fazia muito voltara de sua viagem de lua-de-mel, entrou no banheiro, pôs-se diante do espelho, abriu a blusa, tirou o sutiã e procurou o coração com a ponta da pistola do próprio pai, que estava na sala do almoço com parte da família e três convidados.