De cometas, heranças e saudade

Eu e minha família morávamos em um apartamento muito simples, em um bairro nascido igualmente simples – dormitório de operários do distrito industrial, com o tempo transformado em reduto de classe média suburbana. Da janela da cozinha, tínhamos uma vista privilegiada de parte da cidade. Lembro-me de, no ano da febre do cometa Halley, ter ganhado uma luneta, e com ela visitei prédios, jardins, ruas e eventualmente uma vizinha que tomava banho de sol no terraço do prédio a alguns quarteirões de distância. Mas o que importava de fato, quando eu tinha uns dez anos, eram as estrelas. Claro, não eram muitas; a poluição de uma metrópole industrial e a luz emanada pela cidade impediam-me de ter aquela visão magnífica das fotos publicadas em revistas como a Geográfica Universal  (nossa versão dos anos 80 da National Geographic). Na verdade, estou enganado. O que importava mesmo não eram as estrelas, as casas distantes e, talvez, nem mesmo a moça que se banhava de sol nos finais de semana.

A janela era apenas a moldura para as conversas com meu pai. Discutíamos, como bons diletantes, todas as coisas que importavam: a vida, o universo e tudo o mais, diria Douglas Adams. A luz distante de estrelas que poderiam até estar mortas quando víamos seu passado – o qual só podíamos imaginar. O que seria necessário para um foguete sair da atmosfera. Ou a natureza do tempo – meu pai jamais aceitou a ideia da relatividade. Quase uma década depois, ele iria embora ainda acreditando na imutabilidade do tempo.

E esta inteligência crepuscular, um tanto pessimista em relação a natureza dos homens, me lembrava imediatamente de outra, um homem mítico que jamais conheci – meu avô, pai de minha mãe. Filho de portugueses, dizia ter visto o mesmo Halley em 1910 que, anos mais tarde, ao pensar a seu respeito, aceitou-o como um fenômeno natural espetacular, iluminado. E assim ele falava do mesmo universo para a minha mãe, que me diria tratar-se de um homem também inteligentíssimo e curioso, que olhava para a natureza com admiração. Acabou insano e vítima dos eletrochoques que, àquela época, serviam de tratamento respeitado pelos doutores.

E, finalmente, sua filha. Que talvez não tenha herdado a mesma fascinação pelo mundo físico, mas pelo modo de vê-lo e representá-lo. Minha mãe tinha duas paixões, ambas abandonadas em momentos distintos de sua vida: o desenho/pintura e a literatura. Ainda criança, pintava sempre que podia em placas de eucatex e desenhava em folhas de papel de enrolar pão. Com o falecimento serial de pai e mãe, tomou para si o dever de cuidar das irmãs. Desde então, teve os livros por companheiros. Era uma leitora voraz e infiel a gêneros e convenções. De romances históricos a terror, de ficção científica a suspense, dispensava preconceitos e lia pela única e verdadeira razão que deveria nos levar a abrir um livro: por prazer. Prazer que ela perdeu lentamente para a depressão que, no fim, tomaria o lugar daquela fome pelas letras, cores e formas.

Gostaria de ter a inteligência deles – suspeito não ter sido agraciado com tanto. Felizmente herdei, de todos, a mesma curiosidade. É em meu avô, meu pai e minha mãe que encontro a origem de meus estranhíssimos fascínios aparentemente inconciliáveis. As galáxias distantes. Rock. Os personagens dos romances. Star Trek. Música clássica. Os peixes dos abismos marinhos. Os contos de Tchekov. As sombras e as cores de pintores de trezentos anos atrás. Jazz. A assustadora e bela fragilidade de tudo que é vivo. E mesmo a ridícula pretensão de conseguir escrever sobre estas coisas.

Quando sinto saudades deles, e sei que sentirei para sempre, olho para os livros que escolhi ler e comprar, os filmes que assisti, os amigos com quem troquei palavras sobre os mesmos assuntos. Não tenho muitas inclinações espirituais, mas certa afeição ao clichê, e por isso posso dizer que é desta forma que ainda os sinto próximos de mim.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: