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Diário Absolutamente Verdadeiro de um Índio de Meio-Expediente, de Sherman Alexie

segunda-feira, 30 novembro, 2009

Ok, deixe-me confessar um preconceito: não assisto/leio cinema/literatura juvenil. Se você quiser me torturar, amarre-me a um sofá e me obrigue a assistir as todas as 78 séries de bruxos, bruxas, magos e aparentados adolescentes do Disney Channel. Ou High School Musical. Ou Crepúsculo. Tá bom, tá bom, eu tenho alguma simpatia pelo Harry Potter, afinal toda regrinha merece ser quebrada e este post só existe mesmo para dar um soco bem na cara desta. Acabo de ler um livro voltado ao público adolescente sensacional: Diário Absolutamente Verdadeiro de um Índio de Meio-Expediente, de Sherman Alexie com ilustrações de Ellen Forney, da Galera Record, linha juvenil da Editora Record.

Para quem imagina que todos os índios norte-americanos são prósperos empresários do mundo dos cassinos e que administram suas reservas e tradições com sabedoria e empenho, o autor nos apresenta a reserva Spokane: um grupo de índios pobres, muitos deles alcoólatras e sem qualquer perspectiva, cercados por um mundo que os vê apenas como atração turística. O protagonista Arnold Spirit Junior é um adolescente que nasceu com líquido em excesso na cabeça e dez dentes a mais na boca, além de ser bastante magro e usar um óculos tosco. Depois de um incidente incomum na escola da reserva, ele decide estudar na cidadezinha dos brancos ricos, distante 32 km da sua.

Se a narrativa é simples, direta e correta, como seria mesmo de esperar de um jovem com pretensões artísticas – são do personagem as ilustrações internas – ela segue rumos complexos e, por isso mesmo, interessantes. Aos poucos, Arnold vai descobrindo (e o leitor com ele, claro) que as coisas não são tão simplórias quanto imaginadas no momento em que decide mudar o rumo de sua vida. Se os brancos não são apenas os riquinhos idiotas, tampouco os índios são tão-somente bêbados sem futuro . Aos poucos, ele vai descobrindo (e vivendo) tristezas, pequenas alegrias e grandes tragédias que ampliam significativamente sua compreensão das pessoas ao seu redor – inclusive e especialmente daquelas que ele julgava conhecer há anos.

Apesar de uma ou outra passagem forçada (o autor é um índio Spokane que também estudou em uma escola para brancos; segundo ele, a experiência real foi muito pior), Diário Absolutamente… é mais sensível e generoso com seus personagens do que qualquer outro livro juvenil que eu me lembro de ter lido umas duas décadas atrás – nada mais triste do que uma observação destas para revelar sua idade – e parece melhor do que quase tudo de que tenho notícia sendo publicado e exibido hoje em dia voltado para o mesmo público.

Mas talvez a capacidade de ainda provocar emoções genuínas em quem já passou pela adolescência seja seu feito mais notável e generoso.

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Ponte para Terabítia (o filme)

É preciso salvar a solidão (ou Coisas que eu gostaria de ter dito – 8)

quinta-feira, 26 novembro, 2009

Graças a indicação de uma amiga querida, foi atrás de informações (leia-se Google) sobre a escritora Márcia Tiburi, que acaba de lançar o livro O Manto, trabalho já elogiado por ela. Encontrei esta entrevista fascinante em que a autora, entre outras coisas, diz vir do desenho, que foi a primeira coisa que fez na vida. Curiosamente, eu também; a palavra surgiu um pouco mais tarde. Na verdade, eu desenhava havia doze anos quando escrevi meus primeiros rascunhos – hoje vergonhosos, claro.

Mas fiquei impressionado mesmo foi com esta pequena constatação, tão simples, bela e curiosa, usada pela Márcia ao explicar as razões da sua Trilogia Íntima (os romances Magnólia, A Mulher de Costas e O Manto) :

A trilogia poderia chamar-se do oco, da ausência, do vazio, do interno, do por-dentro, do imanente, do imo, do ínsito. Chamo-a assim porque acho que os três livros falam de um território: o íntimo. É um lugar em extinção. Só pode ser preservado pela solidão, mas a solidão está em baixa. Eu fundei um movimento para salvá-la.

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Nova pausa

segunda-feira, 16 novembro, 2009

Mais uma vez, devo ficar afastado por mais ou menos uma semana. Desta vez, estarei na cidade dos senadores bigodudos. Assim que voltar, postarei algumas coisas que ando lendo e pensando – além de finalmente retomar o quase falecido Todos os Filmes.

Até a volta!

Prévia: O imitador de vozes, de Thomas Bernhard

quarta-feira, 11 novembro, 2009

Estou lendo dois livros: A Luz da Noite, de Edna O’Brien e este O Imitador de Vozes, de Bernhard. Claro, ainda não terminei nenhum dos dois. Ambos são ótimos por motivos e com estilos completamente distintos, mas por enquanto falo apenas do Imitador. Quando li sobre ele, imaginei que seria um livro menor da extensa produção de Bernhard; que seu estilo obsessivo, circular e virtuoso não caberia em contos curtos – aliás, alguns curtíssimos. Estava enganado, e ainda mais enganado quanto a habilidade e inteligência do autor. De fato, o seu famoso estilo não funcionaria em narrativas curtas. Então, ele decidiu torná-lo, digamos, horizontal. Suas narrativas repetem temas, episódios, personagens, sempre unidas por um narrador que são vários. Suicídios, traições, assassinatos, uma sucessão de episódios miseráveis e incompreensíveis, vez por outra esbarrando levemente no fantástico, frequentemente no limite entre o grotesco e o patético. Torna-se um livro tão exasperante, aos soluços, quanto suas narrativas longas.

Como ainda não terminei, ficarei devendo uma citação (aliás, o belo projeto gráfico da capa já é uma citação sensacional). O livro me fez lembrar de um trecho da história em quadrinhos Watchmen, obra-prima de Alan Moore, quando o sociopata mascarado Rorschach conta uma piada, que, em tudo, parece-se com um dos contos de O Imitador de Vozes.

Um homem vai ao médico. Diz que está deprimido. Que a vida parece dura e cruel. Conta que se sente só num mundo ameaçador, onde o que se anuncia é vago e incerto. O médico diz: “O tratamento é simples. O grande palhaço Pagliacci está na cidade esta noite. Vá ao show. Isso deve animar você”. O homem se desfaz em lágrimas. E diz: “Mas, doutor… eu sou o Pagliacci.”

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Humor em Thomas Bernhard: Por que só eu não vejo isso?

Agradecimentos (ainda que tardios)

sexta-feira, 6 novembro, 2009

Na confusão das últimas semanas, deixei de agradecer a dois links recebidos para o post O Gênio Desconhecido de Alan Turing. O primeiro, do blog Universo Fantástico, do Silvio Alexandre, que reúne artigos, notícias, resenhas e tudo o mais que for interessante em se tratando de literatura, cinema e quadrinhos fantásticos. O segundo, do fantastik.com.br, do Eric Novello, cuja missão é tecer um retrato da literatura fantástica produzida no Brasil, assim como resgatar e divulgar sua história. Ambos oferecem informação atualizada, com frequência e precisão, para todo mundo (como eu) interessado em arte fantástica. Vale muito a pena visitar, linkar e acompanhar os dois.