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30 anos de Cosmos

quinta-feira, 30 setembro, 2010

Há 30 anos estreava na televisão norte-americana a série-avó de O Universo (History Channel) e Como Funciona o Universo (Discovery Channel): Cosmos, de Carl Sagan. Como uma série um pouco mais nova do que eu (uma forma eufemística para dizer “velha”) consegue ser uma referência indiscutível na divulgação da ciência até hoje? Afinal, seus efeitos especiais são datados, algumas extrapolações já não convencem tanto à luz de novas descobertas e a gola rolê que o Sagan usava saiu de moda.

Muito simples: Sagan transmitia uma visão grandiosa e poética não apenas do universo, mas da humanidade em toda a sua espetacular evolução e sua paradoxal insignificância. Era uma apaixonado pela ciência que queria contaminar seus espectadores – e conseguiu. Bom, pelo menos a mim, que assisti a todos os episódios reprisados nas manhãs de sábados e domingos da Rede Globo. Auxiliado pela trilha sonora de Vangelis, Cosmos fez, no formato de documentário, o que a série Star Trek havia conseguido mais de uma década antes: chamar a atenção de toda uma geração para a ciência. O que não é pouca coisa, especialmente se considerarmos o inacreditável grau de anafalbetismo científico do nosso tempo.

Curiosidade absolutamente nerd: há outra ligação entre Star Trek e Sagan. O cientista trabalhou na criação da placa de ouro acoplada às sondas Pionner 10 e 11 e na gravação dos sons da Terra levados num disco a bordo das sondas Voyager 1 e 2. Estes são os objetos criados pelo homem que se encontram atualmente mais distantes da Terra. O primeiro filme para o cinema de Star Trek, de 1979, conta como uma inteligência extraterrestre encontrou uma fictícia Voyager 6 (adotando o nome de V’ger) e rumou em direção a este planeta a procura de seu criador. Ainda no campo cinematográfico, pouco antes de falecer em 1996, Sagan ajudou a roteirizar seu romance Contato, que ganhou uma adaptação sensacional para as telas dirigida por Robert Zemeckis.

Além de Contato, Carl Sagan ainda escreveu, entre outros, os famosos O Mundo Assombrado Pelos Demônios e Bilhões e Bilhões em que apresenta sua visão otimista do progresso científico e suas objeções céticas. Mas ainda é Cosmos que melhor representa seu legado – e vale a pena reassisti-la, sempre.

Topifaive Eu sei, eu sei, mas gosto assim mesmo

domingo, 19 setembro, 2010

Os norte-americanos chamam isto de guilty pleasure, o tipo de coisa da qual você gosta, não sem alguma culpa – afinal, sabe que não é lá estas coisas. Então, vamos aos meus filmes não-tão-bons preferidos (atenção, spoilers a seguir):

1) Independence Day

Um roteiro B com roupagem de superprodução. O charme deste filme vem de sua inabalável safadeza e da capacidade de abraçar todos os clichês e fazê-los funcionar, a trancos e barrancos. De cachorro que sobrevive a explosão de uma metrópole inteira ao presidente pilotando um caça F-16 contra alienígenas, está tudo lá – um clássico da cara-de-pau.

2) O Pacto dos Lobos

O eficiente diretor Christopher Gans pega a história da besta de Gévaudan e mistura a Revolução Francesa, um vilão asqueroso, uma besta plausível, um naturalista, Monica Belluci como a dona de um bordel e Mark Dacascos como um índio que luta kung fu. O que sai dessa salada? Um filme divertidíssimo, com boas sacadas e bem dirigido. Mas não deixa de ser uma mistura absolutamente sem pé nem cabeça.

3) Fanboys

Este é só para fãs de Star Wars e nerds em geral. Quatro amigos tentam invadir o Rancho Skywalker para roubar a cópia de A Ameaça Fantasma antes de seu lançamento nos cinemas – a ação se passa em 1998. Tudo para que um deles, vitimado pelo câncer, possa ver o filme antes de partir. Algumas boas piadas, outras vulgares e desnecessárias, e rivalidade com Star Trek dão o tom deste filme tão simpático quanto problemático. Claro que a grande piada é que, hoje, todos nós sabemos o quanto A Ameaça Fantasma é fraco.

4) Reino de Fogo

Dragões destroem a humanidade nos levando a um futuro similar ao o da série Exterminador do Futuro – com John Connor incluído! Não vejo nada de errado com o filme, há ideias boas e algumas horríveis, o elenco está ótimo e as criaturas bem feitas. Há ao menos uma sequência sensacional, o ataque do dragão aos soldados paraquedistas. Mas faltou algo, talvez um pouco mais de brio. Curiosidade: dirigido por Rob Bowman, responsável por vários episódios de Arquivo X.

5) Dragão Vermelho

A continuação de O Silêncio dos Inocentes é, na verdade, a refilmagem (de Manhunter, de 1986) da história que precede o fantástico filme de Jonathan Demme. O diretor de Dragão Vermelho, Brett Ratner, é o verdadeiro culpado pelos Bater e Correr e X-Men 3, mas seu esforço em emular o estilo de Demme acabou dando certo: o filme é correto, embora não memorável. E é só por isso mesmo que ele entra nesta lista.

Sobre mashups literários

terça-feira, 14 setembro, 2010

Depois do sucesso de Orgulho e Preconceito e Zumbis, era apenas questão de tempo para que a onda de mashups literário atingisse o Brasil. A ideia é sempre a mesma: toma-se uma obra clássica e já de domínio público e insere-se nela elementos absolutamente estranhos ao romance original. Quanto mais pop e um tanto trash, maiores as chances da mistureba fazer sucesso: ETs, zumbis, andróides, monstros marinhos. O jornal O Globo publicou trechos de obras que misturam Machado de Assis a mutantes e Escrava Isaua a vampiros.

Sem ler os livros, seria precipitado e bem ridículo fazer qualquer comentário sobre suas qualidades. Mas gosto de pensar que, independentemente do resultado alcançado pelos seus autores, mostram que não há textos sacros na literatura. E nem deve existir. À exceção das limitações impostas pelas questões legais e de direitos autorais (gostemos delas ou não), a citação, apropriação e brincadeiras (o mashup não passa muito disso mesmo) com personagens, tramas e locais faz parte do jogo.

Há, claro, uma discussão um tanto tola sobre a questão do plágio nestes casos, o que não faz o menor sentido. Os autores jamais deixaram de citar, explicitamente, as fontes e inspirações – trata-se, no caso de Orgulho e Preconceito e Zumbis, de um tipo de colagem literária, já que mais de 80% do texto original foi mantido. Podemos também indagar qual a relevância de um texto tão reverente ao original, mas talvez estejamos apenas levando a sério demais uma inofensiva brincadeira literária.

De qualquer forma, confesso que tenho uma pilha de livros ainda não lidos que chamam muito mais a minha atenção do que os romances-mistureba. Por enquanto, estou empenhado em diminuir esta pilha, mesmo sabendo que fracassarei.

Sobre o Sete de Setembro

terça-feira, 7 setembro, 2010

Quando eu era menino, adorava o desfile de Sete de Setembro. Na verdade, como todo moleque, eu gostava mesmo era da oportunidade de apreciar máquinas que se não vê (felizmente!) todo dia: tanques, aviões, blindados e canhões. Àquela época, eu costumava pedir aos meus pais para que comprassem livros sobre maquinário de guerra e que formavam uma coleção vendida em bancas. Nem preciso dizer que, com as finanças sempre oscilantes de minha família, jamais consegui completar todos os números faltantes.

Curiosamente, jamais quis ser militar. Nem mesmo quando bem novo; na verdade, lembro-me bem de que aos seis ou sete anos de idade já torcia para não ser selecionado para prestar o serviço obrigatório quando chegasse aos dezoito anos. Não, eu não tinha coisa alguma contra o mundo fardado; era uma consciência excessivamente precoce de minhas próprias limitações. Eu era fraco, franzino, desajeitado – como eu me daria bem em um universo que exige exatamente o contrário? Não foi surpresa alguma quando fui dispensado do serviço. Com a contradição típica de um adolescente, me senti mal por uns dias, como se minha entrada na vida adulta houvesse sido rejeitada ou adiada.

Talvez eu não teria me dado tão mal assim durante o meu período de serviço obrigatório, mas também é verdade que eu nunca tive a menor vontade de ingressar na carreira militar. Logo, eles saíram no lucro – menos um cadete chato e incompetente para cuidar.

Aproveitando o assunto, está mais do que na hora de as forças armadas serem tratadas com mais respeito: caças caindo aos pedaços não combinam com a imagem de país (supostamente) bem-sucedido que os últimos tempos tentam impor.

Grandes expectativas cinematográficas

segunda-feira, 6 setembro, 2010

Curiosamente, o filme que mais aguardo para o final deste ano – embora seja possível que seja lançado no Brasil apenas em 2011 – é a adaptação do romance Não Me Abandone Jamais / Never Let Me Go para as telas. Escrito por Kazuo Ishiguro, autor de Os Vestígios do Dia (que rendeu uma adaptação primorosa estrelada por Anthony Hopkins e Emma Thompson), Não Me Abandone Jamais foi eleito pela revista Time o romance da década e uma das cem obras literárias mais importantes publicadas desde 1923.

O romance narra as memórias de Kathy H. (no filme, interpretada por Carey Mulligan), que trabalhou por anos como “cuidadora” de um internato particular inglês, Hailsham. Os alunos eram sempre instruídos a se considerar importantes para a sociedade, mantidos quase isolados no interior da Inglaterra. Na verdade, todo este cuidado servia para ocultar um segredo quase inacreditável. Aliás, se um conselho meu tem algum valor, leia este: Não pesquise muito sobre o romance porque vai acabar esbarrando na revelação do tal segredo. Palavra de quem se estrepou.

A seguir, o ótimo trailer no Youtube. Se não conseguir vê-lo, clique aqui.