Retalhos, de Craig Thompson

Há dezenas de romances de formação, alguns com personagens fictícios e muitos autobiográficos. Nos últimos anos, vários títulos de quadrinhos para adultos ganharam as livrarias apostando neste, digamos, subgenêro. Persépolis, da iraniana Marjane Satrapi, e Retalhos, de Craig Thompson, são dois belíssimos exemplos destas obras.

Em Retalhos (Blankets no original; no Brasil, foi publicado pela Companhia das Letras), o autor relata sua infância, adolescência e parte de sua vida adulta. Boa parte da narrativa se dedica a esmiuçar as influências até certo ponto contraditórias de seus primeiros anos: sua família de cristãos conservadores e seu desejo de ser desenhista. Eventualmente, Craig abandonará a crença de seus pais, mas mesmo isso é mostrado de forma simples e delicada, sem revanchismos, apenas com uma leveza rara de se encontrar em obras assim. Aliás, Thompson mostra que domina incrivelmente bem a narrativa de quadrinhos, alternando quadros limpos, eloquentes a outros confusos, poluídos, sempre em busca do melhor efeito no leitor.

Seu texto também é muito bom; em uma sequência particularmente tocante, o pai de Raina (falaremos dela a seguir) flagra a filha e o namorado dormindo juntos. Primeiro, ele sente raiva; logo em seguida, volta, resignado, para a sala, olha uma foto de sua própria família tirada em dias melhores e se entristece, limpando uma lágrima com a cabça baixa. Neste último quadro, começa o texto a seguir:

O dia foi de um branco esplendoroso. O céu e a terra se uniram [todo o quadro é branco, apenas três árvores secas marcam os limites entre o solo e os céus], as árvores alongaram seus membros nus, a neve desenhou formas levada pelo vento, revelando pedaços de arbustos.

Esta passagem marca o início da despedida de Craig e Raina. Eles se encontraram, se apaixonaram e assim por diante – uma história banal que o autor desenvolve com cuidado e sem pieguice rumo a uma conclusão adulta e quase impossível de se evitar. Thompson desenha mais de uma vez quadros inquietos e intensos, que reproduzem à perfeição a sensação de segurança e temor que estar abraçado a pessoa amada provoca – em seu caso, ampliada pelos cobertores grossos, única forma de se proteger do frio.

Ao final, com todas as suas diferenças, Craig volta a sua antiga casa, ao irmão (companheiro de uma infância tão rica quanto solitária e dolorosa), a herança religiosa de sua família e às memórias daquele inverno que ele, perceberia, muito mais tarde, ser essencial em sua formação. Retalhos é uma prova eloquente de que histórias em quadrinhos são mais um meio para se contar histórias. Qualquer tipo de histórias. Inclusive as mais simples, delicadas e universais.

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