Archive for fevereiro \28\UTC 2013

Os sinais sutis

quinta-feira, 28 fevereiro, 2013

Recebo um e-mail quase diário com ofertas de livros. Hoje, ao lê-lo, percebi que o título do livro e a sinopse não se encaixavam. Por alguma razão, o sistema (ou a pessoa; por que pensamos que tudo é obra de algum software?) havia trocado os dois. O título era O Menino que via Demônios, de Carolyn Jess-Cooke. Mas a sinopse era de Pulso, de Julian Barnes. Pesquisei pelo primeiro livro, mas o que realmente me interessava era a sinopse. Abri meu Google Drive (ex-Google Docs) e coloquei Pulso na longa lista de obras que pretendo ler, sabe-se lá quando.

Fechei o documento, o e-mail e voltei a navegar pelo site Livros Abertos. Como eu já havia percorrido as oito primeiras páginas de resenhas (aliás, site recomendado), pulei logo para a nona. E ali estava o Julian Barnes, me esperando com O Sentido de um Fim. Li a resenha, abri novamente o tal arquivo com as dezenas, talvez mais de uma centena,  de leituras agendadas, e o acrescentei também. Desliguei o computador e saí. Passava, sem prestar muita atenção, pela vitrine da Livraria Leitura em um shopping. De novo: Pulso, lançamento em destaque.

Não acredito em sinais, predestinações, sincronicidade; por via das dúvidas, comprei o livro. Não sei quando o lerei, e é provável que daqui a um tempo me esquecerei de que não o escolhi completamente, mas tive um pouco de ajuda do destino, esta entidade imaginária.

Nota cabotina:  Lembro-me de que, no final do ensino fundamental, quando ainda era chamado de primeiro grau, a professora pediu uma redação sobre o destino. Fui o único (eu e mais dois, talvez; já não tenho tanta certeza) que escreveu um texto contra a entidade que decidiria, secretamente, os passos de todos nós. Eu poderia discorrer, usando a quase ausência de educação católica em minha família e a sua onipresença nas de meus ex-colegas como justificativa, mas prefiro apontar a insistência de Barnes hoje como uma ironia delicada. Você sabe de quem.

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Woolf, de novo, e ficção científica

quinta-feira, 28 fevereiro, 2013

A maioria dos escritores ditos “sérios” faz cara de nojinho quando termos como ficção científica, fantasia e até o mais aceito realismo mágico acaba caindo no seu colo, mas poucos sabem que vários de seus pares e ídolos ou eram leitores do gênero ou arriscaram-se a escrever algumas obras, ainda que atrás de pseudônimos. Brincando com esta esta ideia, o artigo Virginia Woolf’s secret career as a science fiction writer who inspired Attack of the 50 Foot Woman, publicado no site especializado io9, descreve a segunda carreira fictícia da autora de Orlando, tomando emprestada a existência de um autor real, ou melhor, um pseudônimo real, EV Odle. Nesta mesma matéria, ficamos sabendo que Virginia Woolf era admiradora de um influente escritor de FC, Olaf Stapleton, e chegou a escrever uma carta para ele, como fã. A matéria toda é muito interessante e pode ser lida aqui: The Science Fiction Writer Who Received Fan Mail From Virginia Woolf. Nota: Aparentemente, a carta não apareceu entre as que ela teria escrito, mas apenas no acervo de Stapleton, recuperado pelo também escritor de FC Kim Stanley Robinson.

Mas, sejamos justos. Ao contrário do que o artigo afirma, o estilo de Woolf não mudou completamente após a leitura de Stapleton. Como muito bem aponta o comentário do usuário Pope John Peeps II (tradução canhestra minha):

Woolf estava constantemente evoluindo, deliberadamente experimentando tanto com a escrita quanto com a linguagem  ao longo de toda a sua carreira, e era sempre influenciada pelo ambiente literário ao seu redor. Dizer que um livro mudou totalmente sua forma de escrever é dizer que, antes deste livro, ela estava estática e, logo após, foi alguma forma “libertada”.

Não vou entrar na rivalidade artificial e tola entre os leitores e escritores “realistas”/mainstreams e os que não ligam para gêneros específicos; basta lembrar  que Guimarães Rosa escreveu contos decididamente pulp e Salman Rushdie foi orientado por seus editores a não participar de premiações de FC (seu primeiro romance, Grimus, é uma ficção científica) por receio de que ele fosse “rotulado” pelo mercado, para ver que os limites são, muitas vezes, bem tênues.

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De Virginia Woolf a Patti Smith e Sebald

De Virgina Woolf a Patti Smith e Sebald

quarta-feira, 20 fevereiro, 2013

Não ouvi muita coisa (além do básico) da cantora, compositora e roqueira Patti Smith ainda, apesar do interesse pela sua biografia, Só Garotos. Mas a citação ao seu trabalho no blog da editora L & PM chamou a minha atenção.

A admiração de Patti Smith pela autora de Mrs. Dalloway não é de hoje: o álbum “Wave”, de 1979, foi batizado assim em homenagem à Virginia. Além disso, a exposição “Patti Smith: Camera Solo”, realizada em 2011, exibia fotos feitas por Patti na casa onde Virginia se refugiava durante suas crises de depressão, em Sussex. Uma das fotos mostra o Rio Ouse, onde a escritora se suicidou em 26 de março de 1941:

rioouse_pattismith

Esta foto pede para ser a capa de um livro – que esteja à altura de Virgina Woolf, claro. De alguma forma, talvez por culpa do preto e branco, Patti Smith produziu uma imagem ao mesmo tempo poderosa e melancólica. Talvez mesmo se não soubéssemos do que aconteceu neste rio, ela ainda seria assim. Lembram-me as fotos igualmente melancólicas de W. G. Sebald, autor que as combinava (às vezes, de formas misteriosas) com textos que escapam às tentativas de classificação (memórias? guias de viagem? romances?).

Não me pergunte porque fiz estas conexões, apenas tive o desejo de registrá-las aqui.

Um pouco de cinema

domingo, 17 fevereiro, 2013

Depois de anos adiando, finalmente fiz uma pequena maratona pessoal com os filmes de Kar Wai Wong. Maravilhado, ressuscitei o Todos os Filmes e publiquei minhas impressões sobre Amor à Flor da Pele2046: Os Segredos do Amor. Aliás, não consigo parar de ouvir a trilha sonora de 2046.