Archive for abril \25\UTC 2011

It’s the end of the world as we know it (but I feel fine)

segunda-feira, 25 abril, 2011

A minha lista de filmes mais esperados de 2011 não inclui os blockbusters de super-heróis Capitão América, Thor ou Lanterna Verde. Na verdade, aguardo ansiosamente pelos dramas  Não me Abandone Jamais (já mencionado neste blog), A Árvore da Vida, de Terrence Mallick (que já concorre a trailer mais impactante e emocionante dos últimos anos) e por outros dois filmes um tanto parecidos.

O primeiro é Another Earth, premiado em Sundance e descrito pelo diretor Mike Cahill como um “drama de ficção científica indie épico minimalista”… Como é? Bom, deixemos a história falar por si: de repente, surge nos céus uma segunda Terra, um planeta virtualmente idêntico ao nosso, que captura a atenção de uma estudante de astrofísica do MIT. Aliás, captura tanto que ela, num descuido idiota, causa um medonho acidente de carro onde morrem a mulher e filha de um músico (É, eu sei, também pensei em 21 Gramas). Quatro anos depois e recém-saída da prisão, ela se aproxima do homem e se divide entre continuar aqui neste planeta ou voar para a outra Terra do título. Segue o trailer, bastante promissor:

Se você recebe este post por e-mail, clique aqui para ver o trailer de Another Earth.

O segundo traz a grife Lars Von Trier, o cineasta dinamarquês que ficou conhecido pelo movimento Dogma 95 (cujas pretensões técnicas estão, hoje, devidamente sepultadas), mas logo decidiu abandonar as regras do grupo em prol de um cinema mais convencional (leia-se: com trilha sonora e assinado pelo diretor), mas ainda assim perturbador – são dele o recente Anticristo, além de Dogville, Dançando no Escuro e o devastador Ondas do Destino, de 1996. Ele é famoso por trucidar as atrizes ao melhor estilo Kubrickiano – na verdade, nenhuma trabalha com Trier mais de uma vez. Pois bem, a bola da vez é Kristen Dunst, que parece perder a razão logo após o casamento, enquanto um planeta se aproxima da Terra e o mundo começa a ruir. O filme é Melancholia, e o trailer mostra uma mistura de Festa de Famíla com… bem, com Another Earth:

Se você recebe este post por e-mail, clique aqui para ver o trailer de Melancholia.

E já que falei nele, aí está A Árvore da Vida, o ambicioso projeto de Mallick que narra a tristeza de um homem já adulto (interpretado por Sean Penn), sozinho após perder seu irmão ainda na infância. O filme intercala as memórias dele e de seus pais, nos anos 50-60, a sua vida atual (e seus questionamentos sobre a fé) e a… história da Terra e do universo. Isso mesmo. Chega de filminho preocupado apenas em agradar seus espectadores. Bem-vinda a ambição de Mallick, na minha modestíssima opinião o único cineasta vivo que lembra Kubrick (também coloque na lista a obra-prima Sangue Negro, de Paul Thomas Anderson), e que também não tem medo de parecer pretensioso.

Se você recebe este post por e-mail, clique aqui para ver o trailer de A Árvore da Vida.

O título deste post vem da música de mesmo título da banda R.E.M..

E-Books: O inglês dominará?

segunda-feira, 18 abril, 2011

No post O mundo vai ler mais livros em inglês? no blog Painel das Letras, Josélia Aguiar fala da possibilidade de expansão no número de leitores que comprarão e-books em inglês. Claro, há muita coisa a ser considerada – se tivéssemos uma ideia clara das vendas de e-books por idiomas e países, poderíamos apontar uma tendência em curso, mas parece-me não ser este o caso. Muita gente já afirma que esta afirmação é mais uma típica amostra da arrogância anglo-americana.

Mas é bem provável que Mike Shatzin, entrevistado por Aguiar, esteja correto. Não é uma questão de arrogância, mas de mercado e de características próprias do e-book. Ao menos teoricamente, pela primeira vez, um público que pode ler em inglês e não tinha paciência para esperar a vinda de um livro do exterior, pode comprá-lo em um segundo e ter o título disponível em seu e-reader (ou tablet, PC, celular, etc…) no instante seguinte. Recentemente, eu quase comprei uma edição norte-americana de O Museu da Inocência, (já falei dele antes) de Orhan Pamuk, em paperback, além do Never Let Me Go/Não me Abandone Jamais, de Kazuo Ishiguro, autor de Os Vestígios do Dia, e que já está meio difícil de encontrar em português. Alguns meses antes e na mesma livraria, adquiri American Gods/Deuses Americanos, de Neil Gaiman, por um preço ridículo – edição em inglês, paperback. O livro está esgotado há anos no Brasil (será relançado em breve) e não era raro encontrá-lo em sebos por mais de uma centena de reais.

Mesmo com meu inglês mórólez, consigo ler alguns títulos com pouca dificuldade. Se tivesse um e-reader, eu já os teria comprado – não, ainda não me habituei a ler na tela do PC. É gente como eu que provavelmente inchará um pouco os números de leitores estrangeiros que se aventuram a ler em inglês. Não é tanta gente assim, convenhamos – ao menos, aqui no Brasil. Estaremos apenas aproveitando a agilidade do mercado literário de língua inglesa, que abraça o e-book rapidamente e disponibiliza boa parte dos títulos para a compra por gente de outros países. Não é arrogância deles, é um simples fato do mercado. Também me parece óbvio que, a medida em que os títulos forem aparecendo traduzidos para várias línguas, a maioria dos leitores preferirá lê-los assim. Já quem tiver um bom domínio do inglês e alguma pressa em adquirir uma obra, simplesmente não vai aguardar.

Muita gente também fala da ascensão do idioma chinês, ou melhor, dos livros escritos nesta língua, mas não me parece uma perspectiva muito provável para as próximas décadas. A língua chinesa escrita (e qualquer idioma, digamos, ideogramático) oferece uma dificuldade extrema de aprendizado para nós, ocidentais. A menos que a China passe a exercer uma influência cultural tão forte quanto a norte-americana e inglesa, não vejo famílias matriculando seus filhos de cinco anos em um curso de mandarim tão cedo. Claro que é um cenário perfeitamente possível, mas acredito que, muito antes disso, o chinês se tornará a língua predominante graças a multidão de falantes nativos.

O peso da herança

quarta-feira, 6 abril, 2011

Quando Bill Watterson se aposentou em 1995, deixou como legado a tirinha Calvin e Hobbes. É possível imaginar outro artista desenhando Calvin? Não, pensemos em algo pior: imagine outro escritor dando vida a “novas aventuras” de um moleque e seu tigre de pelúcia. Agora, pense em Piratas do Tietê sem Laerte, Geraldão em outras mãos que não as do (saudoso) Glauco ou Peanuts escrita e desenhada por alguém que não Charles Schultz. É, mas neste último caso, infelizmente, já aconteceu. Ou quase isso.

O álbum Happiness is a Warm Blanket será lançado nos EUA em breve, com roteiro de Craig Schulz (sim, o filho do criador)e Stephan Pastis. Já os desenhos são obra de Bob Scott, Vicki Scott e Ron Zorman. Como o álbum é baseado em um episódio da série animada, e o Schultz-pai se envolveu na sua produção, é de se esperar que as ideias desenvolvidas na história não saem muito da linha imaginada por ele. Corrigindo: o quadrinho é baseado em uma animação lançada neste ano; logo, sem a participação de Schultz-pai. MasA porteira está aberta.

Torçamos para que, em breve, não surjam histórias absolutamente contrárias ao espírito original de Peanuts – já imaginou uma revista mensal chamada Peanuts Teen?

 

Que puxa.

Posts relacionados:

Há uma gota de Charlie Brown em cada mané ou da realidade metida no meio da ficção, sobre a verdadeira história da Garotinha Ruiva.

A humanidade: Quase nada

segunda-feira, 4 abril, 2011

Diante do tsunami e do acidente na usina de Fukushima, uma amiga foi enfática: a humanidade está em extinção. Pensei nisso e a conclusão a que cheguei é ligeiramente diversa: sempre estivemos em extinção. Na verdade, nossa existência é tão precária e frágil que podemos imaginá-la como um reles resultado de situações aleatórias (para quem não acredita em seres superiores) ou uma concessão revogável a qualquer momento por uma vontade superior (para quem acredita).

Isso, claro, me levou a Carl Sagan e a famosa foto Pálido Ponto Azul. Em 1990, 13 anos após seu lançamento, a sonda espacial Voyager 1 apontou sua câmera em nossa direção, a mais de 6 bilhões de quilômetros de distância. O resultado é uma foto única, em que o planeta Terra não é mais do que um ponto débil, minúsculo, insignificante em uma imensidão inimaginável. Título do livro que viria em seguida, a foto inspirou a seguinte (e longa) reflexão do astrônomo. Parece-me que este texto já apareceu até no programa da Ana Maria Braga (“Que derrota”, diria o Louro José), o que só comprova que há mensagens que superam os meios, só para ficar num clichê. De todo modo, segue o melhor resumo já feito sobre nossa irrelevância, insignificância e potencial grandeza:

A espaçonave estava bem longe de casa. Eu pensei que seria uma boa ideia, logo depois de Saturno, fazê-la dar uma ultima olhada em direção de casa.
De Saturno, a Terra apareceria muito pequena para a Voyager capturar qualquer detalhe, nosso planeta seria apenas um ponto de luz, um “pixel” solitário, dificilmente distinguível de muitos outros pontos de luz que a Voyager avistaria: Planetas vizinhos, sóis distantes. Mas justamente por causa dessa imprecisão de nosso mundo assim revelado valeria a pena ter tal fotografia.
Já havia sido bem entendido por cientistas e filósofos da antiguidade clássica, que a Terra era um mero ponto de luz em um vasto cosmos circundante, mas ninguém jamais a tinha visto assim. Aqui estava nossa primeira chance, e talvez a nossa última nas próximas décadas.

Então, aqui está – um mosaico quadriculado estendido em cima dos planetas, e um fundo pontilhado de estrelas distantes. Por causa do reflexo da luz do sol na espaçonave, a Terra parece estar apoiada em um raio de sol. Como se houvesse alguma importância especial para esse pequeno mundo, mas é apenas um acidente de geometria e ótica. Não há nenhum sinal de humanos nessa foto. Nem nossas modificações da superfície da Terra, nem nossas máquinas, nem nós mesmos. Desse ponto de vista, nossa obsessão com nacionalismo não aparece em evidência. Nós somos muito pequenos. Na escala dos mundos, humanos são irrelevantes, uma fina película de vida num obscuro e solitário torrão de rocha e metal.
Considere novamente esse ponto. É aqui. É nosso lar. Somos nós. Nele, todos que você ama, todos que você conhece, todos de quem você já ouviu falar, todo ser humano que já existiu, viveram suas vidas. A totalidade de nossas alegrias e sofrimentos, milhares de religiões, ideologias e doutrinas econômicas, cada caçador e saqueador, cada herói e covarde, cada criador e destruidor da civilização, cada rei e plebeu, cada casal apaixonado, cada mãe e pai, cada criança esperançosa, inventores e exploradores, cada educador, cada político corrupto, cada “superstar”, cada “líder supremo”, cada santo e pecador na história da nossa espécie viveu ali, em um grão de poeira suspenso em um raio de sol.
A Terra é um palco muito pequeno em uma imensa arena cósmica. Pense nas infindáveis crueldades infringidas pelos habitantes de um canto desse pixel, nos quase imperceptíveis habitantes de um outro canto, o quão frequentes são seus mal-entendidos, quanta ânsia têm por se matarem, e o quão fervorosamente eles se odeiam. Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores para que, em sua glória e triunfo, eles pudessem se tornar os senhores momentâneos de uma fração de um ponto. Nossas atitudes, nossa imaginária auto-importância, a ilusão de que temos uma posição privilegiada no Universo, é desafiada por esse pálido ponto de luz.
Nosso planeta é um espécime solitário na grande e envolvente escuridão cósmica. Na nossa obscuridade, em toda essa vastidão, não há nenhum indicio de que ajuda possa vir de outro lugar para nos salvar de nós mesmos. A Terra é o único mundo conhecido até agora que sustenta vida. Não ha lugar nenhum, pelo menos no futuro próximo, no qual nossa espécie possa migrar. Visitar, talvez; se estabelecer, ainda não. Goste ou não, por enquanto, a Terra é onde estamos estabelecidos.
Foi dito que a astronomia é uma experiência que traz humildade e constrói o caráter. Talvez, não haja melhor demonstração das tolices e vaidades humanas do que essa imagem distante do nosso pequeno mundo. Ela enfatiza nossa responsabilidade de tratarmos melhor uns aos outros, e de preservar e estimar o pálido ponto azul, único lar que conhecemos.

Uma nova forma de arte?

sexta-feira, 1 abril, 2011

Continuando a discussão sobre os jogos, mas indo para outras searas, deixo os links de dois posts interessantes do escritor Bráulio Tavares:

Uma nova forma de arte

Literatura e joguinhos

Sim, os jogos podem ser uma nova forma de arte. Como Tavares assinala muito bem :

São duas culturas diferentes, porque os games (assim como o cinema) não surgiram num contexto “artístico” e sim no contexto de uma nova tecnologia de produção de imagens que rapidamente se converteu numa diversão popular e numa indústria lucrativa. A Arte talvez seja o próximo passo para os games, como foi para o cinema, cem anos atrás.

Vale a pena ler também na Saraiva Conteúdo, um artigo em que autores brasileiros relatam sua experiência com os jogos e a influência em sua literatura:

Literatura e Games: Parceria cada vez maior