Archive for janeiro \29\UTC 2010

Você sabe que é um nerd de cinema quando… (parte 2)

sexta-feira, 29 janeiro, 2010

…vai assistir a Avatar e percebe que o James Horner, compositor da trilha sonora, reaproveitou mais uma vez trechos musicais que usou em Tróia e A Máscara do Zorro.

Acho que preciso de tratamento.

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Sobre as ruas, as academias e Lebowski

sexta-feira, 29 janeiro, 2010

Assisti O Grande Lebowski, dos irmãos Coen, muito mal, anos atrás, desatento e com problemas pessoais assombrando os neurônios. Preciso revê-lo, porque não entendi muito bem o culto ao personagem e ao filme, que gerou um tipo de festival anual para celebrar os dois. De qualquer forma, achei interessantíssma a declaração de Aaron Jaffe, editor do livro The Year’s Work in Lebowski Studies. Professor de inglês especializado em James Joyce, ele comentou sobre dois universos distintos, dos fãs e dos acadêmicos:

Os mundos [dos acadêmicos e dos fãs] não são os mesmos, mas se encontram muito mais do que você imagina. Os fãs são acadêmicos com melhor credibilidade de rua. E os acadêmicos são fãs dos fãs.

Eu prometo…

terça-feira, 26 janeiro, 2010

… que este será o único post ranzinza de 2010 sobre esta joça de carnaval.

A tirinha acima é do Galvão; novas tiras estão sempre disponíveis em seu site oficial.

Quem recebe os posts por e-mail não vê a figura acima. Clique aqui para vê-la.

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Bem-vindo a terra dos idiomas inventados

quinta-feira, 21 janeiro, 2010

Avatar já deixou de ser apenas um filme; é um fenômeno pop, como o foi há treze anos Titanic, obra do mesmo James Cameron. Que é famoso pela truculência, perfeccionismo e obsessão pelos detalhes. Ele não queria que os alienígenas pandorianos ficassem grunhindo uma sopa fonética sem sentido, então tratou de contratar o linguista Paul Frommer, professor da Universidade da Califórnia, para simplesmente criar um idioma, que ficou conhecido pelo mesmo nome do povo que o fala: Na’Vi.

Não é a primeira vez que isso acontece. Tolkien também era linguista, apaixonado pelo estudo do galês, e criou os idiomas falados na Terra-Média. As estranhas palavras ditas pelos atores da adaptação de O Senhor dos Anéis seguem piamente as orientações e escritos deixados pelo sul-africano que inventou toda uma mitologia sozinho – e a ela dedicou a maior parte de sua vida. Já no universo de Star Trek, os klingons também tiveram a honra de ganhar um idioma próprio. Há pelo menos três livros publicados em klingon (de Hamlet e A Arte da Guerra eu me lembro), gramáticas, dicionários, um instituto de ensino da língua e, ainda mais supreendente, o Google aceita buscas no idioma.

Não preciso mencionar que alguns fãs destas obras realmente estudam os idiomas – conheci um sujeito que estava quase fluente em klingon quando a mulher o impediu de seguir adiante – e são capazes de conversar razoavelmente bem neles. A origem destas línguas milimetricamente arquiteturadas é, claro, o esperanto, criado no final do século XIX com a gigantesca pretensão de ser um idioma franco mundial. Em outras palavras, a segunda língua de boa parte da humanidade – não conseguiu. Assim como uma cidade planejada não resiste às forças caóticas do crescimento urbano e populacional, é a história quem elege a língua franca do momento, dure séculos ou décadas. E o inglês vem resistindo bem, obrigado, apesar do avanço chinês e hindu.

Não pretendo aprender uma língua que pouco usarei ou na qual encontrarei poucos livros que me interessam. Na’Vi, Klingon e élfico são curiosidades, tão inteligentes quanto exclusivas para fãs abnegados. Se isso lhe interessar, visite o site Learn Na’Vi e aprenda a língua dos smurfs saradões do espaço. E não deixe que ninguém o chame de “skxawng” ou lhe diga algo como “HaB SoSlI’ Quch!”.

Para se pensar: Vale a pena comprar um e-reader?

quarta-feira, 13 janeiro, 2010

Quem acompanha este blog sabe do meu interesse nos e-readers. Não sei se eles são o futuro suporte para os livros; na verdade, é bastante provável que eles acabem sendo substituídos por alguma coisa que ainda nem existe antes de atingirem seu auge. De qualquer forma, eles estão aí, já movimentam uma boa quantia e chamam a atenção da mídia e dos leitores. A Amazon está feliz da vida com seu Kindle, outras gigantes correm por fora e os chineses preparam seus inevitáveis genéricos de baixa qualidade.

Mesmo assim, talvez ainda seja cedo para comprar. E não, a razão não é o número ridículo de títulos em português. No Meiobit, Carlos Cardoso explica:

Portanto, em vista de tudo isso acho melhor esperar.

Esperar por uma política de preços menos baseada no hype e mais baseada no valor real dos produtos. Não faz sentido um leitor de eBooks custar o mesmo que um netbook completo.

Esperar por uma maior unificação de formatos e lojas. diminuindo a dependência dos vendedores originais. Ninguém compraria um Dell que só funcionasse (ou funcionasse nitidamente mais adequadamente) com programas comprados no lojinha da Dell. Por quê comprar um leitor de ebooks que só é realmente amigável com uma loja?

Esperar subsídios reais para aceitar situações como as do parágrafo anterior. Se é para me prender à loja, que banquem a parte do leão.

E o Sérgio Rodrigues nos lembra (a nós, leitores) de algo fundamental: é preciso concentração, isolamento e alguma solidão para que um livro seja de fato lido. Logo, é preferível um e-reader que usa a internet apenas para baixar conteúdo a um protótipo de netbook que promete navegação na internet, conexão 3G, MSN, Facebook, Twitter, Youtube, etc, etc, etc:

[…]Sem uma capacidade mínima de concentrar a atenção, de isolar o zunzum do mundo, ninguém consegue ler nem duas páginas do Cebolinha. A internet é uma maravilha, não me entendam mal. Mas é também o mais eficaz exterminador de concentração já inventado pelo homem. Sendo assim…

Meu e-reader sem browser, por favor.

O final da Copa de Literatura Brasileira: é para ler?

quarta-feira, 13 janeiro, 2010

A CLB 2009 chegou ao seu fim, com a vitória do romance Galiléia, de Ronaldo Correia de Brito, que disputou a final contra Flores Azuis , de Carola Saavedra. Não li nem conheço nenhum dos dois, livros ou autor e não me interessei profundamente pelos finalistas. Desta copa, eu leria Cordilheira, de Daniel Galera, Órfãos do Eldorado, do Miltom Hatoum e A Arte de Produzir Efeito Sem Causa, do Lourenço Mutarelli.

Vamos logo ao que realmente interessa: o texto que cada juiz produziu para justificar seu voto no jogo decisivo. Foi o Paulo Polzonoff que escreveu alguns dos parágrafos mais interessantes dos últimos tempos sobre a literatura brasileira (infelizmente não há como linkar apenas o texto dele, então vai toda a final), transcritos abaixo com algumas omissões:

Antes de ler Flores azuis e Galiléia, eu me perguntava por que as livrarias reservam uma parte toda especial, geralmente escondidinha e acanhada, para a literatura nacional. […] Na verdade, tudo é muito simples: literatura brasileira, em geral, não é livro que se queira ler. É livro que se pretende estudar, analisar, discutir. Aquilo que parece um romance é, na verdade, um objeto de estudo — um livro praticamente didático. Logo, convém mesmo deixar a literatura brasileira bem separadinha daqueles livros que a gente compra porque quer lê-los à noite, antes de dormir, ou na praia. Minha sugestão é que o mercado editorial comece a lançar promoções do tipo “Compre este livro e ganhe uma tese”. Pode dar certo.

[…] você quer saber o que achei da estrutura, do enredo, da composição dos personagens – provavelmente porque você é muito inteligente e não consome livros, e sim Literatura. Sei… Sobre isso, diria que tudo é muito bonito e evidente — o que é mau sinal. Quando estas questões técnicas aparecem demais num livro, tenho a impressão de que estou vendo o microfone na tela do cinema.

[…]O que mais me incomodou em Galiléia foi o artificialismo da linguagem. O que me obriga a repetir: falta à literatura brasileira o teste da oralidade. Qualquer pessoa que leia Galiléia ou Flores azuis em voz alta por uns cinco minutos ficará com a impressão de que acabou de ouvir um menino de cinco anos aprendendo a tocar violino.

Como bem disse o Sérgio Rodrigues a respeito:

Disputada por livros lançados em 2008, a competição termina em 2010, mas não creio que essa morosidade crítica explique inteiramente a frieza com que transcorreu a terceira edição da mais promissora brincadeira literária da internet brasileira. Daí ser bem-vindo o espalha-brasa final, destacado acima. Como toda boa provocação, tem muito de generalização indevida e injustiça, mas o caroço de verdade lá dentro me parece sólido.

Para completar, o Paulo dá a dica igualmente imperdível da análise que Millôr Fernandes fez do romance do Imortal José Sarney, O Brejal dos Guajas .

O Imitador de Vozes, de Thomas Bernhard

terça-feira, 12 janeiro, 2010

Eu já havia falado deste livro antes, numa espécie de prévia. Este post é apenas para confirmar: O Imitador de Vozes é um grande livro. E, perdoem o clichê, apesar de suas dimensões reduzidas.

Os leitores do escritor austríaco não devem temer o formato incomum das narrativas – curtas, algumas brevíssimas. Ainda estão lá o estilo circular, as repetições, a ironia e a exasperação. Claro que cada um dos contos, se observado atenta e individualmente, revela uma economia de descrições um tanto surpreendente. É a leitura atenta, um após o outro, que demonstra o poder de Bernhard em posicionar seus personagens em situações que tangenciam o tempo todo o trágico, o patético e o grotesco cercados por um humor tênue, como se um sujeito prestes a explodir estivesse tentando contar uma piada para relaxar e a poluísse com observações sobre a bizarrice humana. Não é gratuito o fato de boa parte dos contos ser narrado em primeira pessoa, apesar de nunca ficar claro quem são estes personagens – é tentador e muito provavelmente precipitado associá-los ao próprio Bernhard. Geralmente é alguém com boa cultura e amigos igualmente interessantes – um cenário bem diferente de, digamos, Árvores Abatidas.

Resta a torcida para que mais obras do autor (falecido vinte anos atrás) sejam traduzidas para o português.

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De novo, o sentido da arte?

segunda-feira, 11 janeiro, 2010

Já se disse que todo escritor, no fundo, escreve apenas um livro. Dito de outra forma, significa que ele espalha seus ideias, obsessões, preconceitos, inclinações, preocupações e valores em todas as suas obras, de forma mais ou menos irregular, mas constantemente repetindo-se. Talvez a gente possa dizer que todo blogueiro escreve apenas um post – ok, estou exagerando um pouco só para introduzir um assunto quase caduco aqui no Tangente.

Ontem a noite acompanhei um casal de amigos a uma peça de teatro aqui em Belo Horizonte. Estamos, pela trigésima-sexta vez, sob a Campanha de Popularização do Teatro e Dança, uma iniciativa bacana que atrai a atenção de um público geralmente pouco afeito aos palcos (confesso, com um pouco de vergonha, que ainda faço parte desta turma). Infelizmente, os poucos hábitos do público acabam por se manter mesmo durante a temporada de preços populares: a predileção maciça pelas comédias e/ou peças estreladas por atores globais, ainda que a segunda seja algo bastante raro aqui na capital dos mineirinhos. As razões para isso são óbvias demais para se discutir, então avancemos: ontem eu também assisti a uma comédia. Não direi qual, mas não era ruim; apenas um pouco irregular, dividida em esquetes, alguns ótimos e outros que pareciam, francamente, lutar para sair dali e constituir uma peça a parte e uma ou outra vulgaridade meio deslocada.

Após a peça, o rápido e inevitável diálogo, que não nasceu de mim: a peça não foi compreendida pelos meus amigos porque os esquetes apenas tangenciavam o título da peça, ou seja, usavam o título como ponto de partida para, digamos, divagações em torno do mesmo tema. Mas alguns insistiam que deveria haver uma correspondência direta entre os dois, afinal, qual seria a mensagem de cada um daqueles trechos?

De novo. A tal “mensagem”. Já falei desta praga aqui mais de uma vez e não consigo entender porque, afinal, tanta gente insiste em que a arte tenha que lhe dizer alguma coisa concreta. Ou, pior ainda, resolver um problema que ela mesma apresenta. Esta mania será culpa dos contos de fada? Dos livros de auto-ajuda? Das telenovelas? Não sei. Sei apenas que esta bizarra necessidade por uma aplicabilidade prática da arte acabará por sufocá-la, ou melhor, acabará por fazer desaparecer a arte mesmo – aquela que se interessa pelo problema, pelo homem, pelo fracasso, pela morte e a ausência (ou sensação de ausência) de sentido.

Vista por este ângulo, a peça é muito boa. Não pretende dar lição alguma, mensagem nenhuma. Apenas diverte e entrega exatamente o que se propõe.

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Mensagem Para Você

Observações ridículas para o início do ano

quinta-feira, 7 janeiro, 2010

Por que os primeiros dias do ano tem que ser um festival de más notícias? A combinação de impostos, comerciais de samba-enredo de escolas de samba e Big Brother Brasil são mais do que suficientes para desejar que 2011 chegue logo.

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Aliás, não vejo telenovela, BBB ou carnaval, isso tudo mundo já sabe. O que a maioria ignora é que tais assuntos são tão presentes e repetitivos que acabamos conhecendo suas características mesmo se não os consumirmos. Por isso não consigo deixar de pensar que BBB é a versão trash de uma telenovela do Manoel Carlos: a maior reunião de personagens chatos da ficção televisiva atual.

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Falando sério, se eu fosse produtor do History Channel já teria mandado o pessoal de Monsterquest e Caçadores de ÓVNIs para a vala. Os primeiros nunca revelaram uma criatura que se julgava extinta ou mitológica. Os últimos ainda não capturaram um OVNI sequer. Caçadores de primeira.

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Notícia bizarra do dia (apenas para quem já viu Avatar): o DVD trará uma cena adicional de sexo (sim, sexo) entre o avatar humano e a alienígena Na’vi. Conexão de USBs, claro.

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O fato de eu escrever estas notinhas algo ridículas só prova que preciso aprender a usar o Twitter. Promessa para 2010: Universo Tangente no serviço da baleia voadora.

Sensacional: Roger Corman receberá Oscar pelo conjunto da obra

sábado, 2 janeiro, 2010

Muita gente não sabe, mas o cinema norte-americano não seria o mesmo sem Roger Corman. Finalmente, a Academia reconhece isso e irá lhe dedicar o Oscar Honorífico em 2011. Corman é o conhecido como o mestre dos filmes B – pouco orçamento, muita cara-de-pau e algumas boas ideias. Mas talvez seja exagero resumi-lo a este título: ele deu a oportunidade, o (pouco, mas bem usado) dinheiro e a estrutura (geralmente reutilizada em várias produções) para nomes como James Cameron, James Horner, Francis Ford Coppola, Martin Scorcese, Jonhattan Demme, Peter Bogdanovich, Jack Nicholson, Dennis Hopper e Robert DeNiro. Além disso, Roger Corman garantiu a distribuição nos EUA de filmes de Ingmar Bergman e Fellini.

Talvez seu filme mais famoso seja, paradoxalmente, o mais caro: Mercenários das Galáxias/Battle Beyond The Stars, de 1980 – trilha sonora de James Horner (O Senhor dos Anéis) e direção de efeitos especiais de James Cameron (Avatar) – que ainda era exibido vez ou outra na TV aberta até uns dez anos atrás. Trata-se de uma versão espacial de Os Sete Magníficos, que por sua vez, já era uma versão western da obra-prima Os Sete Samurais, de Akira Kurosawa. O pastiche da homenagem. Nada mais Roger Corman do que isso.