O que a perda de Aaron Swartz tem a dizer de nosso tempo

A esta altura, provavelmente você já sabe do suicídio de Aaron Swartz. Se não sabe, um resumo rápido: Swartz era um jovem genial, de apenas 26 anos, que foi processado por ter acessado e copiado documentos de um banco de dados de artigos acadêmicos. Ele poderia ser condenado a até 50 anos de prisão e a pagar 4 milhões de dólares de multa.

Entender a tragédia da morte de Aaron vai muito além do choque causado pela perda de um talento tão jovem e promissor, ela diz muito sobre o nosso próprio tempo e nossos erros absurdos. Aaron sempre foi um rapaz interessado em tecnologia e em como usá-la para melhorar a vida das pessoas (vivemos uma era tão cínica e estúpida que já antevejo alguns leitores fazendo cara de nojinho ao ler isso). Ajudou a criar a tecnologia de distribuição de informação que este blog, inclusive, usa, o RSS, aos 14 anos. Acreditava piamente que a sociedade poderia fazer uso da internet para apoiar candidatos realmente interessados em defender demandas legítimas, vindas dos eleitores e não dos financiadores de campanhas. Tinha um blog pessoal onde dividia textos sobre tecnologia com outros a respeito de política, cinema, ideias sobre como melhorar a vida das pessoas e depressão. Mas, acima de tudo, acreditava que a informação deveria circular livremente. Conhecimento produzido em universidades deveria ser de acesso público e irrestrito para que pudesse, nas mãos certas, gerar mais e melhor conhecimento.

Ele acessou o banco de dados de artigos acadêmicos, o JSTOR, e baixou milhares de artigos. Detalhes relevantes: o banco é público, mas o acesso a ele é pago (não pergunte); Swartz não divulgou os arquivos em lugar algum; e o JSTOR retirou o processo. Para seu azar , suas ações chamaram a atenção da procuradoria de Massachusets, que resolveu transformá-lo em símbolo. A procuradora Carmen Ortiz, interessada se candidatar ao governo de seu estado, jogou sobre o rapaz todo o poder daquilo que os norte-americanos chamam de “sistema”: rejeitou acordos, defesas e alegações dos advogados da família de Swartz. Seu objetivo era levá-lo a cadeia por tempo maior do que havia vivido e ainda impor uma multa milionária. Achava que este caso exemplar a coroaria. Resultou no suicídio do réu.

Não digo que o que ele fez foi certo, e mesmo seu mentor Larry Lessig (professor de Direito em Harvard e um dos cofundadores do Creative Commons) achava que Aaron não havia agido de forma totalmente correta. Mas a desproporcionalidade entre a ação e a punição salta aos olhos de qualquer leigo – sem mencionar o fato de que o maior interessado, o JSTOR, havia desistido de processar Swartz.

Um jovem simples e brilhante, preso em um processo kafkiano, arrasado financeira e pessoalmente, decidiu nos abandonar. Tímido, andava de bicicleta, conversava pouco, lia muito, escrevia bastante, movia as engrenagens a seu modo para tentar fazer as coisas nas quais acreditava. Talvez Eliane Brum, em seu artigo lúcido e tocante, tenha razão: Swartz possivelmente ofenderia este nosso mundo estúpido porque não queria ser um novo Mark Zuckeberg (criador do Facebook), mas apenas usar seu talento e sua inquietação para obter uma satisfação pessoal que nada tem a ver com ser milionário ou badalado, mas em contribuir, criar, construir, melhorar.

Como ele mesmo havia dito, é difícil manter a curiosidade pessoal acesa depois de passar pela escola, pela educação formal que se especializa em nivelar todos por baixo. Mas a sua curiosidade sobreviveu e prosperou. Infelizmente, não houve tempo para vê-la crescer ainda mais. É isso, antes de mais nada, que a perda de Aaron Swartz tem a dizer sobre nós, sobre estes estranhos dias que vivemos: que não há lugar para a curiosidade, a sinceridade, o embate de ideias, a delicada e silenciosa dedicação àquilo em que se acredita. Há que se esperar que o legado de Swartz seja mais poderoso do que esta conclusão sombria e trágica.

Perdão, Aaron Swartz – Eliane Brum, na revista Época

Porque sentiremos falta de Aaron Swartz, programador e ativista que cometeu suicídio aos 26 anos – Felipe Ventura, no Gizmodo

Aaron Swartz (1986-2013) – Tatiane de Mello Dias, no Estadão

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