Sobre literatura, amizade, decência e generosidade

Antes de mais nada, confesso: li quase nada escrito por David Foster Wallace (na verdade, acho que no Brasil só saiu mesmo o Breves Entrevistas Com Homens Hediondos). E de Jonathan Franzen, estou com As Correções na lista de leitura. Enfim, nada posso realmente dizer sobre a obra de um ou outro – geralmente muito elogiados, em especial Foster. Para quem não sabe, Foster escreveu em 1997 Infinite Jest, obra que muita gente considera o grande romance norte-americano contemporâneo. Ele cometeu suicídio em 2008 e desde então, sua popularidade tem crescido – bom, ao menos entre os leitores do que chamaremos, à falta de expressão melhor, de “literatura séria”. E Franzen era seu amigo. Recentemente, Franzen escreveu um artigo na New Yorker, misto de ensaio com memórias, citando Foster. Deveria ser uma homenagem, mas segundo este imperdível artigo no Aguarrás, A morte do autor (neste caso, David Foster Wallace) e a suprema falta de elegância (para não chamar de grosseria cósmica) de Jonathan Franzen: uma reflexão sobre arte, literatura, amizade e decoro, de Manuel Carreiro, não passou de uma grosseria.

Franzen revela detalhes e faz julgamentos constrangedores de Foster, de forma, digamos, impune, uma vez que o amigo não está mais vivo para se defender. Por exemplo, o chama de narcisista e culmina com:

Franzen diz que Wallace estava doente sim, e que a história da sua amizade com Wallace é simplesmente esta: “ele amava um sujeito que era um doente mental.” (Página 90 da revista). E continua: “o deprimido se matou, de modo a inflingir o máximo de dor naqueles que mais amava, e nós que o amávamos ficamos com raiva, nos sentindo traídos. Traídos não somente pela falha do amor que investimos, mas pelo fato de que o suicídio tirou aquela pessoa de nós e o tornou uma lenda junto ao público”.

Há dois pontos que acho interessante destacar no artigo de Manuel Carreiro. Em primeiro lugar, a grosseria e falta de decoro de Franzen para com um amigo. Não consigo resumir esta ideia melhor do que a citação do seguinte parágrafo:

Conheço pessoas que pensam (seriamente) que o mundo de hoje não comporta dignidade moral, honradez, acatamento, respeito a si e aos outros. Ah: estes são sinônimos de decoro. Já me foi dito que estes são valores antiquados, que o mundo de hoje é dinâmico, rápido, interativo: não precisamos fazer cerimônia para nos apresentarmos um ao outro, para tratarmos um ao outro. Até tento compreender esta mudança de paradigma comportamental, mas nunca consigo. E vejo que a morte do decoro resultou numa quebra de hierarquia (que poderia ser celebrada, não fosse a maneira tosca como foi feita), resultou num destrato ainda maior para com o próximo, num exacerbado narcisismo onde nos exibimos, nos escancaramos (postamos pensamentos e fotos íntimas) para todos os amigos e ainda para qualquer conhecido que vimos uma vez na vida e incorporamos no nosso show particular na rede.

Assino embaixo.

O outro ponto, também abordado por Carreiro, diz respeito a natureza do amor e da amizade. Sim, a frase é vulgar, mas o raciocínio, sincero. Franzen diz ter investido na amizade com Foster e foi privado, com o suicídio, do retorno deste investimento. Que diabos é isso? Ele imagina a amizade como um tipo de caderneta de poupança, investimento seguro e certo? Sinto dizer, mas é uma bolsa de valores, volátil e incerta. Se não é capaz desta generosidade, de oferecer sua amizade sem visar imediatamente algo em troca, então Franzen não foi amigo de Foster – foi algo menor, ainda que talvez acreditasse, e acredite até hoje, ter sido seu amigo.

Então, volto a noção de que escrever, contar uma história é um ato de generosidade. E requer o despreendimento absurdo de não esperar algo em troca. Se você pretende escrever para receber elogios, está no negócio errado, aliás, muito errado. O Paulo Polzonoff escreveu um post muito bom sobre o assunto: Generosidade.

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