Era uma casa muito engraçada

No ensaio Do enigma ao mistério, publicado no primeiro número da revista Dicta & Contradicta e editado por Guilherme Malzoni Rabello, o poeta Bruno Tolentino conta que, durante sua infância, via a casa frequentada por gente como Manuel Bandeira, Otto Maria Carpeaux e Gilberto Freire. Não tive tantos nomes ilustres povoando meus primeiros anos, mas sofri uma influência tão decisiva quanto inestimável: nasci numa casa de leitores. Minha mãe lia desde menina, ainda muito pobre, qualquer coisa que lhe caísse nas mãos; como boa parte de sua geração, conheceu o mundo descrito nas páginas de romances água-com-açúcar para mais tarde procurar por outros autores. Meu pai lia poucos romances, mas lembro-me de que era obcecado pela Conde de Montecristo de Dumas. Sua rotina de leitura era constituída especialmente por jornais – que, com as finanças sempre apertadas, comprávamos com maior frequência aos domingos – e algumas revistas, adquiridas quando o assunto de capa lhe interessava. Aliás, ele passou longos anos sem ler coisa alguma depois que seus irmãos o apelidaram de “velho” por gostar de jornais – mas isso foi bem antes de eu aparecer.

Em notícia divulgada hoje, a Câmara Brasileira do Livro dá novos números ao que todos já sabemos: o brasileiro lê pouco, muito pouco. Mas, finalmente, alguém chega a outra conclusão, tão óbvia quanto oculta:

“É preciso difundir nas crianças não o hábito da leitura, mas sim o gosto pela leitura”, defende João Carneiro, presidente da Câmara Riograndense do Livro, que põe por terra outro mito: o de que a professora é quem desperta a criança para a leitura. “Está comprovado, por diversos estudos, que é a mãe quem primeiro incentiva a leitura. É a cultura de ler, contar histórias para o filho, antes mesmo de ele ser alfabetizado. Isto é marcante no gosto futuro pela leitura”.

Infelizmente, os professores (por que “a professora”?) acabam sendo vítimas do nosso modelo de ensino incapaz de salvar leitores. Se é verdade que a família é a primeira referência nesta atividade, também é um fato inegável que doze, treze anos sentado num banco escolar desmembrando orações e suportando a ideia de leitura obrigatória são mais do que suficientes para minar a disposição da maioria dos futuros homens e mulheres de livros.

Mais uma vez: Chega de gramática!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: