De novo, o sentido da arte?

Já se disse que todo escritor, no fundo, escreve apenas um livro. Dito de outra forma, significa que ele espalha seus ideias, obsessões, preconceitos, inclinações, preocupações e valores em todas as suas obras, de forma mais ou menos irregular, mas constantemente repetindo-se. Talvez a gente possa dizer que todo blogueiro escreve apenas um post – ok, estou exagerando um pouco só para introduzir um assunto quase caduco aqui no Tangente.

Ontem a noite acompanhei um casal de amigos a uma peça de teatro aqui em Belo Horizonte. Estamos, pela trigésima-sexta vez, sob a Campanha de Popularização do Teatro e Dança, uma iniciativa bacana que atrai a atenção de um público geralmente pouco afeito aos palcos (confesso, com um pouco de vergonha, que ainda faço parte desta turma). Infelizmente, os poucos hábitos do público acabam por se manter mesmo durante a temporada de preços populares: a predileção maciça pelas comédias e/ou peças estreladas por atores globais, ainda que a segunda seja algo bastante raro aqui na capital dos mineirinhos. As razões para isso são óbvias demais para se discutir, então avancemos: ontem eu também assisti a uma comédia. Não direi qual, mas não era ruim; apenas um pouco irregular, dividida em esquetes, alguns ótimos e outros que pareciam, francamente, lutar para sair dali e constituir uma peça a parte e uma ou outra vulgaridade meio deslocada.

Após a peça, o rápido e inevitável diálogo, que não nasceu de mim: a peça não foi compreendida pelos meus amigos porque os esquetes apenas tangenciavam o título da peça, ou seja, usavam o título como ponto de partida para, digamos, divagações em torno do mesmo tema. Mas alguns insistiam que deveria haver uma correspondência direta entre os dois, afinal, qual seria a mensagem de cada um daqueles trechos?

De novo. A tal “mensagem”. Já falei desta praga aqui mais de uma vez e não consigo entender porque, afinal, tanta gente insiste em que a arte tenha que lhe dizer alguma coisa concreta. Ou, pior ainda, resolver um problema que ela mesma apresenta. Esta mania será culpa dos contos de fada? Dos livros de auto-ajuda? Das telenovelas? Não sei. Sei apenas que esta bizarra necessidade por uma aplicabilidade prática da arte acabará por sufocá-la, ou melhor, acabará por fazer desaparecer a arte mesmo – aquela que se interessa pelo problema, pelo homem, pelo fracasso, pela morte e a ausência (ou sensação de ausência) de sentido.

Vista por este ângulo, a peça é muito boa. Não pretende dar lição alguma, mensagem nenhuma. Apenas diverte e entrega exatamente o que se propõe.

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