Chega de gramática!

A todo momento, alguém diz duas coisas que parecem óbvias e verdadeiras, mas que não são nem uma coisa nem outra: que a infância de antigamente era melhor e que as crianças de hoje são mais inteligentes que seus pais foram. Talvez sejam mesmo, mas basta pedir para um adolescente argumentar, defender um desejo ou ponto de vista (não precisa ser grande coisa em termos de argumentação; digamos, ir a casa noturna mais nova da cidade no sábado da reunião de família na casa da avó) para percebermos que está faltando alguma coisa. A inteligência pode até estar lá, mas ela não domina as ferramentas que a fazem prosperar – especialmente a capacidade de raciocínio lógico, de construir argumentações, ouvir, aceitar e rebater alegações. É muito duro dizer isso, especialmente para um nerd que admite que até gostava da escola, ou de algumas das disciplinas, mas não dá mais para negar: a escola brasileira emburrece, ou, na melhor das hipóteses, embota a inteligência.

Entre outras coisas sobre as quais eu gostaria de pensar melhor antes de afirmar, não tenho receio de apontar o modo como a língua portuguesa é tratada e ensinada como um monstruoso equívoco, a gênese do desempenho vergonhoso do Brasil em exames como o Pisa – no qual somos eternos lanterninhas.

Não ensinamos a ler ou a interpretar textos. Estamos mais preocupados em estripar, desmembrar as orações e palavras do que em usar a língua e sua beleza para aprimorar e afiar a mente dos alunos. Passamos mais de dez anos estudando gramática e análise sintática para que possamos escrever mal e ler pior ainda -geração após geração, vamos nos tornamos uma nação inteira de analfabetos funcionais. Toda a magnífica experiência da leitura é transformada num exercício burocrático e sem sentido digno dos Vogons do Guia do Mochileiro das Galáxias. A nossa obsessão pela gramática e pela análise sintática destrói completamente o que há de mais valioso na leitura: a descoberta do significado, o reconhecimento de uma visão de mundo única, pessoal, deste ou daquele escritor. Alie-se a esta maluquice a xenofobia literária que torna os alunos reféns da literatura brasileira quando poderiam descobrir Tolstoi, Shakespeare e Dostoievisk ao lado de Machado, Graciliano e Rosa. Além da chatíssima mania de estudar os movimentos literários (simbolismo, barroco, parnasianismo, naturalismo, lembra-se disso?) e não os autores e suas obras.

Não há paixão à leitura que resista a este bombardeio de burocracia.

No ótimo livro Para Ler Como Um Escritor, a autora Francine Prose relata o horror de perceber que a maioria dos alunos e professores de letras não gostava de literatura. Quando muito, estavam preocupados com macroestruturas e análises psicológicas e marxistas das obras – muitas vezes, sequer haviam lido os livros que defendiam ou rechaçavam. São estes professores que ensinarão nossos filhos e mais tarde reclamarão da incapacidade deles em interpretar um texto simples – mas como entender um texto se eles só sabem separar e não juntar?

É como ensinar um futuro médico a autopsiar um cadáver e fazê-lo decorar a função e características de cada órgão, tendão, osso e nervo do corpo e jamais permitir que ele aprecie as maravilhas cinéticas do movimento: a leveza de uma bailarina ou a explosão de força de um atleta. Como respeitar e admirar a beleza do paciente deitado na mesa de cirurgia se tudo o que o futuro médico sabe dele é nomear as propriedades de seus pedaços, das horríveis partes dispostas separadamente?

Já passou da hora de admitir que estamos fazendo algo profundamente errado com nossas crianças e perceber que precisamos mudar o rumo com urgência, porque talvez já seja tarde demais. O Brasil precisa de mais leitores e menos gramáticos. Recomendo duas leituras que me inspiraram e me fizeram pensar no assunto: Pelo ensino do prazer de ler, no Livros e Afins do Alessandro Martins e Parem de ensinar gramática, no O Indivíduo do Pedro Sette Câmara.

A propósito: Eu não vivo sem o Caldas Aulete digital e o Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa do Cegalla aqui ao meu lado.

6 Respostas to “Chega de gramática!”

  1. léo mariano Says:

    Fala Marcelo! um oá de um sumido comentarista, mas leiotr assíduo!

    Rapaz, eu sinto isso na pele. ou melhor, na sala. Faço letras, ultimo ano, mais pelo teatro do que pela carreira de magistério, e vendo meus colegas e alngus professores, e´realmente impressionante o fato de muitos não gostarem de literatura. O mias impressionante é ver nomes da cultura letrada que nada tem a ver com a gramática ou com p´raticas pedagógicas sendo usados como base para isso.

    abs e até

    PS: Viu arrasta-me para o inferno. Filmão!!!

  2. Ana Maria Montardo Says:

    Olá, sou eu de novo! Estava procurando algum link que me explicasse quem és, mas não encontrei.

    Bom, li outros posts, e este me chamou a atenção. Sou formada em Letras e mestre em Teoria da Literatura. Dei aula de Literatura Brasileira e de Língua Portuguesa, mas desisti e hoje ensino inglês apenas. Uma das razões por que desisti da disciplina de Literatura foi justamente ser obrigada a obrigar os alunos a ler livros que ou eu considero ruins ou considero inadequados para adolescentes, quero dizer, eles – os alunos – não teriam condições de apreciá-los ainda.

    Eu dava aula de Iracema sabendo que se eu pedisse que eles lessem Admirável mundo novo, a coisa ia render muito mais. Só mesmo doidos varridos têm a infeliz ideia de colocar no currículo do primeiro ano do ensino médio o estudo de Os Lusíadas e de obras do Gil Vicente.

    Só discordo de ti em um ponto: a causa de os alunos não saberem argumentar bem não é porque se perde tempo tentando ensinar gramática (e, sim, estudar gramática é importante, inclusive para argumentar; podemos não perceber quando isso ocorre, mas acontece de sermos “seduzidos” por determinados discursos simplesmente porque o orador soube colocar os termos da oração nos lugares certos de modo a ser mais persuasivo. E isso é sintaxe! Sintaxe é ordem. Se você sabe ordenar bem as palavras, sabe organizar melhor seu pensamento – ou pode desorganizá-lo também, se esta é a proposta. Saber o sentido das palavras apenas não basta. É preciso saber que ela pode ter nuances diferentes dependendo do lugar em que a colocas. É por isso que o legal é estudar morfossintaxe. Saramago certa vez comparou a gramática com os sinais de trânsito em uma estrada. Os sinais/regras servem para orientar o condutor, e pode-se ignorar as regras, desde que o condutor conheça muito bem aquela estrada/língua). O fato é que promover um debate em sala de aula para que os alunos exercitem seu poder argumentativo é uma ilusão nas salas de aula de hoje em dia. Os alunos não respeitam sua vez de falar, debocham dos colegas ou simplesmente não conseguem aprofundar assunto nenhum – mesmo quando se interessam por ele. Está cada vez mais difícil ensinar a pensar.

    Abraço!

    • Marcelo Lopes Says:

      Ana,

      Não sei se eu ainda digeri completamente a ideia que eu defendi, a abolição do ensino de gramática, ainda preciso pensar mais a respeito. Tanto que no post eu acabei defendendo a sua redução, não a eliminação completa. Sua observação é mais do que pertinente: afinal, sintaxe é ordem, e ordem está ligada a capacidade de expressão de uma idiea. Ainda tenho que pensar mais a respeito.
      Eu não sou educador e confesso (com algum pesar) que decidi muito cedo que não seria, apesar de algumas pessoas dizerem que eu teria algum talento para isso – mas, você sabe, é como elogio de mãe àquele desenho tosco que se faz aos cinco anos de idade. Mas tenho amigos professores e todos reclamam da mesma coisa: o desinteresse do aluno, especialmente o pré-adolescente e adolescente. Eu penso que este desinteresse (que chega, na verdade, a ser desprezo) é um reflexo mais ou menos esperado e indesejável da cultura na qual estes alunos estão socados, ou seja, a de seus pais, colegas e amigos. É como um círculo vicioso de valores detestáveis que alimentam uns aos outros, todos em direção a superficialidade. Não há nada de novo nisso que digo, mas talvez não tenha estado tão nítido.

      Abs!
      Marcelo.

  3. Agda Says:

    Concordo com essa questão do ensino da gramática, o engraçado é que na minha sala a professora comentou sobre isso esses dias… estávamos aprendendo a fazer resenhas e ela mostrou um exemplo, e essa resenha falava sobre um livro em que o escritor não gostava desse modo do ensino da lingua portuguesa.. só gramática, só gramática… e coisas desnecessárias.
    Ah, e quanto aos adolescentes não saberem argumentar , também não é assim né rsrs
    Acho que algumas de português, me ajudaram muito na hora de fazer redações e expressar minhas idéias de uma forma melhor. Ta certo que as aulas de português são as que mais me dão sono rsrs, pois não consigo me interessar naquilo, acho tudo muito chato… não me prende a atenção, são tantas regras e nós (alunos) sempre nos perguntamos “mas pra que eu preciso saber disso, no que isso vai ser importante na minha vida?” rsrs são coisa desnecessárias na minha opinião… mas acho que na medida certa, gramatica é essencial… pena que é ensinada de uma forma tão “obrigatória” que eu sinceramente sai da minha antiga escola sem aprender nada praticamente.
    Você falou sobre naturalismo, estou estudando isso agora, decorei o básico para a prova, ainda lembro de algumas coisas mas falando francamente, nem sei direito sobre o assunto e acredito que a maioria também não saiba.
    A Ana Maria citou Iracema, nossa, nem li esse livro, a linguagem é meio complicadinha e acho que havia livros mais interessantes, eu penso que se os professores passassem livros com uma linguagem mais compreensível, e com histórias legais, despertaria mais o interesse do aluno pela leitura, assim seria mais fácil depois, ler livros que exijam mais do aluno na interpretação e etc, pois já teríamos o hábito de ler, porque tem livros que a pessoa lê mais o dicionário que o próprio livro rsrs
    Mas acho que o importante mesmo era aprendermos a falar de uma forma correta, adquirir um vocabulário mais sofisticado, e ser compreensível, tanto em texto quando na fala, isso basta… não aprender complemento nominal, objeto direto… isso pra mim não é o essencial e eu sempre me confundo nisso rsrs!
    Mas tenho fé que um dia a educação melhore no nosso país! rsrs
    Beijos, desculpa pelo comentário gigante ^^

  4. Agda Says:

    noosa, agora q eu percebi, desculpa mesmo pelo comentário imenso rsrsrs

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