Archive for outubro \19\UTC 2010

O carpinteiro que tentou matar Hitler

terça-feira, 19 outubro, 2010

Uma de minhas estranhas fixações quando penso em personagens é o sujeito ao contrário. Deixe-me explicar melhor: sempre imagino como seria a vida da pessoa que contraria as expectativas de seu grupo. O jogador de vôlei numa família de amantes do futebol, o advogado que não seguiu a carreira do pai mecânico, a militante que acaba por rejeitar os dogmas ideológicos de seus colegas. Não, não se trata de um interesse um tanto romântico pelos párias, rebeldes ou qualquer bobagem do gênero – isso seria ridículo. O que realmente me interessa é uma certa exacerbação da singularidade. Ora, é óbvio que somos todos únicos, mas, parafraseando muito mal Orwell, alguns são mais únicos do que outros. Isso os torna naturalmente interessantes – e imaginar tipos assim também é tentador, porque é uma forma bem simples e eficiente de mover uma história por meio dos conflitos enfrentados pelos personagens.

Claro, não tenho conhecimento para discutir seriamente sobre a adesão quase maciça do povo alemão aos delírios genocidas de um megalomaníaco. Deixo isso para especialistas; resumo-me a admitir que foi uma ilusão política coletiva, o que é sempre muito, muito perigoso. Talvez por isso mesmo a história de Georg Elser, um carpinteiro que quase conseguiu matar Hitler (nota rápida: como são sortudos estes ditadores), mas acabou preso e enviado a um campo de concentração, tenha chamado a minha atenção. Uma silhueta de aço de seu rosto medindo monstruosos 17 metros de altura será instalada em Berlim, bem na rua onde ficava o prédio administrativo de Hitler. A previsão é que o monumento seja inaugurado em 8 de novembro de 2011, celebrando os 72 anos do feito.

Claro, espera-se desde já que o nome de Elser apareça em livros e filmes – de preferência, sem Tom Cruise.

Criancice ou um post ridiculamente curto

terça-feira, 12 outubro, 2010

Algum tempo atrás, pensava na adolescência, não na minha em especial (que, aliás, não tem nada de espcial), e logo passei a pensar na infância. Talvez graças ao Dia das Crianças e a mania de alguns usuários do Twitter em lembrar a data trocando seus avatares tradicionais por fotos de si mesmos quando crianças.

Peguei-me pensando que, assim como não desejo voltar a ter 17 anos, também não gostaria de voltar a ser criança. Nada contra a minha infância em particular, é mais provável que eu goste o suficiente de minha vida atual para desejar um retorno. Ou talvez eu apenas seja incrivelmente preguiçoso. Passar por tudo aqui de novo? Não, obrigado.

A arte de banir livros

domingo, 3 outubro, 2010

Livros sempre foram censurados pelas mais diversas razões. Aliás, a história da censura aos livros é também uma espécie de lado B da história das ideias e das múltiplas formas usadas por ditadores, democratas e associações de senhoras preocupadas com a moral e os bons costumes para tentar impor seus valores. Não é diferente nos Estados Unidos, que comemoram o Banned Books Week, a semana que pretente relembrar que o banimento de obras não é privilégio do antigo e famoso Index Librorum Prohibitorum (aliás, abolido pela Igreja em 1966).

Muitas bibliotecas públicas norte-americanas acabam por limitar o acesso ou mesmo retirar de suas prateleiras livros considerados, de qualquer modo, ofensivos. Algumas a pedido dos pais de alunos e outras graças a ações isoladas dos próprios bibliotecários, que nomeam a si mesmos guias do que deve e o que não deve ser lido pelas crianças. Os quadrinhos são as maiores vítimas. Na maior parte das vezes, por pura incompreensão e desconhecimento de que existe quadrinho voltado a um público adulto. Títulos como Fun Home ou mesmo Sandman estariam muito bem posicionados nas estantes adultas, mas como “gibi é coisa de criança”, eles acabam pagando o preço da ignorância.

O mais curioso aconteceu a Maus, de Art Spielgman e vencedora do Pulitzer, que narra o holocausto com inspirações autobiográficas (a mãe de Spielgman foi sobrevivente de Auschwitz e se suicidou décadas depois) e animais antropomórficos no lugar de alemães, judeus e do resto do mundo. A motivação para seu banimento: preconceito contra etnias. Censura e lógica são dois conceitos que nunca andaram muito próximos mesmo.

Fonte: Omelete.