Sobre a identificação com personagens

Se existe uma reclamação que nunca consegui entender muito bem, é quando alguém diz que não conseguiu ler um romance porque não se identificou com o protagonista. Afinal de contas, o que é esta tal identificação? É reconhecer no personagem alguma característica familiar? Perceber que uma determinada situação ficcional se parece com outra, real, vivida e/ou testemunhada? Desconfio que, no fundo, quando falamos em identificação com um personagem, estamos apenas reconhecendo nele uma série de qualidades que não possuímos, ou melhor, que gostaríamos de possuir – o nosso duplo. De todo modo, e falando francamente, identificar-se ou não com ele simplesmente não tem relação alguma com a qualidade do livro. Mas, talvez, tenha a ver com o que alguns leitores entendem por qualidade da leitura.

Na verdade, a identificação com personagens é crucial nas primeiras leituras, na infância, pois estabelecem uma ligação rápida e geralmente prazeirosa com o livro. Aparentemente, muitos mantêm este padrão pelo resto da vida; de fato, por experiência própria, percebo que uma boa parte das pessoas que conheço e que leem regularmente prefere obras em que consigam entender ao menos algumas as motivações dos protagonistas, por serem, em certo nível, parecidas com as delas. E isso não as faz mais ou menos inteligentes ou interessantes. Por outro lado, não há como negar que ler uma obra em que tudo, ou boa parte, é diferente do mundo que se conhece e onde nos movemos todos os dias, exige um esforço mental que pode ser exaustivo – por exemplo, o cenário apocalíptico e desesperançado de A Estrada, de Cormac McCarthy, ou a tensão entre o ocidente e o oriente, a Turquia tradicional e a moderna que servem de pano de fundo para os delicados romances de Orhan Pamuk, como Neve. Mas também há uma recompensa intelectual que não deve ser desprezada quando atravessamos as páginas inicialmente difíceis – a primeira centena de páginas de O Nome da Rosa, de Umberto Eco, veio a memória – e, quando menos percebemos, já estamos envolvidos pela história, pela prosa, personagens ou por tudo isso junto.

Para mim, a identificação é algo pouco importante. Já li livros excepcionais em que me identifiquei com algum dos personagens e outros nos quais nada, absolutamente nada, lembraria minha existência ou pessoas que conheço. A imersão provocada pelo conjunto mencionado (trama, história, prosa, construção de personagens…), isso sim, é algo que chama a minha atenção.

Além disso, um livro protagonizado pelo Marcelo Lopes que escreve aqui seria bem chato.

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