A humanidade: Quase nada

Diante do tsunami e do acidente na usina de Fukushima, uma amiga foi enfática: a humanidade está em extinção. Pensei nisso e a conclusão a que cheguei é ligeiramente diversa: sempre estivemos em extinção. Na verdade, nossa existência é tão precária e frágil que podemos imaginá-la como um reles resultado de situações aleatórias (para quem não acredita em seres superiores) ou uma concessão revogável a qualquer momento por uma vontade superior (para quem acredita).

Isso, claro, me levou a Carl Sagan e a famosa foto Pálido Ponto Azul. Em 1990, 13 anos após seu lançamento, a sonda espacial Voyager 1 apontou sua câmera em nossa direção, a mais de 6 bilhões de quilômetros de distância. O resultado é uma foto única, em que o planeta Terra não é mais do que um ponto débil, minúsculo, insignificante em uma imensidão inimaginável. Título do livro que viria em seguida, a foto inspirou a seguinte (e longa) reflexão do astrônomo. Parece-me que este texto já apareceu até no programa da Ana Maria Braga (“Que derrota”, diria o Louro José), o que só comprova que há mensagens que superam os meios, só para ficar num clichê. De todo modo, segue o melhor resumo já feito sobre nossa irrelevância, insignificância e potencial grandeza:

A espaçonave estava bem longe de casa. Eu pensei que seria uma boa ideia, logo depois de Saturno, fazê-la dar uma ultima olhada em direção de casa.
De Saturno, a Terra apareceria muito pequena para a Voyager capturar qualquer detalhe, nosso planeta seria apenas um ponto de luz, um “pixel” solitário, dificilmente distinguível de muitos outros pontos de luz que a Voyager avistaria: Planetas vizinhos, sóis distantes. Mas justamente por causa dessa imprecisão de nosso mundo assim revelado valeria a pena ter tal fotografia.
Já havia sido bem entendido por cientistas e filósofos da antiguidade clássica, que a Terra era um mero ponto de luz em um vasto cosmos circundante, mas ninguém jamais a tinha visto assim. Aqui estava nossa primeira chance, e talvez a nossa última nas próximas décadas.

Então, aqui está – um mosaico quadriculado estendido em cima dos planetas, e um fundo pontilhado de estrelas distantes. Por causa do reflexo da luz do sol na espaçonave, a Terra parece estar apoiada em um raio de sol. Como se houvesse alguma importância especial para esse pequeno mundo, mas é apenas um acidente de geometria e ótica. Não há nenhum sinal de humanos nessa foto. Nem nossas modificações da superfície da Terra, nem nossas máquinas, nem nós mesmos. Desse ponto de vista, nossa obsessão com nacionalismo não aparece em evidência. Nós somos muito pequenos. Na escala dos mundos, humanos são irrelevantes, uma fina película de vida num obscuro e solitário torrão de rocha e metal.
Considere novamente esse ponto. É aqui. É nosso lar. Somos nós. Nele, todos que você ama, todos que você conhece, todos de quem você já ouviu falar, todo ser humano que já existiu, viveram suas vidas. A totalidade de nossas alegrias e sofrimentos, milhares de religiões, ideologias e doutrinas econômicas, cada caçador e saqueador, cada herói e covarde, cada criador e destruidor da civilização, cada rei e plebeu, cada casal apaixonado, cada mãe e pai, cada criança esperançosa, inventores e exploradores, cada educador, cada político corrupto, cada “superstar”, cada “líder supremo”, cada santo e pecador na história da nossa espécie viveu ali, em um grão de poeira suspenso em um raio de sol.
A Terra é um palco muito pequeno em uma imensa arena cósmica. Pense nas infindáveis crueldades infringidas pelos habitantes de um canto desse pixel, nos quase imperceptíveis habitantes de um outro canto, o quão frequentes são seus mal-entendidos, quanta ânsia têm por se matarem, e o quão fervorosamente eles se odeiam. Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores para que, em sua glória e triunfo, eles pudessem se tornar os senhores momentâneos de uma fração de um ponto. Nossas atitudes, nossa imaginária auto-importância, a ilusão de que temos uma posição privilegiada no Universo, é desafiada por esse pálido ponto de luz.
Nosso planeta é um espécime solitário na grande e envolvente escuridão cósmica. Na nossa obscuridade, em toda essa vastidão, não há nenhum indicio de que ajuda possa vir de outro lugar para nos salvar de nós mesmos. A Terra é o único mundo conhecido até agora que sustenta vida. Não ha lugar nenhum, pelo menos no futuro próximo, no qual nossa espécie possa migrar. Visitar, talvez; se estabelecer, ainda não. Goste ou não, por enquanto, a Terra é onde estamos estabelecidos.
Foi dito que a astronomia é uma experiência que traz humildade e constrói o caráter. Talvez, não haja melhor demonstração das tolices e vaidades humanas do que essa imagem distante do nosso pequeno mundo. Ela enfatiza nossa responsabilidade de tratarmos melhor uns aos outros, e de preservar e estimar o pálido ponto azul, único lar que conhecemos.

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