Archive for the ‘Arte’ Category

De cometas, heranças e saudade

segunda-feira, 25 novembro, 2013

Eu e minha família morávamos em um apartamento muito simples, em um bairro nascido igualmente simples – dormitório de operários do distrito industrial, com o tempo transformado em reduto de classe média suburbana. Da janela da cozinha, tínhamos uma vista privilegiada de parte da cidade. Lembro-me de, no ano da febre do cometa Halley, ter ganhado uma luneta, e com ela visitei prédios, jardins, ruas e eventualmente uma vizinha que tomava banho de sol no terraço do prédio a alguns quarteirões de distância. Mas o que importava de fato, quando eu tinha uns dez anos, eram as estrelas. Claro, não eram muitas; a poluição de uma metrópole industrial e a luz emanada pela cidade impediam-me de ter aquela visão magnífica das fotos publicadas em revistas como a Geográfica Universal  (nossa versão dos anos 80 da National Geographic). Na verdade, estou enganado. O que importava mesmo não eram as estrelas, as casas distantes e, talvez, nem mesmo a moça que se banhava de sol nos finais de semana.

A janela era apenas a moldura para as conversas com meu pai. Discutíamos, como bons diletantes, todas as coisas que importavam: a vida, o universo e tudo o mais, diria Douglas Adams. A luz distante de estrelas que poderiam até estar mortas quando víamos seu passado – o qual só podíamos imaginar. O que seria necessário para um foguete sair da atmosfera. Ou a natureza do tempo – meu pai jamais aceitou a ideia da relatividade. Quase uma década depois, ele iria embora ainda acreditando na imutabilidade do tempo.

E esta inteligência crepuscular, um tanto pessimista em relação a natureza dos homens, me lembrava imediatamente de outra, um homem mítico que jamais conheci – meu avô, pai de minha mãe. Filho de portugueses, dizia ter visto o mesmo Halley em 1910 que, anos mais tarde, ao pensar a seu respeito, aceitou-o como um fenômeno natural espetacular, iluminado. E assim ele falava do mesmo universo para a minha mãe, que me diria tratar-se de um homem também inteligentíssimo e curioso, que olhava para a natureza com admiração. Acabou insano e vítima dos eletrochoques que, àquela época, serviam de tratamento respeitado pelos doutores.

E, finalmente, sua filha. Que talvez não tenha herdado a mesma fascinação pelo mundo físico, mas pelo modo de vê-lo e representá-lo. Minha mãe tinha duas paixões, ambas abandonadas em momentos distintos de sua vida: o desenho/pintura e a literatura. Ainda criança, pintava sempre que podia em placas de eucatex e desenhava em folhas de papel de enrolar pão. Com o falecimento serial de pai e mãe, tomou para si o dever de cuidar das irmãs. Desde então, teve os livros por companheiros. Era uma leitora voraz e infiel a gêneros e convenções. De romances históricos a terror, de ficção científica a suspense, dispensava preconceitos e lia pela única e verdadeira razão que deveria nos levar a abrir um livro: por prazer. Prazer que ela perdeu lentamente para a depressão que, no fim, tomaria o lugar daquela fome pelas letras, cores e formas.

Gostaria de ter a inteligência deles – suspeito não ter sido agraciado com tanto. Felizmente herdei, de todos, a mesma curiosidade. É em meu avô, meu pai e minha mãe que encontro a origem de meus estranhíssimos fascínios aparentemente inconciliáveis. As galáxias distantes. Rock. Os personagens dos romances. Star Trek. Música clássica. Os peixes dos abismos marinhos. Os contos de Tchekov. As sombras e as cores de pintores de trezentos anos atrás. Jazz. A assustadora e bela fragilidade de tudo que é vivo. E mesmo a ridícula pretensão de conseguir escrever sobre estas coisas.

Quando sinto saudades deles, e sei que sentirei para sempre, olho para os livros que escolhi ler e comprar, os filmes que assisti, os amigos com quem troquei palavras sobre os mesmos assuntos. Não tenho muitas inclinações espirituais, mas certa afeição ao clichê, e por isso posso dizer que é desta forma que ainda os sinto próximos de mim.

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Woolf, de novo, e ficção científica

quinta-feira, 28 fevereiro, 2013

A maioria dos escritores ditos “sérios” faz cara de nojinho quando termos como ficção científica, fantasia e até o mais aceito realismo mágico acaba caindo no seu colo, mas poucos sabem que vários de seus pares e ídolos ou eram leitores do gênero ou arriscaram-se a escrever algumas obras, ainda que atrás de pseudônimos. Brincando com esta esta ideia, o artigo Virginia Woolf’s secret career as a science fiction writer who inspired Attack of the 50 Foot Woman, publicado no site especializado io9, descreve a segunda carreira fictícia da autora de Orlando, tomando emprestada a existência de um autor real, ou melhor, um pseudônimo real, EV Odle. Nesta mesma matéria, ficamos sabendo que Virginia Woolf era admiradora de um influente escritor de FC, Olaf Stapleton, e chegou a escrever uma carta para ele, como fã. A matéria toda é muito interessante e pode ser lida aqui: The Science Fiction Writer Who Received Fan Mail From Virginia Woolf. Nota: Aparentemente, a carta não apareceu entre as que ela teria escrito, mas apenas no acervo de Stapleton, recuperado pelo também escritor de FC Kim Stanley Robinson.

Mas, sejamos justos. Ao contrário do que o artigo afirma, o estilo de Woolf não mudou completamente após a leitura de Stapleton. Como muito bem aponta o comentário do usuário Pope John Peeps II (tradução canhestra minha):

Woolf estava constantemente evoluindo, deliberadamente experimentando tanto com a escrita quanto com a linguagem  ao longo de toda a sua carreira, e era sempre influenciada pelo ambiente literário ao seu redor. Dizer que um livro mudou totalmente sua forma de escrever é dizer que, antes deste livro, ela estava estática e, logo após, foi alguma forma “libertada”.

Não vou entrar na rivalidade artificial e tola entre os leitores e escritores “realistas”/mainstreams e os que não ligam para gêneros específicos; basta lembrar  que Guimarães Rosa escreveu contos decididamente pulp e Salman Rushdie foi orientado por seus editores a não participar de premiações de FC (seu primeiro romance, Grimus, é uma ficção científica) por receio de que ele fosse “rotulado” pelo mercado, para ver que os limites são, muitas vezes, bem tênues.

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Alta literatura e literatura de massa : a distinção faz algum sentido?
De Virginia Woolf a Patti Smith e Sebald

De Virgina Woolf a Patti Smith e Sebald

quarta-feira, 20 fevereiro, 2013

Não ouvi muita coisa (além do básico) da cantora, compositora e roqueira Patti Smith ainda, apesar do interesse pela sua biografia, Só Garotos. Mas a citação ao seu trabalho no blog da editora L & PM chamou a minha atenção.

A admiração de Patti Smith pela autora de Mrs. Dalloway não é de hoje: o álbum “Wave”, de 1979, foi batizado assim em homenagem à Virginia. Além disso, a exposição “Patti Smith: Camera Solo”, realizada em 2011, exibia fotos feitas por Patti na casa onde Virginia se refugiava durante suas crises de depressão, em Sussex. Uma das fotos mostra o Rio Ouse, onde a escritora se suicidou em 26 de março de 1941:

rioouse_pattismith

Esta foto pede para ser a capa de um livro – que esteja à altura de Virgina Woolf, claro. De alguma forma, talvez por culpa do preto e branco, Patti Smith produziu uma imagem ao mesmo tempo poderosa e melancólica. Talvez mesmo se não soubéssemos do que aconteceu neste rio, ela ainda seria assim. Lembram-me as fotos igualmente melancólicas de W. G. Sebald, autor que as combinava (às vezes, de formas misteriosas) com textos que escapam às tentativas de classificação (memórias? guias de viagem? romances?).

Não me pergunte porque fiz estas conexões, apenas tive o desejo de registrá-las aqui.

Adeus, Amy

sábado, 23 julho, 2011

Haverá sempre, na imprensa especializada e seus fãs (entre os quais me incluo desde que ouvi Back to Black pela primeira vez, há cinco anos), quem associe o monumental talento de Amy Winehouse a sua vida amalucada e ao consumo constante e crescente de álcool e drogas. É uma bobagem descomunal. A grande ironia está no fato de que a genialidade artística resiste ao modo estúpido com que gente como Amy trata o próprio corpo e a mente. O talento ultrapassa os limites impostos pela existência comezinha, pelo dia-a-dia, é quase uma doença, uma necessidade que apenas os portadores dela sabem como funciona. Não; esta constatação óbvia não redime os gênios de suas opiniões absurdas, de suas ações detestáveis ou da tendência a autodestruição que contagia alguns deles. Apenas os tornam adorável e terrivelmente humanos.

Por isso mesmo a morte de Amy Winehouse é tão dolorosa. Não a perdemos para as drogas, como alguns gostam de dizer, de modo um tanto simplista; a perdemos para a estupidez mesmo. E a estupidez autodestrutiva é sempre, sempre, muito triste.

Sobre literatura, amizade, decência e generosidade

segunda-feira, 2 maio, 2011

Antes de mais nada, confesso: li quase nada escrito por David Foster Wallace (na verdade, acho que no Brasil só saiu mesmo o Breves Entrevistas Com Homens Hediondos). E de Jonathan Franzen, estou com As Correções na lista de leitura. Enfim, nada posso realmente dizer sobre a obra de um ou outro – geralmente muito elogiados, em especial Foster. Para quem não sabe, Foster escreveu em 1997 Infinite Jest, obra que muita gente considera o grande romance norte-americano contemporâneo. Ele cometeu suicídio em 2008 e desde então, sua popularidade tem crescido – bom, ao menos entre os leitores do que chamaremos, à falta de expressão melhor, de “literatura séria”. E Franzen era seu amigo. Recentemente, Franzen escreveu um artigo na New Yorker, misto de ensaio com memórias, citando Foster. Deveria ser uma homenagem, mas segundo este imperdível artigo no Aguarrás, A morte do autor (neste caso, David Foster Wallace) e a suprema falta de elegância (para não chamar de grosseria cósmica) de Jonathan Franzen: uma reflexão sobre arte, literatura, amizade e decoro, de Manuel Carreiro, não passou de uma grosseria.

Franzen revela detalhes e faz julgamentos constrangedores de Foster, de forma, digamos, impune, uma vez que o amigo não está mais vivo para se defender. Por exemplo, o chama de narcisista e culmina com:

Franzen diz que Wallace estava doente sim, e que a história da sua amizade com Wallace é simplesmente esta: “ele amava um sujeito que era um doente mental.” (Página 90 da revista). E continua: “o deprimido se matou, de modo a inflingir o máximo de dor naqueles que mais amava, e nós que o amávamos ficamos com raiva, nos sentindo traídos. Traídos não somente pela falha do amor que investimos, mas pelo fato de que o suicídio tirou aquela pessoa de nós e o tornou uma lenda junto ao público”.

Há dois pontos que acho interessante destacar no artigo de Manuel Carreiro. Em primeiro lugar, a grosseria e falta de decoro de Franzen para com um amigo. Não consigo resumir esta ideia melhor do que a citação do seguinte parágrafo:

Conheço pessoas que pensam (seriamente) que o mundo de hoje não comporta dignidade moral, honradez, acatamento, respeito a si e aos outros. Ah: estes são sinônimos de decoro. Já me foi dito que estes são valores antiquados, que o mundo de hoje é dinâmico, rápido, interativo: não precisamos fazer cerimônia para nos apresentarmos um ao outro, para tratarmos um ao outro. Até tento compreender esta mudança de paradigma comportamental, mas nunca consigo. E vejo que a morte do decoro resultou numa quebra de hierarquia (que poderia ser celebrada, não fosse a maneira tosca como foi feita), resultou num destrato ainda maior para com o próximo, num exacerbado narcisismo onde nos exibimos, nos escancaramos (postamos pensamentos e fotos íntimas) para todos os amigos e ainda para qualquer conhecido que vimos uma vez na vida e incorporamos no nosso show particular na rede.

Assino embaixo.

O outro ponto, também abordado por Carreiro, diz respeito a natureza do amor e da amizade. Sim, a frase é vulgar, mas o raciocínio, sincero. Franzen diz ter investido na amizade com Foster e foi privado, com o suicídio, do retorno deste investimento. Que diabos é isso? Ele imagina a amizade como um tipo de caderneta de poupança, investimento seguro e certo? Sinto dizer, mas é uma bolsa de valores, volátil e incerta. Se não é capaz desta generosidade, de oferecer sua amizade sem visar imediatamente algo em troca, então Franzen não foi amigo de Foster – foi algo menor, ainda que talvez acreditasse, e acredite até hoje, ter sido seu amigo.

Então, volto a noção de que escrever, contar uma história é um ato de generosidade. E requer o despreendimento absurdo de não esperar algo em troca. Se você pretende escrever para receber elogios, está no negócio errado, aliás, muito errado. O Paulo Polzonoff escreveu um post muito bom sobre o assunto: Generosidade.

O peso da herança

quarta-feira, 6 abril, 2011

Quando Bill Watterson se aposentou em 1995, deixou como legado a tirinha Calvin e Hobbes. É possível imaginar outro artista desenhando Calvin? Não, pensemos em algo pior: imagine outro escritor dando vida a “novas aventuras” de um moleque e seu tigre de pelúcia. Agora, pense em Piratas do Tietê sem Laerte, Geraldão em outras mãos que não as do (saudoso) Glauco ou Peanuts escrita e desenhada por alguém que não Charles Schultz. É, mas neste último caso, infelizmente, já aconteceu. Ou quase isso.

O álbum Happiness is a Warm Blanket será lançado nos EUA em breve, com roteiro de Craig Schulz (sim, o filho do criador)e Stephan Pastis. Já os desenhos são obra de Bob Scott, Vicki Scott e Ron Zorman. Como o álbum é baseado em um episódio da série animada, e o Schultz-pai se envolveu na sua produção, é de se esperar que as ideias desenvolvidas na história não saem muito da linha imaginada por ele. Corrigindo: o quadrinho é baseado em uma animação lançada neste ano; logo, sem a participação de Schultz-pai. MasA porteira está aberta.

Torçamos para que, em breve, não surjam histórias absolutamente contrárias ao espírito original de Peanuts – já imaginou uma revista mensal chamada Peanuts Teen?

 

Que puxa.

Posts relacionados:

Há uma gota de Charlie Brown em cada mané ou da realidade metida no meio da ficção, sobre a verdadeira história da Garotinha Ruiva.

Uma nova forma de arte?

sexta-feira, 1 abril, 2011

Continuando a discussão sobre os jogos, mas indo para outras searas, deixo os links de dois posts interessantes do escritor Bráulio Tavares:

Uma nova forma de arte

Literatura e joguinhos

Sim, os jogos podem ser uma nova forma de arte. Como Tavares assinala muito bem :

São duas culturas diferentes, porque os games (assim como o cinema) não surgiram num contexto “artístico” e sim no contexto de uma nova tecnologia de produção de imagens que rapidamente se converteu numa diversão popular e numa indústria lucrativa. A Arte talvez seja o próximo passo para os games, como foi para o cinema, cem anos atrás.

Vale a pena ler também na Saraiva Conteúdo, um artigo em que autores brasileiros relatam sua experiência com os jogos e a influência em sua literatura:

Literatura e Games: Parceria cada vez maior

De Liniers, para o Japão

domingo, 13 março, 2011

Liniers é um artista e quadrinista argentino. Reconheço que só conheci seu trabalho recentemente, mas já sou seu fã. Esta é a lindíssima e triste arte que ele dedicou ao Japão vitimado pelo terremoto (Publicado no La Nácion):

Se não estiver vendo a imagem, clique aqui.

Site oficial de Liniers.

O caso Céline

domingo, 20 fevereiro, 2011

Há uma celeuma em andamento no mundo literário. Tudo culpa de Céline e do governo francês. Para quem caiu de para-quedas aqui, Louis-Ferdinand Céline (1894-1961) é considerado um dos melhores e mais influentes autores do século XX, tendo escrito Viagem ao Fim da Noite e Morte a Crédito. Infelizmente, também era um antissemita que escreveu uma série de odiosos panfletos entre os anos de 1937 e 1941. Só escapou à morte no pós-guerra por ter se bandeado para a Holanda, que se recusou a extraditá-lo.

Você tem de ser profundamente ingênuo para acreditar na superioridade moral dos escritores e artistas. É o tipo de pensamento tolo típico dos manuais de auto-ajuda e de quem nada sabe sobre o mundo das letras e das artes. Escritores são pessoas comuns, com preconceitos, taras, manias, horrores e unha encravada. Quando eu digo que a genialidade é uma qualidade pura, quero dizer que, até certo ponto, ela se encontra isolada das demais características de um indivíduo. É perfeitamente possível ser um canalha, um renomado mau caráter e, ao mesmo tempo, um gênio. Esta constatação, tão simples para nós, que gostamos de livros, é uma equação bem indigesta para governos.

A França, por exemplo, acada de excluir o sr. Destouches (seu sobrenome verdadeiro) das comemorações culturais deste ano. É duro dizer isso, mas talvez tenha feito a coisa certa, ao menos do seu ponto de vista. Governos não trabalham com a realidade, mas com a sua percepção. E, a partir da ideia que a maioria absoluta das pessoas têm dos escritores como seres acima da média, homenagear um escritor espetacular que se alinhou às ideias e ações mais sombrias do nazismo é um péssimo negócio. Além disso, persiste, entre os governos, a ideia de que a literatura é um tipo de patrimônio cultural que serve para alimentar o monstro do nacionalismo. Na verdade, junto à ideia maluca da moralidade angelical dos autores, o povo acredita realmente que possui direitos sobre a obra de um escritor de seu país, assim como acredita que as conquistas de uma seleção de jogadores de futebol que atua há anos fora das fronteiras nacionais de alguma forma também lhe pertencem. O caso francês, claro, é um tanto mais delicado pela vergonha que o colaboracionismo de Vichy ainda evoca, mas a verdade é que povo algum gostaria de ter, entre seus herois culturais, um escritor que se empolgava mais com a solução final de Hitler do que muitos dos acólitos mais dedicados do carniceiro megalômano de Berlim.

Admitir que existe um abismo entre a genialidade e a infâmia e que este abismo pode habitar a alma de um mesmo sujeito é pedir demais para o grande público. Ao menos, por agora. Talvez em um futuro próximo, tenhamos a maturidade para distinguir estas esferas: admirar a obra de Céline e repudiar suas opiniões. Por enquanto, Destouches vai continuar companheiro dos leitores e estudiosos, distante do chamado “patrimônio cultural” de seu país. Talvez seja melhor assim; ao menos, não teremos estátuas vulgares em sua homenagem, como é de praxe que os estados façam com seus escritores.

O Estadão publicou um artigo do peruano Vargas Llosa, A Literatura não é edificante, cuja leitura é imperdível. Ele aponta as contradições e problemas envolvidos no caso Céline. Cito a seguir alguns parágrafos que me pareceram os mais interessantes:

Considerando que a genialidade artística não é um atenuante contra o racismo – eu a consideraria antes um agravante -, a meu juízo, a decisão do governo francês envia à opinião pública uma mensagem perigosamente equivocada sobre a literatura e cria um péssimo precedente. Sua decisão parece supor que, para ser reconhecido como um bom escritor, é preciso escrever também obras boas e, em última instância, ser um bom cidadão e uma boa pessoa. A verdade é que se o critério fosse esse, apenas um punhado de polígrafos se qualificaria.

Entre eles há alguns que correspondem a esse padrão benigno, mas a imensa maioria padece das mesmas misérias, taras e barbaridades que o comum dos seres humanos. Somente na rubrica do antissemitismo – o preconceito racial ou religioso contra os judeus – a lista é tão extensa que seria preciso excluir do reconhecimento público uma multidão de grandes poetas, dramaturgos e narradores, entre os quais figuram Shakespeare, Quevedo, Balzac, Pio Baroja, T.S. Eliot, Claudel, Ezra Pound, E.M. Cioran, e muitíssimos mais.

O fato de que essas e outras eminências fossem racistas não legitima o racismo, em primeiro lugar, e é antes uma prova contundente de que o talento literário pode coexistir com a cegueira, a imbecilidade e os extravios políticos, cívicos e morais, como o afirmou, de maneira impecável, Albert Camus.

A Arte de Alex Toth

quarta-feira, 15 dezembro, 2010

Para quem não liga o nome a sua obra: se você tem mais de 25-30 anos, muito provavelmente a viu diariamente na TV. Toth foi o artista responsável pelo visual de boa parte dos personagens da Hanna-Barbera, incluindo clássicos como Superamigos, Zandor e os Herculóides, Homem Pássaro, Johnny Quest, Mightor e Space Ghost. Além de trabalhar com animação, desenhou vários quadrinhos para a DC, além do espanhol mafioso Torpedo 1936 e o Zorro para a Disney.

Segundo notícia publicada no Melhores do Mundo, a biografia de Toth foi lançada no mercado norte-americano em três volumes, incluindo toneladas de ilustrações, model sheets e algumas histórias inéditas até hoje. É material de nicho, claro, mas como diz o link, não custa nada sonhar em vê-lo um dia publicado aqui no Brasil. Afinal, se já aoprtaram por aqui materiais “difíceis” como o Peanuts Completo e o Sandman – Edição Definitiva, quem sabe?