O que é um livro / filme antigo?

Diante da minha recente aquisição dos filmes Edward Mãos de Tesoura e Drácula de Bram Stocker (já resenhado no Todos os Filmes), fui surpreendido pela declaração de uma pessoa conhecida de que estes são filmes velhos e que eu estaria desatualizado. Confesso que não entendo bem este critério para considerar um filme como velho. Seria velho qualquer filme produzido antes do seu nascimento? Antes de 1960? Dois anos atrás? E um livro, então? Quando um livro se torna velho?

Aliás, isso faz algum sentido ou diferença?

Para a maioria das pessoas, sim. E a classificação não é lá muito precisa: na verdade, só são considerados produtos culturais novos aqueles que todo mundo está lendo hoje, neste mês, neste ano. Qualquer outra coisa já é passado. É uma concepção bem, digamos, classe média; uma necessidade de ver os mesmos filmes, ler os mesmos livros para não ficar de fora das conversas e para contribuir para o debate com a mesmíssima opinião de todo mundo. A coisa é cíclica e repleta de modismos: já foram os livros com histórias comoventes do oriente médio, auto-ajuda com toques espirituais modernosos, polêmicas sem sal com a igreja católica e assim por diante.

De fato, cada um lê o que quiser, de acordo com suas preferências e influências. Feliz ou infelizmente, não sou acometido por esta febre de novidades. Não me sinto pressionado a ler o último grande sucesso literário ou a assistir ao filme-evento do ano. Para mim, são atividades que não deveriam estar ligadas ao estresse social, mas à concentração pessoal e à solidão. Talvez esta obsessão pelo compartilhamento dos produtos culturais seja outro sintoma do fim progressivo da solidão e da necessidade de uma certa dose de isolamento para o cultivo saudável de pensamentos íntimos e opiniões individuais.

Voltando ao título, não acho realmente que bons livros ou filmes envelheçam de fato. Se, digamos, os neons coloridos de O Fundo do Coração, o grande filme e grande fracasso de Coppola, parecem datados e confinados a algum lugar bizarro nos anos 80, sua espetacular vitalidade permanece. Assim como o colonialismo inglês em O Coração das Trevas faz parte do passado, a loucura que pulsa escondida sob um mundo organizado e ordeiro permanece.Tudo isso é um tanto óbvio e até clichê, mas não custa nada relembrar a incrível sobrevivência das ideias universais presentes em algumas obras numa época em que a efemeridade cultural parece obedecer a lei das locadoras: qualquer produto que não se encontra na prateleira de lançamentos já é velharia.

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