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O fim do mundo não vale a pena

quinta-feira, 20 dezembro, 2012

Tenho lido e ouvido de muita gente que o fim do mundo seria uma ótima oportunidade para a humanidade se reinventar. Claro, o fim do mundo de amanhã é uma rematada bobagem, mas a ideia de que é necessário um cataclisma de grandes proporções para que a nossa civilização melhore é bem comum, arraigada em nossas crenças. Mas ela tem dois problemas, básicos. O primeiro: é ingenuidade imaginar que algo de bom irá brotar do caos social que um evento de destruição e escala global viria a causar. Infelizmente, como qualquer fã de Walking Dead e leitor de A Estrada ,de Cormac McCarthy, sabe, somos bem maus quando confrontados com a possibilidade de morrer no meio de uma multidão. Acreditar que a humanidade se reergueria melhorada de uma destruição em massa é otimismo demais para o meu gosto – e, no entanto, é exatamente o que acontece em Star Trek.

A segunda razão é bem mais simples: no fundo, no fundo, por mais que essas pessoas gostem de afirmar que gostariam de ver o apocalipse zumbi irromper para sacudir a nossa espécie, elas não querem que isso aconteça. Porque toda vez que penso em uma catástrofe, lembro-me das pessoas de quem gosto e que não gostaria de ver sofrer. É por isso que nos tornamos, até certo ponto, e com o avanço da idade, mais conservadores: não queremos que aqueles quem amamos sofram. Então, torcemos para que nada de trágico ocorra – estão fora de cogitação invasão alienígena, pandemia global, queda de meteoro, crise econômica severa e nem revoluções, que, no final das contas, acabam sendo banhos de sangue destinados a trocar, por algum tempo, uma elite por outra enquanto o povo se ilude com ideologias e circo.

É a nossa natureza, goste-se dela ou não: Vivemos para cuidar daqueles mais próximos de nós. O amor sincero por toda a humanidade é tão difícil e raro de se ter que, na nossa cultura ocidental, é representado na figura de um homem que, na verdade, é o filho de Deus. Entre nós, simples mortais, este desprendimento é tão raro que só ocorre em extremos: na dedicação extremada de alguns poucos e admirados personagens (quase sempre, terrivelmente solitários) e na perversão deste sentimento pelos psicopatas que fundam as ditaduras sob a desculpa de, assim, melhorar a vida de todos.

Não, eu não desejo o fim do mundo porque ainda tenho a quem desejar bem, tenho a quem cuidar. E, supremo paradoxo, se o fim vier, que venha calmamente e nos leve e a eles com todo o silêncio do vácuo interestelar quando chegar a hora – que não será amanhã.

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