Archive for março \30\UTC 2010

A Capela Sistina em 3D

terça-feira, 30 março, 2010

É notícia velha? Sim, é. O momento é oportuno? Talvez não, com as denúncias contra a igreja mais frequentes do que nunca. Mas é irresistível recomendar uma visita a Capela Sistina em 3D no site do próprio Vaticano. Use o mouse para girar todo o corredor, e os botões de “+” e “-” no canto inferior esquerdo para se aproximar e afastar das paredes e teto. Aliás, um bom livro sobre a obra monumental de Michelangelo é Michelangelo e o Teto do Papa, de Ross King.

Nota: Requer Flash instalado e demoooooooooooooora para carregar. Seja paciente.

É um unicórnio!

quinta-feira, 25 março, 2010

Cada escritor tem suas obsessões. Borges, por exemplo, tinha os tigres, os labirintos e bibliotecas. Ridley Scott é um cineasta inglês de altos quase tão vertiginosos quanto seus (poucos) baixos. Reinventou a ficção científica no cinema com Alien – O Oitavo Passageiro e Blade Runner e foi o primeiro diretor a misturar com eficiência a estética anos 80 da propaganda com a cinematográfica. Seu irmão, Tony, até tenta, mas raramente chega lá e Luc-Besson, bom, tem mais baixos do que altos. Ridley é obcecado por cenas de batalhas medievais com neve ou plumas flutuando entre os guerreiros e, especialmente, unicórnios. Não pergunte, é tudo que sei. Seja no filme dos replicantes ou em A Lenda, os danados estão lá. Acho que apenas John Woo e seus pombos insistentes vencem o inglês.

Pois bem: a Philips acaba de lançar uma TV de alta definição com a proporção de tela idêntica a de cinema, 21:9 (Não quero fazer propaganda de marca alguma, mas eu adoraria ter uma televisão assim). E para o lançamento chamou o Ridley Scott, que produziu uma série de 5 curtas, cada um dirigido por um sujeito diferente (um deles é o sobrinho do produtor…) e de um gênero distinto: drama, ficção científica, animação em 3D, ação. O que os une é apenas uma frase: é um unicórnio, it’s a unicorn. Óbvio, não? O resultado parece muito bom, muito mesmo e vale dar uma olhada no trailer divulgado pela Philips (se você lê o blog por e-mail, clique aqui):

Os curtas estarão disponíveis no site da Philips no dia 18 de abril.

Via Hollywodianas: blog da Ana Maria Bahiana.

A Cultura dos Sebos, pelo criador da Estante Virtual

terça-feira, 23 março, 2010

Eu já elogiei a Estante Virtual aqui mais de uma vez. Criada por André Garcia quando, cansado da vida corporativa, voltou-se ao mundo acadêmico e encontrou dificuldades para encontrar alguns títulos de que precisava para concluir o mestrado. Logo percebeu uma lacuna interessantíssima no mercado. Nascia, depois de bastante trabalho, a Estante Virtual.

Nesta entrevista concedida a revista Língua Portuguesa, Garcia fala sobre o papel dos sebos, o seu alcance no Brasil e especialmente sobre como o leitura é sabotada nos tempos que vivemos, da escola ao dia-a-dia e chegando mesmo a internet. Cito o início da entrevista:

O brasileiro não gosta de ler ou não compra livros por achar muito caro?
Os dois. Há muita gente que poderia gostar e não gosta, mas há ainda mais gente disponível à leitura se o livro fosse barato. Para quem não gosta de ler, há a razão educacional: a escola ensina a não gostar, usa uma metodologia que tem êxito inverso. Temos uma base pedagógica em que ler é obrigatório e a biblioteca é vista como lugar de castigo. Mas leitura é subjetividade, é ver o que agrada à sensibilidade e se ajusta à sua forma de ser, ao seu momento. A escola nunca me deu esse espaço e duvido que, salvo exceção, garanta isso a muito aluno. Para os que driblam a escola e aprendem a gostar de ler, há um preço alto a ser encarado. Se você considerar só a lista dos dez mais vendidos, a média é de R$ 43 o exemplar. Lê esses livros quem tem mais recurso.

Muitos acham que best-seller estimula a leitura.
Tudo bem, o cara lê 800 páginas de Harry Potter. Mas esse tipo de livro leva mesmo a outra leitura que não seja a mais coisa parecida com Harry Potter? Outro dia, um membro da Câmara Brasileira do Livro disse num evento que se o brasileiro ler bula de remédio, ou revista de fofoca, já está ótimo. Na minha opinião, isso é só tecnicamente leitura. A leitura tem de estimular a imaginação e a reflexão. Qualquer leitura não é leitura.

Microcontos, Twitter e ABL

segunda-feira, 22 março, 2010

É uma limitação minha: não sei escrever estas coisas chamadas microcontos. Estas micronarrativas passaram por um inevitável aumento de popularidade graças ao Twitter. Escrever narrativas enxutas é naturalmente mais difícil do que um conto mais longo, com mais tempo para descrições e narrativa. É preciso imaginar uma história e extrair dela o trecho que a resume, ou mehor, que a apresenta, da forma mais sucinta possível. O mais famoso microconto que conheço é de Hemingway.

Vende-se: sapatos de bebê, sem uso.

Há toda uma história por trés destas vinte e seis letras. Nem preciso dizer que concisão era marca registrada do autor e que este microconto talvez tenha sido seu exercício mais radical e bem-sucedido de estilo. Dá para imaginar o trabalho infernal necessário para chegar a isso.

Agora, a Academia Brasileira de Letras anuncia um concurso para microcontos usando o próprio Twitter: máximo de 140 caracteres (descobri via Alessandro Martins e Raquel Camargo). Se tiverem como inspiração aquele continho ali em cima do Hemingway, os candidatos tem um belo trabalho pela frente, cujo resultado final poderá ser lido em poucos segundos, apesar das horas e horas que deveriam ser gastas para chegar ao resultado final. Pelo menos para isso, a resposta a pergunta-chave do Twitter (o que estou fazendo agora?) provavelmente não valerá para muita coisa.

Questão de identificação

sábado, 20 março, 2010

Tenho pelo Big Brother Brasil (e praticamente todos os reality shows) o mesmo carinho profundo que tenho pelo Carnaval (sim, isto foi uma ironia). E também conheço muita gente boa, amigos e conhecidos, que adoram o programa. São capazes de perder horas discutindo se Fulano ou Sicrana deve ser eliminado, se Beltrano traiu a confiança do grupo e outros assuntos que me causam um tédio tão forte que logo descamba para o sono. Por isso mesmo, nunca entendi muito bem porque eu não tenho o menor interesse pelo jogo televisivo que se transformou em mania aqui no Bananão.

Até que, finalmente, navegando por acaso no UOL, me deparo com o blog do jornalista Mauricio Stycer, que leva a TV brasileira a sério – de um jeito que eu não tenho a menor paciência para levar; para mim, a única coisa boa da telinha hoje em dia é o CQC. Em um de seus posts (perdi o link e não vou procurar agora), ele escreveu que as pessoas gostam do BBB porque, de um jeito ou de outro, se identificam com seus participantes.

Bingo! É isso, finalmente entendi. Eu não me identifico com os tipos que frequentam o programa. Mais do que isso: não apenas eles não me dizem nada, eu sequer gostaria de ser um deles. Sabe o que isso significa? Apenas isso. Não sou melhor nem pior do que eles, mas suas histórias e valores não me interessam. Eu poderia até dizer que gente que deseja ser celebridade também não me diz coisa alguma, o que também é verdade, mas ex-BBB lá é celebridade que se preze?

Sobre o Glauco

quarta-feira, 17 março, 2010

Muita gente tem algo a dizer sobre o Glauco. Claro, eu não o conheci, fui leitor de suas tirinhas, de suas parcerias com Laerte e Angeli; e gostava muito daquele traço que unia simplicidade, dinamismo e retas para criar personagens que estavam o tempo todo entre a caricatura e o retrato fiel de tipos que muitos de nós conhecem bem.

Talvez por isso mesmo, não me sinto a vontade para prestar alguma homenagem a ele – é como se eu estivesse chegando a um evento de arrecadação para vítimas de uma tragédia dias depois de ele ter chegado ao fim. Ou seja, eu me sentiria entre a farsa e a incompetência. Enfim, prefiro deixar o link para o post do Hiro, Parece poesia, parece coincidência, parece coisa do Glauco, que me emocionou de verdade.

Retalhos, de Craig Thompson

quinta-feira, 11 março, 2010

Há dezenas de romances de formação, alguns com personagens fictícios e muitos autobiográficos. Nos últimos anos, vários títulos de quadrinhos para adultos ganharam as livrarias apostando neste, digamos, subgenêro. Persépolis, da iraniana Marjane Satrapi, e Retalhos, de Craig Thompson, são dois belíssimos exemplos destas obras.

Em Retalhos (Blankets no original; no Brasil, foi publicado pela Companhia das Letras), o autor relata sua infância, adolescência e parte de sua vida adulta. Boa parte da narrativa se dedica a esmiuçar as influências até certo ponto contraditórias de seus primeiros anos: sua família de cristãos conservadores e seu desejo de ser desenhista. Eventualmente, Craig abandonará a crença de seus pais, mas mesmo isso é mostrado de forma simples e delicada, sem revanchismos, apenas com uma leveza rara de se encontrar em obras assim. Aliás, Thompson mostra que domina incrivelmente bem a narrativa de quadrinhos, alternando quadros limpos, eloquentes a outros confusos, poluídos, sempre em busca do melhor efeito no leitor.

Seu texto também é muito bom; em uma sequência particularmente tocante, o pai de Raina (falaremos dela a seguir) flagra a filha e o namorado dormindo juntos. Primeiro, ele sente raiva; logo em seguida, volta, resignado, para a sala, olha uma foto de sua própria família tirada em dias melhores e se entristece, limpando uma lágrima com a cabça baixa. Neste último quadro, começa o texto a seguir:

O dia foi de um branco esplendoroso. O céu e a terra se uniram [todo o quadro é branco, apenas três árvores secas marcam os limites entre o solo e os céus], as árvores alongaram seus membros nus, a neve desenhou formas levada pelo vento, revelando pedaços de arbustos.

Esta passagem marca o início da despedida de Craig e Raina. Eles se encontraram, se apaixonaram e assim por diante – uma história banal que o autor desenvolve com cuidado e sem pieguice rumo a uma conclusão adulta e quase impossível de se evitar. Thompson desenha mais de uma vez quadros inquietos e intensos, que reproduzem à perfeição a sensação de segurança e temor que estar abraçado a pessoa amada provoca – em seu caso, ampliada pelos cobertores grossos, única forma de se proteger do frio.

Ao final, com todas as suas diferenças, Craig volta a sua antiga casa, ao irmão (companheiro de uma infância tão rica quanto solitária e dolorosa), a herança religiosa de sua família e às memórias daquele inverno que ele, perceberia, muito mais tarde, ser essencial em sua formação. Retalhos é uma prova eloquente de que histórias em quadrinhos são mais um meio para se contar histórias. Qualquer tipo de histórias. Inclusive as mais simples, delicadas e universais.

Um lugar calmo para escrever

sábado, 6 março, 2010

O ilustrador Montalvo Machado (uma das mentes mais lúcidas e ativas no mercado de ilustração brasileiro) diz em seu blog que teve um carnaval perfeito este ano, acompanhado por pessoas de quem gosta e cujo trabalho admira. Coisas assim são estimulantes para qualquer um que lida com atividades que envolvem criatividade: o contato com pessoas que também trabalham com a sua arte e tempo para se dedicar ao desenvolvimento de novos projetos, sem grandes interrupções. Escritores também sonham com isso.

Isaac Asimov contou, em artigo que não lembro onde li, que desenvolveu a habilidade de parar e retomar seu trabalho inúmeras vezes simplesmente porque não conseguia tempo de qualidade e continuamente livre. Ele ainda conta que, em toda sua carreira, teria tido poucas horas de paz e tranquilidade para trabalhar. Em parte, isso se deve ao fato de que, a menos que você seja o Dan Brown ou o Paulo Coelho, muito pouca gente verá com bons olhos as horas solitárias passadas a frente do computador escrevendo e reescrevendo vidas imaginadas. Interrupções são parte inrente a atividade de escritor, e ter de lidar com a incompreensão das pessoas próximas quando você fica irritado ao ser interrompido também é parte do jogo. Ajuda quando consegue-se negociar com o parceiro um tempo diário para se dedicar a atividade. Dica de graça para os homens: use o horário da telenovela. Dica de graça para as mulheres: usem o horário do futebol ou do programa esportivo. Sim, estas dicas são generalizações grosseiras e não devem ser levadas (muito) a sério.

Mesmo assim, não custa nada sonhar. Como a também escritora de ficção científica Cristina Lasaitis, neste post sobre lugares feitos sob medida para escritores. São hotéis, pousadas e retiros que possuem pacotes de estadia para que você se hospede para criar seu romance ou dar forma final a aqueles contos que vivem reclamando por uma revisão. Como ela mesma diz, infelizmente, uma ideia dessas não faria sucesso no Brasil (todos os lugares citados ficam nos EUA, Europa e Oceania) por razões muito simples: a exceção de uns poucos gatos-pingados, escritor brasileiro não tem dinheiro para pagar por este tipo de serviço. E também graças a pura e simples lógica capitalista. Afinal, onde não há mercado…

Porém, nada nos impede de pensar nisso. Cito a própria Cristina:

É claro que qualquer chácara da tia ou casa de praia pode virar um bom retiro de escrita. Conheço gente que escreve tranquilamente em mesa de bar ou banco de parque. Mas seria interessante haver um lugar onde as pessoas vão para escrever, onde escritores vão para passar um tempo em companhia de outros escritores, onde possam trabalhar longe da confusão do dia-a-dia, mantendo foco na produção e de preferência sem ter que pagar o preço de um hotel. Eu bem que gostaria de passar uns tempos longe da civilização e voltar com um romance pronto. Não custa espalhar essa ideia!

Como é? Vingança da natureza?

terça-feira, 2 março, 2010

Sempre que ocorre uma tragédia como as mais recentes do Chile e Haiti, aparece alguém para dizer que a “natureza está se vingando do homem” ou coisa do gênero, o que, claro, não passa de uma imensa bobagem. Do ponto de vista científico (por favor, eu não acredito em nenhuma forma de consciência da Terra; sempre que penso nisso, me vem a cabeça aquela deusa Gaia morena do medonho desenho animado Capitão Planeta), não passa de uma forma poética de dizer que as ações humanas tem consequências ambientais. Desmatou? Fim das nascentes. Promoveu queimada? Solo empobrecido ao longo do tempo. Lotou os oceanos de lixo? Menos plâncton, menos peixes, desequilíbrio geral e menos oxigênio na atmosfera. É simples assim. Nada do que a humanidade faça ou deixe de fazer influenciará os movimentos tectônicos, os terromotos e vulcões. Se existe algo que estes terríveis incidentes deixam claro é a frágil condição da nossa orgulhosa humanidade.

A Terra não se vinga, mas muito provavelmente estará aqui quando a espécie humana não for mais sequer uma memória.