Do meu problema com as oficinas literárias

Quando voltei a escrever contos e um projeto de romance (coisa recente e relativamente febril), considerei por algum tempo participar de uma oficina literária – que estão se espalhando rapidamente por todo canto. Não vou entrar aqui na polêmica, meio besta, sobre talento e técnica, sobre se a oficina é capaz de transormar um não-escritor em um escritor, etc. Que existem ferramentas e técnicas que aspirantes a escritores como eu, devem aprender a manejar, disso não tenho dúvida alguma. O problema que vejo nas oficinas é outro, muito bem descrito no artigo A Essência e os Excessos, de Carol Bensimon, publicado no segundo número da revista Cadernos de Não-Ficção, da Não Editora.

Pausa: A revista é ótima, gratuita e disponível para download no site da editora. O primeiro número tratava de David Foster Wallace, J.M. Coetzee e Cormac McCarthy. O segundo traz W. G. Sebald, China Miélville e um especial sobre poesia contemporânea.

Segue o trecho do artigo (os dois primeiros parágrafos) que resume a minha implicância:

Há um discurso recorrente nas oficinas literárias que é o discurso da “economia” do texto, ou, para ecoar palavra que gostam muito, sua “essencialidade”. Texto bom é, nessa concepção, texto que vai direto ao ponto, sem rodeios ou floreios. […] A regra é clara: cortam-se excessos, resta a essência. Eu sempre fui muito cuidadosa com isso, para não cair no erro de confundir essência (conceito para lá de abstrato) com tamanho de texto, por exemplo. Essa concepção levaria a crer que um miniconto é superior a Crime e Castigo, o que, como se pode ver, não faz o menor sentido. Da mesma forma, uma cena espiralada de Thomas Bernhard, na qual o personagem coloca sua mala no chão de uma pousada austríaca uma dezena de vezes (O Náufrago), seria nada mais do que um conjunto de excessos.

As cenas, os livros, precisam ter o tamanho que o seu contéudo demanda, que, por sua vez, são determinadas pelo sentido que o autor pretende nele inserir. Por isso me parece bem pouco lógico, tanto quanto relacionar essência com extensão, crer em outra coisa na qual muitos jovens escritores costumam crer: que a essência encontra-se na espinha dorsal do texto, nas ações que conduzem a trama, e que por isso descrições de ambientes, detalhamentos psicológicos de personagens, ou ações que não fazem a narrativa andar, todos esses elementos seriam excessivos e, portanto, descartáveis.

Recomendo baixar e ler este artigo com atenção – a revista toda, aliás. Enquanto isso, corro para o meu Para Ler Como Um Escritor.

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2 Respostas to “Do meu problema com as oficinas literárias”

  1. Barbara Says:

    “…descrições de ambientes, detalhamentos psicológicos de personagens, ou ações que não fazem a narrativa andar, todos esses elementos seriam excessivos e, portanto, descartáveis.”

    Poxa, isso para mim é o mais delicioso nos livros. É o que move minha imaginação!😉

  2. ana Says:

    NÃO existe régua ou fita métrica literária. Isso é tolice. Leiam O Castelo Branco no qual Pamuk faz inúmeras incursões sobre os sentimentos e aflições de um escravo sábio a serviço de um amo medíocre.
    Que é isso, agora, de se medir talento?
    Há textos minimalistas. Mas àqueles em que a criação é abolida pra encurtar a estória, melhor ler notícias no twitter.

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