Coração Tão Branco, de Javier Marías

Pouco tempo atrás, postei aqui o início deste impressionante romance do espanhol Javier Marías, Coração Tão Branco. Quando comecei a leitura (lentíssima, aliás; problemas pessoais estenderam-na por quase dois meses), tinha a impressão de não perceber muito bem as ligações entre os acontecimentos narrados; isso não é problema algum, apesar de ficar claro que a trama trataria de costurar estes eventos. Mas não se engane achando que Marías o fará de forma óbvia, seguindo alguma cartilha de roteirista de cinema em que cada pedaço da história é estrategicamente posicionado de forma a maximizar o efeito final. Sua obra é repleta de sutilezas e subjetividade – sim, eu tenho este defeito de apreciar narrativas em primeira pessoa.

Desde o início o protagonista, um intérprete recém-casado, fala de seus “pressentimentos de desastre” e é a estes por vezes delicados e algumas vezes brutais pressentimentos que ele se dedica a contar. Indo do passado de sua família (que me lembra a frase de Faulkner citada por Edna O’Brien em A Luz da Noite: “O passado não está morto e enterrado; na verdade, ele nem mesmo é passado”) ao tempo em que conheceu Luiza, sua mulher, o relacionamento com seu pai, Ranz, personagem que pouco aparece diretamente e de quem não se esquece, suas viagens e sua estranha Amiga de Nova York, Berta, Juan, o narrador vai enumerando acontecimentos. São quase todos minúsculos, quase desimportantes, mas escritos numa prosa hipnótica, cuja espiral lembra algo como uma mistura improvável entre a serenindade melancólica de Sebald às obsessões e repetições de Bernhard. Marías extrai de momentos banais reflexões que nunca chegam perto do sentimentalismo, para depois recolocá-las no texto de maneiras inusitadas, em momentos absurdos – e o melhor: o conjunto acaba fazendo um sentido imenso.

Trata-se de um livro masculino, com o olhar de um homem sobre o mundo, o pai, o passado e as mulheres. Foi bastante fácil para mim perceber e concordar com esta abordagem, certamente intencional. Coração Tão Branco é um grande romance, que me impressionou bastante, geralmente chamado de segundo volume de uma trilogia que inclui ainda Seu Rosto Amanhã e Amanhã, na Batalha, Pensa em Mim. Segundo esta matéria na Bravo!, Sebald (sim, de novo) o considerava seu “gêmeo literário”; seus admiradores ainda incluem Orham Pamuk, J.M. Coetzee, Roberto Bolaño e Salman Rushdie. Ainda tenho uma pilha bem volumosa de (bons) livros a encarar este ano, mas Marías já foi incluído nela.

Posts relacionados:
Os Anéis de Saturno, de W.G. Sebald
Ainda sobre Sebald e os sonhos

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: