E Steve Jobs estava certo…

Em um filme fraquinho, O Homem Sem Sombra / Hollow Man, de Paul Verhoeven, há uma boa frase dita por um cientista, quando compara sua capacidade intelectual a do personagem principal, notadamente mais esperto: “A diferença entre um gênio e uma pessoa comum é que ele vai de A a D sem passar por B e C”. Se é uma citação de outra citação, eu não sei e não procurei saber ainda. Mas é irresistível compará-la a “Quando você faz em frações de segundo o que os outros levariam horas para fazer tudo parece mágica”, dita com grande certa dose de razão e uma leve pitada de arrogância por Steve Jobs.

Essencialmente, o que Jobs fez foi acelerar ainda mais a nossa integração com as máquinas e fazer nosso mundo se parecer um pouco mais com um filme de ficção científica. Basta pensar um pouco e veremos que já somos todos um pouco andróides (sem trocadilhos com o sistema do Google): por exemplo, nossa memória está em HDs, cartões de memória e até mesmo na “nuvem” da internet, em redes sociais e serviços que não fazemos a menor ideia de onde ou como armazenam estes dados. Goste-se disso ou não, estas tecnologias já são expansões de nossa existência – ou de como nos enxergamos.

O pesquisador da IBM Jean Paul Jacob (brasileiro) tem defendido e trabalhado com esta ideia há anos, mas a empresa de Jobs levou este conceito para o homem urbano comum do século XXI. Graças a Apple, caminhamos mais rapidamente rumo a informática ubíqua nos últimos 30 anos do que em toda a história da computação. Este nome bizarro, ubíquo, diz respeito a informática usada sem que sequer percebamos que está ali -termo bastante usado por Jacob em seus seminários e entrevistas. Ninguém precisa saber como funciona uma torradeira para usá-la. Da mesma forma, em breve você não precisará saber onde está o arquivo MP3 daquela música para ouvi-la quando quiser. Ele estará disponível em qualquer lugar, qualquer aparelho.

Em outra frente está o agora famoso Miguel Nicolelis (sim, outro brasileiro), que trabalha duro para que homem e máquina se unam de forma harmônica em futuro próximo. Sua ideia de um futuro em que o cérebro humano seja capaz de controlar qualquer máquina por meio de neuropróteses está a cada dia mais próximo – os experimentos recentes são muito mais do que animadores. Apesar de aparentemente diferentes, as ideias dos três citados convergem para uma nova realidade, ainda um pouco distante, mas aparentemente inevitável: a integração natural entre nós e a tecnologia da informação, a conexão de todos em rede e a robótica. Trata-se de uma reinvenção completa da forma como a humanidade se vê, se relaciona, trabalha, produz e progride. Se esta visão estiver correta, em cem anos estaremos falando de Jobs como o seu pioneiro mais destacado.

Claro, eu não sou produtor do Discovery Channel, desses que fazem documentários sobre o futuro em que tudo parece perfeito, promissor e maravilhoso. Não sou tão otimista assim. Teremos problemas que ainda sequer somos capazes de imaginar. Elevaremos nossa dependência tecnológica a estratosfera, assim como nosso apetite já voraz por energia elétrica (basta um soluço mais forte do Sol para voltarmos todos a 1890) e recursos naturais. Além disso, simplesmente não há solução no horizonte para que a imensa maioria da população mundial se beneficie deste mundo novo.

De qualquer forma, ele já está aí, para usar mais clichê, batendo à nossa porta. A humanidade tem a irritante mania de inventar algo para depois tentar descobrir soluções para os problemas criados por esta invenção. Assim é a ciência. Assim progredimos. Agora, cada vez rápido, em boa parte graças ao rapaz que criou um computador na garagem em 1977.

Obrigado pelo futuro, sr. Jobs.

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