Archive for julho \24\UTC 2010

Ficção bizarra (mesmo)

sábado, 24 julho, 2010

Há alguns anos, em meu emprego anterior, eu chateava meus colegas de trabalho (alguns são meus amigos até hoje; o que não deixa de ser surpreendente considerando-se o que narrarei a seguir) enviando alguns contos incrivelmente pequenos e absurdos. Aliás, quanto mais absurdos, melhores – na minha humilde opinião. Eram péssimos, na verdade, e não passavam de brincadeiras sem graça que eu apelidei de contos surrealistas. Devo ter escrito uns trinta deles, habitados por abóboras falantes, reis-gorila com síndrome de Tourette, caças F-16 covardes e conscientes. Em suma: lixo, mas ao menos eu tinha a consciência de que eram puro e nada refinado lixo.

Claro que, um dia, alguém teria ideias igualmente ridículas e inauguraria um gênero com isso. Graças ao blog do escritor Damien G. Walker, que linkou esta matéria do The Guardian, descobri que a literatura bizarra tem ganhado mais e mais leitores. E são coisas ainda mais absurdas do que Orgulho e Preconceito e Zumbis (aliás, já publicado no Brasil): por exemplo, o livro de Jeff Burk, Shatnerquake, narra o encontro mortal entre William Shatner (para quem tem mais de 30, o Capitão Kirk da antiga série de TV Jornada nas Estrelas; para os mais novos, o Danny Crane de Boston Legal) e todos os personagens que ele interpretou ao longo de sua carreira. Sim, isso mesmo: os personagens de Shatner se unem para destruir o ator. Talvez seja o título mais inocente de uma safra recente de obras que abraçam o gore, cultura pop, os filmes de sexplotation dos anos 70 e a estética ultra-violenta de, digamos, Tarantino. Há canibais na terra dos doces, mulheres-lobo caçadoras e coisas absolutamente indescritíveis como Ass Goblins from Auschwitz.

Há, e sempre houve, espaço para este tipo de piada com obras assumidamente trash e para flertar com o que existe de mais ofensivo, vulgar e estranho na cultura pop – vide o trailer do próximo filme de Robert Rodriguez, Machete. A estupidez intencional destas obras não garante que sejam boas ou ruins; são certamente bizarras e têm seu público. De repente, meus (péssimos) contos surrealistas de anos atrás tornaram-se tolos, quase infantis. E não, não pretendo voltar ao tema e muito menos produzir ficção bizarra – deixo isso para quem entende do assunto.

Resistir não é inútil

segunda-feira, 19 julho, 2010

Quando era menino e ainda assistia a Sessão da Tarde, era relativamente comum alguma comédia mostrando um soldado japonês que, décadas após o fim da Segunda Guerra Mundial, continuava guardando uma ilhota em algum ponto igualmente remoto do pacífico. Não era comédia: estas histórias inspiravam-se em casos reais e ao menos um deles tem ligação com o Brasil. Hiroo Onoda permaneceu na ilha Lubang, nas Filipinas, até 1974, quando seu antigo comandante e amigo finalmente o liberou de sua missão. Onoda mudou-se para o Brasil, onde tornou-se fazendeiro e vive até hoje.

A comparação que farei é tosca e injusta, mas às vezes me sinto como o tenente Onoda, entrincheirado num beco solitário – ao menos no ramo da música e gosto pessoal. Lembro-me do início dos anos 90, em plena malfadada era Collor, quando a música breganeja explodiu de vez no país. Eu não consigo devincular uma coisa da outra e nunca consegui gostar de nenhum, nem unzinho, daqueles artistas. Mais tarde vieram a axé music e o funk carioca para tomar o posto de sensação temporária. Infelizmente, e ao contrário do rock brasileiro, que parece cada vez mais fadado a diminuir sua influência, estes gêneros não desapareceram; na verdade, tornaram-se onipresentes, parte da paisagem musical tupiniquim permanente.

As duplas breganejas vicejam e todo ano surge algum novo nome. Bom para quem gosta, claro, e para os artistas também. Já disse que os respeito, mas não gosto de suas músicas. Conheço alguns amigos que capitularam e hoje cantam estas canções alegremente, mas não faço parte desta turma. Contento-me em me esforçar um pouco para não parecer chato. É claro que nem sempre consigo.

De qualquer forma, ainda há esperanças: meu antigo vizinho de apartamento colocava Queen para o filho de três anos ouvir. O menino adorava.