O final da Copa de Literatura Brasileira: é para ler?

A CLB 2009 chegou ao seu fim, com a vitória do romance Galiléia, de Ronaldo Correia de Brito, que disputou a final contra Flores Azuis , de Carola Saavedra. Não li nem conheço nenhum dos dois, livros ou autor e não me interessei profundamente pelos finalistas. Desta copa, eu leria Cordilheira, de Daniel Galera, Órfãos do Eldorado, do Miltom Hatoum e A Arte de Produzir Efeito Sem Causa, do Lourenço Mutarelli.

Vamos logo ao que realmente interessa: o texto que cada juiz produziu para justificar seu voto no jogo decisivo. Foi o Paulo Polzonoff que escreveu alguns dos parágrafos mais interessantes dos últimos tempos sobre a literatura brasileira (infelizmente não há como linkar apenas o texto dele, então vai toda a final), transcritos abaixo com algumas omissões:

Antes de ler Flores azuis e Galiléia, eu me perguntava por que as livrarias reservam uma parte toda especial, geralmente escondidinha e acanhada, para a literatura nacional. […] Na verdade, tudo é muito simples: literatura brasileira, em geral, não é livro que se queira ler. É livro que se pretende estudar, analisar, discutir. Aquilo que parece um romance é, na verdade, um objeto de estudo — um livro praticamente didático. Logo, convém mesmo deixar a literatura brasileira bem separadinha daqueles livros que a gente compra porque quer lê-los à noite, antes de dormir, ou na praia. Minha sugestão é que o mercado editorial comece a lançar promoções do tipo “Compre este livro e ganhe uma tese”. Pode dar certo.

[…] você quer saber o que achei da estrutura, do enredo, da composição dos personagens – provavelmente porque você é muito inteligente e não consome livros, e sim Literatura. Sei… Sobre isso, diria que tudo é muito bonito e evidente — o que é mau sinal. Quando estas questões técnicas aparecem demais num livro, tenho a impressão de que estou vendo o microfone na tela do cinema.

[…]O que mais me incomodou em Galiléia foi o artificialismo da linguagem. O que me obriga a repetir: falta à literatura brasileira o teste da oralidade. Qualquer pessoa que leia Galiléia ou Flores azuis em voz alta por uns cinco minutos ficará com a impressão de que acabou de ouvir um menino de cinco anos aprendendo a tocar violino.

Como bem disse o Sérgio Rodrigues a respeito:

Disputada por livros lançados em 2008, a competição termina em 2010, mas não creio que essa morosidade crítica explique inteiramente a frieza com que transcorreu a terceira edição da mais promissora brincadeira literária da internet brasileira. Daí ser bem-vindo o espalha-brasa final, destacado acima. Como toda boa provocação, tem muito de generalização indevida e injustiça, mas o caroço de verdade lá dentro me parece sólido.

Para completar, o Paulo dá a dica igualmente imperdível da análise que Millôr Fernandes fez do romance do Imortal José Sarney, O Brejal dos Guajas .

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