O caso Céline

Há uma celeuma em andamento no mundo literário. Tudo culpa de Céline e do governo francês. Para quem caiu de para-quedas aqui, Louis-Ferdinand Céline (1894-1961) é considerado um dos melhores e mais influentes autores do século XX, tendo escrito Viagem ao Fim da Noite e Morte a Crédito. Infelizmente, também era um antissemita que escreveu uma série de odiosos panfletos entre os anos de 1937 e 1941. Só escapou à morte no pós-guerra por ter se bandeado para a Holanda, que se recusou a extraditá-lo.

Você tem de ser profundamente ingênuo para acreditar na superioridade moral dos escritores e artistas. É o tipo de pensamento tolo típico dos manuais de auto-ajuda e de quem nada sabe sobre o mundo das letras e das artes. Escritores são pessoas comuns, com preconceitos, taras, manias, horrores e unha encravada. Quando eu digo que a genialidade é uma qualidade pura, quero dizer que, até certo ponto, ela se encontra isolada das demais características de um indivíduo. É perfeitamente possível ser um canalha, um renomado mau caráter e, ao mesmo tempo, um gênio. Esta constatação, tão simples para nós, que gostamos de livros, é uma equação bem indigesta para governos.

A França, por exemplo, acada de excluir o sr. Destouches (seu sobrenome verdadeiro) das comemorações culturais deste ano. É duro dizer isso, mas talvez tenha feito a coisa certa, ao menos do seu ponto de vista. Governos não trabalham com a realidade, mas com a sua percepção. E, a partir da ideia que a maioria absoluta das pessoas têm dos escritores como seres acima da média, homenagear um escritor espetacular que se alinhou às ideias e ações mais sombrias do nazismo é um péssimo negócio. Além disso, persiste, entre os governos, a ideia de que a literatura é um tipo de patrimônio cultural que serve para alimentar o monstro do nacionalismo. Na verdade, junto à ideia maluca da moralidade angelical dos autores, o povo acredita realmente que possui direitos sobre a obra de um escritor de seu país, assim como acredita que as conquistas de uma seleção de jogadores de futebol que atua há anos fora das fronteiras nacionais de alguma forma também lhe pertencem. O caso francês, claro, é um tanto mais delicado pela vergonha que o colaboracionismo de Vichy ainda evoca, mas a verdade é que povo algum gostaria de ter, entre seus herois culturais, um escritor que se empolgava mais com a solução final de Hitler do que muitos dos acólitos mais dedicados do carniceiro megalômano de Berlim.

Admitir que existe um abismo entre a genialidade e a infâmia e que este abismo pode habitar a alma de um mesmo sujeito é pedir demais para o grande público. Ao menos, por agora. Talvez em um futuro próximo, tenhamos a maturidade para distinguir estas esferas: admirar a obra de Céline e repudiar suas opiniões. Por enquanto, Destouches vai continuar companheiro dos leitores e estudiosos, distante do chamado “patrimônio cultural” de seu país. Talvez seja melhor assim; ao menos, não teremos estátuas vulgares em sua homenagem, como é de praxe que os estados façam com seus escritores.

O Estadão publicou um artigo do peruano Vargas Llosa, A Literatura não é edificante, cuja leitura é imperdível. Ele aponta as contradições e problemas envolvidos no caso Céline. Cito a seguir alguns parágrafos que me pareceram os mais interessantes:

Considerando que a genialidade artística não é um atenuante contra o racismo – eu a consideraria antes um agravante -, a meu juízo, a decisão do governo francês envia à opinião pública uma mensagem perigosamente equivocada sobre a literatura e cria um péssimo precedente. Sua decisão parece supor que, para ser reconhecido como um bom escritor, é preciso escrever também obras boas e, em última instância, ser um bom cidadão e uma boa pessoa. A verdade é que se o critério fosse esse, apenas um punhado de polígrafos se qualificaria.

Entre eles há alguns que correspondem a esse padrão benigno, mas a imensa maioria padece das mesmas misérias, taras e barbaridades que o comum dos seres humanos. Somente na rubrica do antissemitismo – o preconceito racial ou religioso contra os judeus – a lista é tão extensa que seria preciso excluir do reconhecimento público uma multidão de grandes poetas, dramaturgos e narradores, entre os quais figuram Shakespeare, Quevedo, Balzac, Pio Baroja, T.S. Eliot, Claudel, Ezra Pound, E.M. Cioran, e muitíssimos mais.

O fato de que essas e outras eminências fossem racistas não legitima o racismo, em primeiro lugar, e é antes uma prova contundente de que o talento literário pode coexistir com a cegueira, a imbecilidade e os extravios políticos, cívicos e morais, como o afirmou, de maneira impecável, Albert Camus.

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Uma resposta to “O caso Céline”

  1. A besteira de Von Trier e a histeria de Cannes « Universo Tangente Says:

    […] europeu que mesmo a menção mais estúpida a ele acaba cercada por patrulheiros. Recentemente, o escritor Louis-Ferdinand Céline foi excluído das comemorações culturais francesas neste ano. Motivo: seu antissemitismo. Detalhe: Céline está morto há 50 […]

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