Eu não sou Rubem Braga

Marco Antonio Carvalho dedicou 11 anos de sua vida a pesquisa e escrita da biografia do escritor Rubem Braga, Um Cigano Fazendeiro do Ar. Faleceu alguns meses antes de vê-la publicada. Ironicamente, Braga trasformaria o trágico desfecho em uma crônica deliciosamente íntima, como se sussurrada com calma e afeição pelo ocorrido, por mais triste que seja. Eu não saberia fazer isso.

Moro perto de uma avenida movimentada e descobri dias atrás que um minúsculo passarinho branco (ornado com uma única lista preta no corpo) atravessa a movimentada rua voando de canteiro a outro atrás de comida e quinquilharias para seu ninho. Ele sempre pousa perto de um hortifrutigranjeiro, que em Belo Horizonte chamamos de sacolão, e dá um jeito de voltar com algo no bico, atravessando por entre os carros e ônibus em movimento – ou parados graças a um novo e frequente engarrafamento. Seu ninho não passa de um amontoado disforme de pequenos galhos ressecados, como se montado por um joão-de-barro desajeitado e apressado. Dias atrás, notei que ele tem uma companheira, relativamente menor, que de vez em quando acompanha o parceiro, um veterano em sua habilidade de desviar de motoristas desatentos, apressados e mal-educados.

Agora, imagine o que Rubem Braga faria com esta observação banal. Eu não sou capaz de ir além da oposição entre a fragilidade do animal e o ambiente que o cerca ou talvez algum comentário sobre a agilidade dele quando atravessa entre os carros. Alguns anos atrás, enganei-me enormemente ao cair na esparrela de considerar a crônica um gênero menor ou mais fácil. Em outras palavras, achei que daria um cronista ao menos bom. Nunca passei de razoável. Naquela época, eu me lembrava bem de que o Braga foi um autor fundamental quando retomei o hábito da leitura, ainda por volta dos meus 20 anos, graças àquela coleção Para Gostar de Ler. Em outro extremo, o Leviatã de Paul Auster me levou de volta ao romance, mas isto é assunto para outro post. Voltemos ao Braga, ou melhor, a ilusão da crônica como um gênero menor e facilmente dominável. Não há nada mais enganador. É mais ou menos como Hemingway, que deve ter enganado toda uma geração com seu estilo direto – pouca gente atenta para o monumental trabalho necessário para chegar a aquela síntese. O mesmo pode ser dito hoje de, digamos, Cormac McCarthy. A grande diferença entre estes autores e o Braga é que este fazia seu artesanato nas páginas diárias dos jornais.

Recomendo a leitura do ótimo post no blog do Bruno Garschagen, Como Rubem Braga Encontrou William Faulkner, de onde veio o link logo no início deste texto.

2 Respostas to “Eu não sou Rubem Braga”

  1. Ana Maria Montardo Says:

    O parágrafo “Moro perto de…” é de uma crônica do Braga (tu não colocaste entre aspas, de modo que fiquei confusa). Se for, poderias me dar o título da crônica. Fiquei curiosa.

    Obrigada!

    • Marcelo Lopes Says:

      Ana,

      O parágrafo é de minha autoria mesmo. Eu não pretendi emular o estilo do Braga, apenas mostrar, bom, o que o título diz. Por isso o parágrafo seguinte começa com “Agora, imagine o que Rubem Braga faria com esta observação banal.[…]”.

      Abs!
      Marcelo

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