Se eu fosse revisor…

terça-feira, 6 novembro, 2007

… estaria no olho da rua neste exato instante. Só depois de 1 semana e meia de publicado, corrijo alguns erros irritantes no último post. Meu Deus.

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Hoje eu acordei com vontade de falar mal do capitalismo

sexta-feira, 26 outubro, 2007

Minto, claro. Não é nada disso. O fato é que tenho o hábito um tanto irritante de evitar falar de assuntos “da moda” aqui no blog. Por quê? Porque tem tanta gente falando, e tanto ao mesmo tempo sobre a mesmíssima coisa que mais um berrando obviedades, desesperado para ser ouvido, francamente, não faz diferença alguma. Talvez por isso eu jamais seria jornalista de verdade. Alia-se a esta minha natural preguiça o desinteresse por determinados assuntos populares: Che Guevara, por exemplo. Enquanto a maior parte glorificava o assassino com cheiro de rim fervido, uma galerinha animada por uma matéria na Veja celebrava o óbvio – que Che é o exemplo de tudo que deu e dá errado nesta joça de América Latina e de Brasil. O que eu teria a acrescentar a este debate amalucado? Só para citar Wittgenstein de forma torta e fora do contexto, me passando por um sujeito esperto: “Sobre aquilo que não se pode falar é melhor calarmo-nos”.
Muitas vezes penso em escrever sobre algo aqui no Universo Tangente e descubro, um minuto depois, que além do alívio pessoal de descarregar a idéia no Word, ninguém se interessaria pelo que eu acabaria escrevendo. Com isso, tenho passado períodos relativamente longos sem novos posts por absoluto desinteresse no que eu mesmo ando pensando. O título ridículo deste post eu chupinhei, sem dó, de outro blog, que visitei uma única vez. Ele já era levemente irônico por lá (embora o autor tivesse vontade legítima de falar mal do capitalismo), aqui ficou parecendo o nome de algum conto de autor brasileiro que não tem coisa alguma a ver com a história contada.
Culpo, em parte, as minhas poucas leituras neste mês; na verdade, o pouco que reli. Narrativas do Espólio e Morte em Veneza, para ser mais exato, Kafka e Thomas Mann. Ainda mais grave, estou com uma vontade danada de ler Wikinomics e A Cauda Longa. Na verdade, até desisti de perguntar se este último livro estava disponível numa livraria daqui de Belo Horizonte porque a funcionária que me atendeu parecia ilustrar de forma drástica e dramática o tal título. Provavelmente ela acharia que eu estava rindo da cara (ou da… deixa pra lá) dela e eu acabaria expulso da loja por um meganha.
É meio ridículo admitir que aquelas divagações típícas de trintões ainda calouros sobre carreira e rumos pessoais estão ocupando minuitos demais do meu tempo disponível. Preciso me concentrar naqueles pequenos prazeres para os neurônios – ler e desenhar, assistir a bons filmes e ver os amigos, especialmente – algumas das ações que fazem os dias valerem a pena. Talvez seja mesmo a proximidade do aniversário (hoje é véspera) que esteja embaralhando as minhas idéias e produzindo um post confuso como este.

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Notas rápidas: Folheei apressado a adaptação para os quadrinhos que os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá fizeram para O Alienista. Sim, eu gosto de algumas HQs, mas há poucos, pouquíssimos, autores capazes de fazer uso das ferramentas que os quadrinhos oferecem. E adaptações serão sempre adaptações – sua sina é ser inferiores aos originais. Mas gostei muito, muito mesmo do Alienista de Moon e Bá. Preciso, com ótimos enquadramentos que reforçam a dramaticidade das cenas com elegência. Preciso comprar e ler com calma para confirmar esta primeira impressão.

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Se um filme deprimente, sobre um tema terrível e ainda assim um belíssimo retrato de um personagem, te interessa, assista a O Lavador de Almas – não, não é uma comédia sobre uma sauna no inferno, culpe a distribuidora brasileira. O título original é apenas Pierrepoint e narra a vida do famoso carrasco inglês, responsável pelo enforcamento de condenados a morte. Duro, elegante, é também um estudo da impessoalidade do estado (eu havia escrito com “e” maiúsculo, é nisso que dá ser brasileiro) e seu confronto com as paixões humanas.

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Quando eu achava que Begnini jamais conseguiria fazer um filme pior do que A Vida é Bela, o cidadão surpreende com O Tigre e a Neve. Como é que o Tom Waits aceitou participar deste troço? O hiperativo italiano ainda quer nos emocionar a todo momento, e insere pelo menos uns cinco ganchos dramáticos unindo o início a conclusão do filme. “Agora vem a cena dramática, lembra do que ele contou no início do filme? Isso, olha aí, ó! Viu? Não chorou? Espera aí, agora tem outro, ó,ó, que legal, essa cena… Não chorou? Agora vai, agora vai, chora, neném!!! Chora, cáspita!!! Se emociona, porca miséria!!! Mas não se preocupe, esperaí que tem mais…”. Pior do que sofrer um porre melodramático é não sofrê-lo mesmo depois de duas garrafas cheias goela abaixo.

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E Ratatouille é genial. A seqüência em que o fascinante crítico gastronômico Anton Ego prova o prato criado pelo ratinho Remy foi certamente escrita por algum leitor de Marcel Proust. Imperdível.

A banalidade da vida e as ambições da literatura

sábado, 20 outubro, 2007

Em post recente, Antônio Fernando Borges comentou a banalidade do amor e acabou atraindo a ira de algumas leitoras. Não estou muito interessado em discutir as razões femininas para os comentários agressivos que ele recebeu, o que me importa aqui é a questão da banalidade do amor e/ou da vida.

A quizumba toda começou porque um amigo de Antônio comentou que a história dele (do amigo) poderia inspirar alguma literatura (do Antônio). Não, não poderia, ele respondeu – e eu concordo. Um de nossos equívocos mais comuns é imaginar que nossas vidas são interessantes a ponto de se transformar em matéria de obras de arte. Pode ser duro para alguns aceitar isto, mas, acredite em mim: nossas vidas são, via de regra, inacreditavelmente banais. Isto não significa que sejam vidas ruins ou – meu Jesus, perdoe-me pelo que vem a seguir – que não mereçam ser vividas; mas sim que observadas de fora são indistinguíveis da maioria das outras. Por mais penosas que sejam nossas próprias experiências, sentimentos e neuras, o que nos acontece e como lidamos com nossa existência não é algo tão importante assim, a não ser para nossos amigos próximos, parentes e amores.

É preciso um talento excepcional para enxergar, sob o que há de banal, algo que realmente mereça ser contado a toda a humanidade – quando existe este algo mais. E, ainda assim, é necessário um talento ainda maior para contar esta história num tom acima, para transformá-la em algo único. Veja que basta tentar resumir a trama de algumas grandes obras como se tivéssemos o cérebro de um idiota da objetividade para ver esta regra em ação: um príncipe que busca vingança pela morte do pai, um homem que desconfia da traição de sua mulher, uma família que carrega o caixão da matriarca morta, um filho que acompanha o pai-médico durante um dia. E o quanto estes resumos ridículos nos falam da grandiosidade atingida pelos seus autores? Absolutamente nada. Quando alguém acredita que “sua vida daria um livro”, está pensando apenas no resumo, ou melhor dizendo, no argumento da obra, que ela julga interessante.

Ainda voltando ao tema do início deste post, freqüentemente (e as mulheres, com mais ênafse do que a maioria dos homens) julgamos o amor importantíssimo, com i maiúsculo e algumas borboletas infantis voando ao redor da palavra. E certamente o é, para quem o vive. Ter de ouvir ou ler alguém narrá-lo, com todas suas as idas e voltas, decepções e delicadas felicidades é um porre – porque não passa de uma história igual a milhares de histórias já conhecidas, reais ou imaginárias. E quem narra, com quase toda a certeza, não é nenhuma Jane Austen, mas apenas um de nós.

Por outro lado, como se contrariando o suposto romantismo que nega a natureza comum do amor, é preciso lembrar que a banalidade anda de mãos dadas com o, digamos, realismo. Ela é um porto seguro para muitos leitores: se eu acredito que aquela prosinha meia-boca é literatura de primeira, logo minha vida também é. Trata-se de um auto-engano melancólico, além de uma compreensão equivocada do que seja boa literatura, que para este leitor, passa a ser uma espécie de carimbo, um aval que eleva a banalidade à grandeza apenas por estar escrita. Não consigo afastar a conclusão de que, se tanta gente realmente acredita nisso, talvez esteja aí a explicação para a literatura brasileira andar tão rasteira.

Quando escreveu para a Copa de Literatura Brasileira, Eduardo Carvalho resumiu admiravelmente esta questão, ao falar do romance Bóris e Dóris, de Luiz Vilela (não,  não li o livro ainda):

Bóris é um homem fácil de encontrar mas um personagem difícil de compor. Seria fácil para Luiz Vilela escrever um livro — ou criar um mesmo diálogo — ridicularizando ou menosprezando a vida e os sentimentos de um burocrata comum. Mas não: a mediocridade do Bóris é comovente. Bóris é medíocre como todos nós.

Meu primeiro meme!

quinta-feira, 11 outubro, 2007

A Evelyn (obrigado!) me convidou a participar de um meme bacana:

1) Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure);
2) Abra-o na página 161;
3) Procurar a 5ª frase completa;
4) Postar essa frase em seu blog;
5) Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6) Repassar para outros 5 blogs.

Aí está:

Eram portanto as minhas perguntas que os divertiam, que consideravam particularmente espertas?

Investigações de um cão, em Narrativas do Espólio, Franz Kafka, Companhia das Letras, tradução de Modesto Carone (Por sorte este era realmente o livro mais próximo, e não uma gramática de inglês logo abaixo do Kafka).

E passo este meme para o Edson Junior (Baterbly Etc.), Paulo (Los Olvidados), Renata (Literorragia), Ricardo (Desculpe a Poeira) e Jean-Philip Albert Struck (Canaca).

Momento Zeca Bordoada

quarta-feira, 3 outubro, 2007

Convenhamos: vivemos numa era de frescuras. Veja o caso do comercial de um determinado higienizante bucal em que um mané calado mostra cartazes que explicam suas razões para não abrir a boquita: ele está com mau hálito porque o higienizador bucal arde, coitado; logo, ele não o usa. Que mundo é este em que um adulto reclama de dorzinha na boca na hora de limpar a dita cuja? Nem faz muito tempo, o ardor desta categoria de produtos era destacado em propagandas de forma, digamos, bem-humorada – com aquele bom humor saído da cabeça de publicitário, claro. Agora, me aparece um cidadão com cara de adultescente reclamando de ardor na língua?
Ele deve ter sido criado a base de Merthiolate que não arde também. Mais uma vez apelo ao “convenhamos”: De que serve um Merthiolate que não arde? Quando eu era moleque e me machucava, sabia que sofreria mais com aquele líquido vermelho-rosado nojento do que com a pancada em si. Um psicólogo de botequim diria que era um aprendizado, uma forma instantânea de amadurecimento ou alguma besteira do gênero. Não interessa: O Merthiolate que ardia fez parte de uma certa mitologia infantil, junto aos carrinhos de rolimã que nunca quebravam, a loira do banheiro o e o boneco infernal do Fofão.
Para encerrar, vamos desenterrar aquela história de Clodovil, em um de seus delicadíssimos momentos de gentleman, chamando uma deputada federal de feia – é, ele usou uns subterfúgios de péssimo gosto aqui e ali, mas no final chamou a cidadã de feiosa mesmo. A deputada chorou, foi amparada pelos coleguinhas e, se não me engano, esboçou até uma ameaça de processo contra o deputado-costureiro. Frescura, pura e simples. Em outro país bem menos fresco (a França, por exemplo), a deputada riria da suposta ofensa, desarmaria o comentário indelicado e seguiria em frente. Mas não aqui.
A coisa anda tão feia (não, não estou me referindo à deputada) que há propaganda tentando provar aos pais que deixar suas crianças se sujar faz um bem danado a suas alminhas inocentes e encapetadas. Não demora muito para algum zeloso genitor entrar com um processo pedindo a retirada da campanha por oferecer risco a seu pupilo. E será criado mais um bananinha no Bananão.
Ah, quem é Zeca Bordoada? Cliquem aqui.

Obs.: Eu sei que o Merthiolate continha mercúrio e por isso sua fórmula foi modificada, não precisam me alertar.

Barbárie – Parte 2

sábado, 22 setembro, 2007

Continuando a série de posts desenterrados do limbo, republico um pequeno texto que foi ao ar no meu antigo blog, há mais de 4 anos – e o tal post já incluía a republicação de outro texto de minha autoria. Se você já trabalhou com programação de computadores, como eu, sabe que estou ficando recursivo. Se você não trabalhou com isso e não entendeu a minha tentativa de ser engraçado, não se preocupe: a piadinha é ruim mesmo.

Publico aqui por duas razões: estava pensando no assunto dias atrás e meu antiquíssimo blog recebeu um visitante anônimo que deixou um comentário para este post. Como o texto em si tem quase 8 (!!!) anos, por favor relevem algumas coisas das quais eu me envergonharia hoje – “Uma espécie de ópera ciberpunk de estranha sonoridade” parece frase de crítico de música da extinta Bizz. E o final do texto é meio ridículo. Mas mantenho a tese.

Barbárie

Os irmãos Chapman, parte da chamada nova geração de artistas britânicos – aqueles da exposição “Sensations” – ,resolveram pintar rostos de macacos e palhaços sobre ilustrações originais de Goya. Não, você não leu errado; eles pintaram por cima da série “Desastres de Guerra”, de Goya, que está, agora, permanentemente arruinada. Ao redor deste ato de estupidez “artística”, voam os críticos idiotas que abaixam as suas cabeças para qualquer artistazinho “novo” que resolve “chocar o mercado”, os empresários da área, ansiosos por patrocinarem nomes “quentes” e os que fingem entender alguma coisa, entupindo as galerias com seus comentários vazios. Toda esta gente pode gostar de se enganar. Eu não.
Artistas e empresários do meio se esquivam da questão, evocando a discussão sobre a propriedade das obras de arte (sim, os Chapman são os donos da série “Desastres de Guerra”), que não me interessa aqui. O que é realmente importante, ninguém tem coragem de admitir: a obra destes dois irmãos é pobre, ruim, burra. Ponto final.
Quase quatro anos atrás, escrevi uma carta-artigo que mandei a alguns amigos. Reproduzo trechos dela abaixo, e não mudo uma vírgula sequer:

Elogio da Banalidade
Ouvi, tempos atrás, o álbum Outsider, de David Bowie. Uma espécie de ópera ciberpunk de estranha sonoridade, o disco era acompanhado pelo diário de um certo Nathan Astler, detetive particular do século XXI. Especialista em casos escabrosos – rapto e assassinato de pessoas visando ao tráfico de seus órgãos para artistas plásticos. Ora, o que isso tem a ver com o artigo do caderno Pensar do Estado de Minas de um sábado modorrento, 24 de julho de 1999, intitulado Tempo de Ser Banal, de autoria do arquiteto e designer Paulo Laender?
O artigo trata do estado atual da arte, ou de sua ausência. Para tanto, outros três artigos são citados: Escândalos Artísticos, de Vargas Llosa, Chute Logo um Artista, de Diogo Mainardi e Fome de Bienal, dos articulistas do caderno. Vejamos as citações de citações. O que viu Llosa? “Chris Offil, de 29 anos, aluno do Royal College of Art, mostra suas obras sobre uma base de excremento de elefante solidificado… Outro escultor atulhou suas urnas de cristal com ossos humanos e até resíduos de um feto… Outra, intitulada ‘Aceleração Zigótica’, apresenta um leque de meninos andróginos cujos rostos são, na verdade, pênis eretos…” Diogo Mainardi:”Depois de visitar as obras dos 102 artistas de 59 países você sai com a certeza de que aquilo é puro charlatanismo(…) A americana Ann Hamilton resolveu apresentar um pozinho vermelho que cai das paredes. E daí? O francês Jean Pierre Bertrand enfileira cedros numa prateleira. E daí? A sensação predominante é de que os artistas gastam dez minutos para pensar suas obras e seis meses na tentativa de justificá-las, em vez de fazer o contrário…”
Eu continuo… Basta uma patética e falsa postura, gestos afetados, uma ou outra frase, mais ou menos elaborada, e nosso candidato torna-se um artista na mãos de marchands ávidos por divulgação e aparição. Arte? Ah, isso… faça uma instalação. Misture materiais rústicos com atuais, chame a tal intervenção do público. Não gostou? Justifique a incompletude como metáfora da existência humana, é simples, todos gostam da frase, até alguns críticos. Soa bem. Quer chocar? Decepe, decapite, exiba órgãos putrefatos, fetos em decomposição, cavalos empalhados, close-ups de genitálias. Simples. Arte, não?
Não. Esses sujeitos, com algumas exceções, ou são pobres coitados que se iludem com o que fazem ou estão muito conscientes do papel ridículo a que prestam. Mas quem vai lhes cobrar? Que público? Este que vai a Bienal como se fosse a exposição de fotos do casamento de alguma celebridade? Duvido. Assim vamos. Antes a arte era inacessível a população por ser considerada complexa – mentira. Agora, acessível, está diluída. A arte está falindo, perdeu seu significado – e não há nada de grave nisso, desde que alguém se proponha a enfrentá-la, novamente. Não é a toa que os poucos que estão conscientes disso colocaram chimpanzés para pintar.
Nesse mundinho de bárbarie de final de milênio, diríamos que a matéria-prima é a violência. Se tais artistas realmente se preocupassem em criar, pensar, elaborar, testar, discutir, encenar esta violência, eu até concordaria. Mas o andamento que dão é o de publicitários de si mesmos, de simples expositores do caos. Nada mais. Daí tanta escatologia que não chega a lugar algum, nada, esta tentativa de reaproximação com o sexo em imagens cruas, desprovidas até de estética, tão precárias que são suas propaladas instalações. Além do mal-estar, que passam? Nada. E até o mal-estar, caros artistas, passa, logo na esquina às vezes. Sem mal-estar, o que sobra destas obras? Nada. Nem sobrará, estejam certos. Por quê? Porque Mainardi está com a razão – porque estes artistas gastaram dez minutos para pensar e fazer sua obra e seis meses para justificar!
Então, quem diria, correto estava um roqueiro inglês de cinquenta anos, para quem a arte virou um painel vazio exibindo horrores banais.

Duas leituras tortas

quinta-feira, 20 setembro, 2007

Na minha adolescência, lia com alguma freqüência as colunas de Joel Silveira e Paulo Francis nos jornais de Minas Gerais. Na verdade, nem me lembro de muita coisa, mas aqueles textos me atraíam porque eram diferentes do restante do jornal. Eu acreditava que os jornalistas eram todos possuídos pelo espírito de Herbert Ritchers quando se sentavam às suas máquinas de escrever, produzindo textos de estilo padronizado. Logo, os colunistas, cronistas e pitaqueiros chamaram a minha atenção.

Minha família comprava o Diário da Tarde quase sempre e o Estado de Minas aos domingos. O Diário era ruim de doer e por um bom tempo quase se igualou ao Notícias Populares na inacreditável capacidade de comprimir litros e litros de sangue em tão poucas páginas. Aos sábados, saía uma tal Revista Nacional (posso estar enganado) em que Silveira tinha uma página. Eram notas curtas, diretas, um mau humor bem humorado, se me perdoam a obviedade. Eu praticamente só lia aquela página e lamentei que o tablóide tenha parado de vir no meio das páginas de sábado alguns anos depois. Só fui lei mais do Joel Silveira muito mais tarde, e confesso que sua morte recente me pegou de surpresa. Se é que vale o registro deste tipo de bobagem, falou-se mais do aniversário da Diana do que da perda de Silveira.

Já o Paulo Francis escrevia textos algo caudalosos, tinha a última página do caderno de cultura para o seu Diário da Corte só para ele. Francamente, eu não entendia a maior parte das referências culturais que ele despejava com uma naturalidade de causar inveja eterna em qualquer aspirante a escritor. Ainda era o Francis-personagem, que fazia parte do repertório de imitações de todo comediante vagabundo, falando mal de democratas e republicanos no Jornal da Globo, sempre direto de Nova Iorque. Eu via os textos como o verdadeiro Francis, divertido, culto e interessante, ao mesmo tempo integrado e distindo do personagem da TV. Confesso que não voltei a lê-lo, até hoje. Guardei os Diários da Corte por algum tempo, depois os perdi sei lá onde. Mas o ASS teve uma ótima idéia; vale a pena acompanhar.

Aqui o Polzonoff fala do fantástico O Inverno da Guerra, de Joel Silveira; e aqui, narra um encontro com o próprio. Mais: A última entrevista de Silveira, no Resende Agora.

Para encerrar, um texto belo, curto e doloroso sobre Francis.

Reforma ortográfica para quê?

domingo, 16 setembro, 2007

Eu tenho uma lista relativamente extensa de assuntos capazes de despertar toneladas de tédio armazenadas – e a danada cresce dia após dia. Nem preciso dizer que esta “reforma ortográfica” é um deles. Sim, sim, há especialistas que sabem explicar, detalhe por detalhe, a razão para a reforma, suas vantagens e o que supostamente ganhamos com ela. Eu não sou lingüista ou professor de português, falo apenas como um sujeito comum que se esforça um pouco para escrever com clareza e correção. Vi a lista das alterações sugeridas e não consegui imaginar em quê grafar “heroico” no lugar de “heróico” vai ajudar a consolidar a língua portuguesa no panteão dos idiomas de relações internacionais – um dos objetivos da reforma.

Perdoem-me os que possuem maior conhecimento sobre as diferenças entre o português de Portugal, Brasil e Moçambique, mas a idéia toda me parece fruto de reuniões de burocratas e sua obsessão em ordenar a natureza até certo ponto caótica da sociedade. À exceção dos lusitanos, os demais países desta comunidade de 250 milhões de falantes ainda não chegaram perto de diminuir suas taxas de analfabetismo – real e funcional. A ironia de toda esta história é que adequação às novas normas da língua vai exigir investimentos estatais e privados de bom porte. Tudo em nome de uma ilusão de grandeza e padronização cultural na base da canetada tipicamente brasileira.

A propósito, Portugal não ratificou o acordo. Apenas o Bananão e dois bananinhas, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe disseram sim. Logo, ele não deve sair tão cedo.

De Volta

sexta-feira, 14 setembro, 2007

Enrolado em trabalhos, compromissos e as confusões diárias, acabei ausente por um tempo razoável. Mas pensei muito sobre muita coisa e logo começo a escrever. Reforma ortográfica, 7 de setembro, Piratas do Tietê. Mas não se preocupe: nada de Renan Calheiros. Eles não merecem.

Os Títulos e os Mortos

terça-feira, 4 setembro, 2007

Quando eu era (ainda) mais novo, mantinha uma lista de títulos futuros para contos e/ou romances. Eram premissas, anotações, impressões jamais realizadas. Para alguns eu já tinha personagens e histórias, mas a maioria eram apenas pistas mal ajambradas que não se encaixavam em crime algum – porque só poderia ser mesmo um crime escrever um livro com algum daqueles títulos.

Não sei dizer exatamente o porquê, mas a construção destes títulos me fascinava. Eu os encarava como entidades quase distintas da futura obra, uma espécie de marketing tosco a que o escritor se obrigava. No final das contas, a maioria absoluta era muito ruim; construções do tipo “Artigo + Substantivo + Preposição + Substantivo”. Coisas como O Baile dos Caramujos, A Alma dos Ateus ou algo mais sofisticado como A Vida Secreta dos Replicantes. Bom, estes três os inventei agora, mas servem de amostra do nível da minha brincadeira àquela época.

Na verdade, esta fixação juvenil por títulos estava ligada a vontade tola de dizer tudo de forma “diferente”, como eu descrevi neste post. Não entendia que a função do título não é adornar, sobressair-se ou ficar mais famoso do que o conteúdo do livro (meu Deus), mas integrar-se a ele, fazer parte de todo um projeto, uma certa ambição que é função do texto e não do escritor. Ou, melhor dizendo: este artesanato imaturo do título é apenas uma questão de vaidade, um sintoma claro daquele equívoco tão comum de querer ser maior do que a obra (geralmente medíocre), de ostentar o (geralmente medíocre) estilo de vida dos artistas ao invés de trabalhar duro sobre as páginas.

Imaginemos o que seria de Anna Karenina, Crime e Castigo e A Divina Comédia caso tivessem seus títulos alterados por, digamos, Sidney Sheldon, J.M. Simmel e Paulo Coelho? A Amante Russa, Redenção de um Assassino e Do Mais Negro Inferno Ao Mais Puro dos Céus? Aceito sugestões.

E leia este post do Bruno.

E, sim, a minha lista está perdida em algum canto da casa, felizmente.