A hora e a vez de Ada Lovelace

Depois de um breve afastamento do blog durante o feriado, volto a falar de figuras importantes da história de tecnologia e que quase ninguém conhece. Primeiro, foi Alan Turing; agora Ada Lovelace.

Segundo este post do Silvio Alexandre no Universo Fantástico, a cineasta Rosamarie Reed pretende rodar um filme sobre a condessa de Lovelace, baseado em suas cartas publicamente conhecidas. Ada Lovelace é uma das personagens mais interessantes do século XIX. A única filha legítima de Lord Byron, casou-se aos 20 anos e morreia prematuramente aos 36, vítima de câncer no útero. Antes disso, teve três filhos e inventou a programação de computadores em 1843.

Claro, a história é um pouco mais complicada: Ada foi ensinada pela mãe a apreciar matemática desde menina, como uma forma de se afastar da “loucura poética” de seu pai. Desde que conheceu Charles Babbage, aos 17 anos, interessou-se por sua máquina analítica, uma calculadora mecânica programável. A partir de anotações de um matemático italiano e das notas do próprio Charles, Ada acabou produzindo uma série de instruções para a máquina de Babbage, introduzindo conceitos que hoje são bastante comuns para os programadores e profissionais de tecnologia de informação. Sua contribuição é controversa, mas não resta dúvida de que ela entendeu a máquina e foi capaz de ampliar sua aplicabilidade, partindo dos estudos prévios de outros autores. Babbage, porém, tinha um projeto mais ambicioso: a máquina diferencial, uma monstrusidade mecânica capaz de cálculos mais precisos do que sua primeira invenção. Ele jamais a construiria (na verdade, mesmo a máquina analítica pouco passou de um projeto); abandonado por seus investidores, morreria pobre e esquecido. Ada não teve destino muito melhor: obcecada por corridas de cavalos e probabilidades, torrou boa parte da fortuna que possuía, um divertimento que era frequentemente abafado pelo marido. Este estranho capítulo da história da tecnologia permaneceu mais ou menos obscuro até que nos anos 50, quando os enormes computadores valvulados tomaram de assalto as universidades norte-americanas, estudantes de computação foram responsáveis por resgatar Ada e Babbage dos rodapés dos livros.

Como era de se esperar, um filme sobre uma personalidade desconhecida não é nada fácil de se produzir. Apesar do apoio de Betty Toole e Joan Baum, autores de dois livros sobre Ada, respectivamente, Ada, the Enchantress of Numbers (a “feiticeira dos números”, ou algo assim, era a forma como Babbage se referia a ela nas cartas; sim, provavelmente o quarentão arrastava uma asinha para o lado da menina Lovelace) e The Calculating Passion of Ada Byron, de Drummond Bone, especialista em Byron e de Doron Swade, especialista em Babbage. Mesmo já tendo produzido um documentário com trechos de recriação histórica sobre Marie Curie, Rosamarie Reed pede para que as pessoas escrevam para ela, relatando na carta a importância de Ada Lovelace para a ciência, de forma a pressionar a produção do filme.

Claro, é melhor que o autor da carta seja norte-americano, pois os produtores são de lá, mas nada impede um brasileiro desconhecido de engrossar o coro dos contentes. Segue aí o endereço dela:

Rosemarie Reed
On the Road Productions International, Inc.
310 Greenwich Street, 21F
New York, NY 10013

Isso mesmo, um endereço físico, uma carta física. Sei que alguns de vocês provavelmente jamais escreveram uma única carta na vida – carta mesmo, não vale e-mail. Peça ajuda ao seu pai, mãe, tio ou a alguém com mais de trinta. Pode não parecer, mas já existiu um mundo sem twitter, scraps e e-mail. Aliás, se e-mail já é coisa do passado, cartas são do tempo do Fred Flintstone. Acho que nem preciso dizer que a argumentação pró-Ada tem que ser escrita em inglês.

Algumas curiosidades para encerrar: Sydney Paula escreveu e desenhou uma história em quadrinhos curta e fantástica para o Ada Lovelace Day; o Ada Lovelace Day, claro; e The Difference Engine, um romance de história alternativa escrito por Bruce Sterling e William Gibson, que praticamente inaugurou um gênero literário chamado steampunk – algo como um revival do maravilhamento tecnológico dos livros de Julio Verne com o olhar contemporâneo – e imagina um século XIX em que Babbage construiu sua máquina diferencial. Eu tenho um projeto pessoal que envolve, de uma certa forma, Ada Lovelace e seu tempo. Mas isso fica para um futuro próximo.

Posts relacionados:
O gênio desconhecido de Alan Turing
Os 17 livros de autores nascidos em Guiné-Bissau mais bacanas publicados em 1973 no Panamá

3 Respostas to “A hora e a vez de Ada Lovelace”

  1. Giseli Says:

    Hey, gostei do post! =) E acho que vou escrever uma carta (felizmente eu já escrevia muito quando era nova), let’s see it in action!

  2. Ada, mais uma vez « Universo Tangente Says:

    […] mais uma vez Por Marcelo Lopes Há algum tempo, escrevi um longo post sobre Ada Lovelace. Em resumo: Lovelace foi uma pioneira da ciência da computação ao lado de Charles Babbage, ainda […]

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: