Archive for fevereiro \22\UTC 2010

Topifaive Notícias bizarras sobre Avatar

segunda-feira, 22 fevereiro, 2010

1) Avatar acusado de ser o mais caro filme antiamericano da história.

Conservadores norteamericanos escreveram para alguns jornais acusando Avatar de fazer propaganda de agenda política da esquerda – ecologia, anti-militarismo, etc, etc, etc.

2) Avatar causa depressão em parte do público

O filme é bacana mesmo, e mostra um mundo de beleza natural absurda. Daí a algunss cabeças-de-vento saírem da sala de cinema e compararem Pandora ao mundo real é um pulo. Já um salto é realizado pelos malucos que ficam deprimidos e querem voltar para o planeta dos índios esguios e azuis.

3) Vaticano alerta que a natureza não deve ser cultuada, como em Avatar

Claro, a Igreja Católica não ficaria de fora. Daqui a pouco, o Papa emite um comunicado até sobre o consumo de Chicabon no inverno. Aliás, já viu a lista de álbuns pop mais importantes da história segundo o Vaticano? E não é que as escolhas até fazem sentido?

4) Palestinos protestam vestidos de Na’vis.

Neste caso, uma imagem vale mais do que… você já sabe. Clique e confira.

5) Avatar é plágio de metade dos produtos pop dos últimos 55 anos

Pocahon… opa, Avatar já foi acusado de ser plágio de Guerra de Luz e Trevas (HQ em que um veterano paraplégico vai para uma guerra que se passa em outro mundo), Firekind (HQ inglesa que ninguém conhecia e que trata de invasores num mundo florestal habitado por uma tribo de seres azuis e marombados), Delgo (animação 3D que ninguém viu também, mas ganhou prêmio no Brasil), Call me Joe (romance de ficção científica de Poul Anderson que narra como um soldado paraplégico se conecta telepaticamente com uma forma de vida artificial criada para explorar um planeta hostil), O Nome do Mundo é Floresta (outro romance de FC de Ursula LeGuin em que uma companhia escoltada por militares chega num mundo florestal disposta a explorar as riquezas minerais), a série de livros de FC russa The World of Noon (que se passa num planeta chamado Pandora, habitado por um povo chamado Nave), Timespirits (outra HQ com seres azuis magrelos e invasores na floresta), além das imagens do artista Roger Dean retratando montanhas que flutuam e que já foram capas dos discos da banda Yes.

De novo: ciência custa caro (mesmo)?

sábado, 20 fevereiro, 2010

Sim, eu sei que o assunto interessa a poucas pessoas, mas insisto. E de novo a fonte é o blog Bad Astronomy, de Phil Plait, que republicou um infográfico do New York Times que explica, da forma mais clara e didática possível, o orçamento do governo norte-americano – na administração Obama:

Eu sei que o gráfico acima está meio desconfortável para se ler. Se quiser ver o ótimo infográfico do jornal, basta clicar na figura ou aqui. Passeando com o mouse sobre os quadros você poderá ver o valor individual de cada grupo de gastos. A poderosíssima Nasa está onde mesmo? Ali embaixo, dentro do quadradinho General Science Budget. Achou? Pois é. Volto a dizer: diante do orçamento quase inacreditável de 3,69 trilhões de dólares dos EUA, o montante investido na assim chamada dispendiosa, inútil e megalomaníaca conquista espacial não passa de uns trocados – daqueles amassados, de bolso de bêbado.

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Da importância da ficção

quarta-feira, 17 fevereiro, 2010

Por que o contato com a ficção é tão importante?

Os livros acumulam a sabedoria que os povos de toda a Terra adquiriram ao longo dos séculos. É improvável que a minha vida individual, em tão poucos anos, possa ter tanta riqueza quanto a soma de vidas representada pelos livros. Não se trata de substituir a experiência pela literatura, mas multiplicar uma pela outra. Não lemos para nos tornar especialistas em teoria literária, mas para aprender mais sobre a existência humana. Quando lemos, nos tornamos antes de qualquer coisa especialistas em vida. Adquirimos uma riqueza que não está apenas no acesso às idéias, mas também no conhecimento do ser humano em toda a sua diversidade.

Tzvetan Todorov, em entrevista a Bravo!, diz o que não se esperaria de um dos pioneiros do estruturalismo: “Literatura não é Teoria, é Paixão”. Ótima entrevista que merece ser lida.

A propósito: já tive uma longa discussão com pessoas que acreditam que ficção é sinônimo de ficção científica. Venci com um argumento bastante simples; pedi que abrissem um jornal ou revista semanal e dessem uma olhada nas listas de mais vendidos, de ficção e não-ficção. Assunto encerrado.

A ciência custa caro?

quarta-feira, 10 fevereiro, 2010

Sim, eu confesso ter pouca paciência para o batido argumento de que a ciência, digamos, pura é de pouco valor. Dito de outra forma, que seria melhor aplicarmos o dinheiro na cura do câncer e no desenvolvimento de novas vacinas a perder tempo com exploração espacial e o estudo do ciclo reprodutivo dos peixes-boi do Oceano Atlântico. Antes de mais nada, alguém faz ideia de quão irrisório é o investimento em pesquisa se comparado ao demais itens do orçamento da maioria dos estados? Peguemos o exemplo mais vistoso – os EUA. Afinal de contas, é a única nação que mantem uma agência de exploração espacial e sustenta duas guerras simultaneamente.

Segundo Phil Plait, do blog Bad Astronomy, os EUA gastam 12 milhões de dólares por hora no Iraque. Isso mesmo. Fazendo as contas, 12 milhões vezes 24 horas vezes 365 dias dá… 105 bilhões de dólares por ano. E não estamos falando em Afeganistão. Recentemente, o Obama anunciou o cancelamento do projeto Constellation da Nasa (aquele que substituiria os ônibus espacias e criaria condições para a volta a Lua) e, todo pimpão, garantiu um acréscimo de 6 bilhões de dólares a Nasa nos próximos 5 anos. Sinceramente, perto dos gastos bélicos, isso é troco. Ainda assim é bastante grana. Mas vale dizer que estamos falando do projeto científico mais caro e arriscado da história da humanidade. Um projeto inútil, alguns diriam, antes de ligar seus GPSs e digitar a rota desejada, ou saber das últimas notícias via satéilte sobre a degradação do meio ambiente flagradas por… satélites!

Excetuando-se projetos monumentais (como o genoma, o LHC ou a Estação Espacial Internacional, que já torrou um ano de Iraque desde o começo de sua operação há 12 anos), a verdade é que poucas coisas são mais baratas do que permitir que cientistas criem alucinadas teorias sobre o funcionamento do universo na Caltech ou estudem o comportamento migratório dos gnus. Certamente, é muito menos dinheiro do que a televisão movimenta com seus reality shows, a imprensa com fofocas inúteis sobre celebridades inúteis e talvez menos ainda do que James Cameron gastou para filmar Titanic e Avatar. E nem falamos do orçamento militar para não humilhar os pobres, miseráveis, cientistas.

Ciência é aposta de médio, longo ou longuíssimo prazo. Ponto final. A pesquisa que hoje parece estranha pode vir a apontar caminhos completamente novos de resolver problemas antigos. Mas pode levar um ano ou um milênio para que todo o conhecimento acumulado seja aplicado – se o for. Minha recomendação é: deixe os cientistas em paz. Eles nem fazem cócegas nos orçamentos dos estados. E acredite: seria muito melhor se fizessem.

Afinal, o que ler?

quinta-feira, 4 fevereiro, 2010

Acho que a pergunta mais comum feita a escritores já reconhecidos é: o que você diria a um escritor iniciante? ou qualquer variação disso. No fundo, estamos sempre querendo saber o que eu devo ler se quiser ser escritor. Boa parte deles dirá que se deve ler de tudo, do pior e do melhor, de bula de remédio a épicos russos do século XIX, de esoterismo lacrimante aos vários candidatos ao título de grande romance norte-americano do século XX. Porque apenas esta leitura ampla poderia nos fazer distinguir o bom do ruim, o mediano do genial.

Ok, permitam-me discordar, com toda a humildade.

Se eu fosse um escritor reconhecido, primeiro admitiria que a minha fórmula de leitura funcionou para mim e nada no mundo garante que funcionará para você ou qualquer outra pessoa. Dito isso, eu completaria que a vida é curta demais, única e que eu não acredito em reencarnação. Logo, ler coisas sabidamente ruins é pura perda de tempo. Em seguida, emendaria com algo aparentemente contraditório: Leia aquilo que você gosta de ler. Eu tenho um gosto particular por determinados estilos e ideias, como qualquer outra pessoa, e naturalmente privilegio este gosto. Minhas escolhas de livros baseiam-se geralmente no que leio em blogs, sites e revistas, quase sempre artigos e posts escritos por outras pessoas que gosto de ler e nas indicações de amigos. É simples. Em segundo lugar, eu diria para ler os clássicos, em verso e prosa – e texto teatral também. Porque, parafraseando Umberto Eco, é melhor ler os clássicos do que não os ler. Também algo muito simples. Isso já é o suficiente para uma vida inteira de leituras.

Opa, tem mais uma coisa: Nada, nada mesmo, garante que estas leituras, ou quaisquer outras, vão transformar alguém em escritor. A vida é assim mesmo. Talvez você prefira ser músico ou engenheiro químico. Mas os livros que leu continuarão com você.

Sim, existe beleza no jornalismo

terça-feira, 2 fevereiro, 2010

Acho que há cinco anos li uma matéria na revista Época (confesso: não gosto especialmente de nenhuma das três grandes revistas semanais, mas a IstoÉ sempre me pareceu a irmã mais sem graça delas) sobre as parteiras do Amazonas. Uma reportagem iluminada, escrita com sensibilidade rara, belíssima, fascinante e triste. Hoje esbarrei por acaso com o relato da mãe que cuida da filha em coma por mais de dez anos, Saudades de Sua Voz, e tenho de repetir os adjetivos da frase anterior.

Então prestei atenção ao nome da autora, a jornalista gaúcha Eliane Brum, e descobri que as duas matérias são dela. E que ainda publicou um livro que, pela descrição, não é menos do que fascinante, em que ela desnuda as reportagens e até mesmo os erros que cometeu. Não encontrei mais a matéria sobre as parteiras da floresta que me fascinou, mas as fantásticas Saudades de Sua Voz e Casa de Velhos (versão em formato PDF; exige o Acrobat Reader) podem ser lidos na íntegra, no site da revista.

O Brasil do futuro de olho no passado

terça-feira, 2 fevereiro, 2010

Texto imperdível do Daniel Piza, de onde cito o trecho a seguir:

Temos cronistas que morrem de medo do progresso e chegam a dizer que “não nascemos” para coisas como ciência e tecnologia. “Nosso negócio” é jogar futebol moleque, cantar canções para as morenas, fazer festa… Os mesmos que se dizem nacionalistas são os que desdenham bolsões de excelência como Embrapa, Embraer, Projeto Genoma, etc. E são os mesmos que nas aulas diziam para o professor “não levar tão a sério”, forçando a inclinação para o comodismo e a palpitagem, para a discussão de vaidades e futilidades em vez de ideias. Para essa gente, ler é chato, matemática é chato, arte é feita apenas de espontaneidade. E esperto é quem sonega, quem se dá bem sem precisar gastar os olhos em cima dos livros.

O Brasil é um escândalo (no mau, no pior sentido).