Ficção bizarra (mesmo)

Há alguns anos, em meu emprego anterior, eu chateava meus colegas de trabalho (alguns são meus amigos até hoje; o que não deixa de ser surpreendente considerando-se o que narrarei a seguir) enviando alguns contos incrivelmente pequenos e absurdos. Aliás, quanto mais absurdos, melhores – na minha humilde opinião. Eram péssimos, na verdade, e não passavam de brincadeiras sem graça que eu apelidei de contos surrealistas. Devo ter escrito uns trinta deles, habitados por abóboras falantes, reis-gorila com síndrome de Tourette, caças F-16 covardes e conscientes. Em suma: lixo, mas ao menos eu tinha a consciência de que eram puro e nada refinado lixo.

Claro que, um dia, alguém teria ideias igualmente ridículas e inauguraria um gênero com isso. Graças ao blog do escritor Damien G. Walker, que linkou esta matéria do The Guardian, descobri que a literatura bizarra tem ganhado mais e mais leitores. E são coisas ainda mais absurdas do que Orgulho e Preconceito e Zumbis (aliás, já publicado no Brasil): por exemplo, o livro de Jeff Burk, Shatnerquake, narra o encontro mortal entre William Shatner (para quem tem mais de 30, o Capitão Kirk da antiga série de TV Jornada nas Estrelas; para os mais novos, o Danny Crane de Boston Legal) e todos os personagens que ele interpretou ao longo de sua carreira. Sim, isso mesmo: os personagens de Shatner se unem para destruir o ator. Talvez seja o título mais inocente de uma safra recente de obras que abraçam o gore, cultura pop, os filmes de sexplotation dos anos 70 e a estética ultra-violenta de, digamos, Tarantino. Há canibais na terra dos doces, mulheres-lobo caçadoras e coisas absolutamente indescritíveis como Ass Goblins from Auschwitz.

Há, e sempre houve, espaço para este tipo de piada com obras assumidamente trash e para flertar com o que existe de mais ofensivo, vulgar e estranho na cultura pop – vide o trailer do próximo filme de Robert Rodriguez, Machete. A estupidez intencional destas obras não garante que sejam boas ou ruins; são certamente bizarras e têm seu público. De repente, meus (péssimos) contos surrealistas de anos atrás tornaram-se tolos, quase infantis. E não, não pretendo voltar ao tema e muito menos produzir ficção bizarra – deixo isso para quem entende do assunto.

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