Archive for the ‘Ciencia’ Category

De cometas, heranças e saudade

segunda-feira, 25 novembro, 2013

Eu e minha família morávamos em um apartamento muito simples, em um bairro nascido igualmente simples – dormitório de operários do distrito industrial, com o tempo transformado em reduto de classe média suburbana. Da janela da cozinha, tínhamos uma vista privilegiada de parte da cidade. Lembro-me de, no ano da febre do cometa Halley, ter ganhado uma luneta, e com ela visitei prédios, jardins, ruas e eventualmente uma vizinha que tomava banho de sol no terraço do prédio a alguns quarteirões de distância. Mas o que importava de fato, quando eu tinha uns dez anos, eram as estrelas. Claro, não eram muitas; a poluição de uma metrópole industrial e a luz emanada pela cidade impediam-me de ter aquela visão magnífica das fotos publicadas em revistas como a Geográfica Universal  (nossa versão dos anos 80 da National Geographic). Na verdade, estou enganado. O que importava mesmo não eram as estrelas, as casas distantes e, talvez, nem mesmo a moça que se banhava de sol nos finais de semana.

A janela era apenas a moldura para as conversas com meu pai. Discutíamos, como bons diletantes, todas as coisas que importavam: a vida, o universo e tudo o mais, diria Douglas Adams. A luz distante de estrelas que poderiam até estar mortas quando víamos seu passado – o qual só podíamos imaginar. O que seria necessário para um foguete sair da atmosfera. Ou a natureza do tempo – meu pai jamais aceitou a ideia da relatividade. Quase uma década depois, ele iria embora ainda acreditando na imutabilidade do tempo.

E esta inteligência crepuscular, um tanto pessimista em relação a natureza dos homens, me lembrava imediatamente de outra, um homem mítico que jamais conheci – meu avô, pai de minha mãe. Filho de portugueses, dizia ter visto o mesmo Halley em 1910 que, anos mais tarde, ao pensar a seu respeito, aceitou-o como um fenômeno natural espetacular, iluminado. E assim ele falava do mesmo universo para a minha mãe, que me diria tratar-se de um homem também inteligentíssimo e curioso, que olhava para a natureza com admiração. Acabou insano e vítima dos eletrochoques que, àquela época, serviam de tratamento respeitado pelos doutores.

E, finalmente, sua filha. Que talvez não tenha herdado a mesma fascinação pelo mundo físico, mas pelo modo de vê-lo e representá-lo. Minha mãe tinha duas paixões, ambas abandonadas em momentos distintos de sua vida: o desenho/pintura e a literatura. Ainda criança, pintava sempre que podia em placas de eucatex e desenhava em folhas de papel de enrolar pão. Com o falecimento serial de pai e mãe, tomou para si o dever de cuidar das irmãs. Desde então, teve os livros por companheiros. Era uma leitora voraz e infiel a gêneros e convenções. De romances históricos a terror, de ficção científica a suspense, dispensava preconceitos e lia pela única e verdadeira razão que deveria nos levar a abrir um livro: por prazer. Prazer que ela perdeu lentamente para a depressão que, no fim, tomaria o lugar daquela fome pelas letras, cores e formas.

Gostaria de ter a inteligência deles – suspeito não ter sido agraciado com tanto. Felizmente herdei, de todos, a mesma curiosidade. É em meu avô, meu pai e minha mãe que encontro a origem de meus estranhíssimos fascínios aparentemente inconciliáveis. As galáxias distantes. Rock. Os personagens dos romances. Star Trek. Música clássica. Os peixes dos abismos marinhos. Os contos de Tchekov. As sombras e as cores de pintores de trezentos anos atrás. Jazz. A assustadora e bela fragilidade de tudo que é vivo. E mesmo a ridícula pretensão de conseguir escrever sobre estas coisas.

Quando sinto saudades deles, e sei que sentirei para sempre, olho para os livros que escolhi ler e comprar, os filmes que assisti, os amigos com quem troquei palavras sobre os mesmos assuntos. Não tenho muitas inclinações espirituais, mas certa afeição ao clichê, e por isso posso dizer que é desta forma que ainda os sinto próximos de mim.

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O que a perda de Aaron Swartz tem a dizer de nosso tempo

terça-feira, 22 janeiro, 2013

A esta altura, provavelmente você já sabe do suicídio de Aaron Swartz. Se não sabe, um resumo rápido: Swartz era um jovem genial, de apenas 26 anos, que foi processado por ter acessado e copiado documentos de um banco de dados de artigos acadêmicos. Ele poderia ser condenado a até 50 anos de prisão e a pagar 4 milhões de dólares de multa.

Entender a tragédia da morte de Aaron vai muito além do choque causado pela perda de um talento tão jovem e promissor, ela diz muito sobre o nosso próprio tempo e nossos erros absurdos. Aaron sempre foi um rapaz interessado em tecnologia e em como usá-la para melhorar a vida das pessoas (vivemos uma era tão cínica e estúpida que já antevejo alguns leitores fazendo cara de nojinho ao ler isso). Ajudou a criar a tecnologia de distribuição de informação que este blog, inclusive, usa, o RSS, aos 14 anos. Acreditava piamente que a sociedade poderia fazer uso da internet para apoiar candidatos realmente interessados em defender demandas legítimas, vindas dos eleitores e não dos financiadores de campanhas. Tinha um blog pessoal onde dividia textos sobre tecnologia com outros a respeito de política, cinema, ideias sobre como melhorar a vida das pessoas e depressão. Mas, acima de tudo, acreditava que a informação deveria circular livremente. Conhecimento produzido em universidades deveria ser de acesso público e irrestrito para que pudesse, nas mãos certas, gerar mais e melhor conhecimento.

Ele acessou o banco de dados de artigos acadêmicos, o JSTOR, e baixou milhares de artigos. Detalhes relevantes: o banco é público, mas o acesso a ele é pago (não pergunte); Swartz não divulgou os arquivos em lugar algum; e o JSTOR retirou o processo. Para seu azar , suas ações chamaram a atenção da procuradoria de Massachusets, que resolveu transformá-lo em símbolo. A procuradora Carmen Ortiz, interessada se candidatar ao governo de seu estado, jogou sobre o rapaz todo o poder daquilo que os norte-americanos chamam de “sistema”: rejeitou acordos, defesas e alegações dos advogados da família de Swartz. Seu objetivo era levá-lo a cadeia por tempo maior do que havia vivido e ainda impor uma multa milionária. Achava que este caso exemplar a coroaria. Resultou no suicídio do réu.

Não digo que o que ele fez foi certo, e mesmo seu mentor Larry Lessig (professor de Direito em Harvard e um dos cofundadores do Creative Commons) achava que Aaron não havia agido de forma totalmente correta. Mas a desproporcionalidade entre a ação e a punição salta aos olhos de qualquer leigo – sem mencionar o fato de que o maior interessado, o JSTOR, havia desistido de processar Swartz.

Um jovem simples e brilhante, preso em um processo kafkiano, arrasado financeira e pessoalmente, decidiu nos abandonar. Tímido, andava de bicicleta, conversava pouco, lia muito, escrevia bastante, movia as engrenagens a seu modo para tentar fazer as coisas nas quais acreditava. Talvez Eliane Brum, em seu artigo lúcido e tocante, tenha razão: Swartz possivelmente ofenderia este nosso mundo estúpido porque não queria ser um novo Mark Zuckeberg (criador do Facebook), mas apenas usar seu talento e sua inquietação para obter uma satisfação pessoal que nada tem a ver com ser milionário ou badalado, mas em contribuir, criar, construir, melhorar.

Como ele mesmo havia dito, é difícil manter a curiosidade pessoal acesa depois de passar pela escola, pela educação formal que se especializa em nivelar todos por baixo. Mas a sua curiosidade sobreviveu e prosperou. Infelizmente, não houve tempo para vê-la crescer ainda mais. É isso, antes de mais nada, que a perda de Aaron Swartz tem a dizer sobre nós, sobre estes estranhos dias que vivemos: que não há lugar para a curiosidade, a sinceridade, o embate de ideias, a delicada e silenciosa dedicação àquilo em que se acredita. Há que se esperar que o legado de Swartz seja mais poderoso do que esta conclusão sombria e trágica.

Perdão, Aaron Swartz – Eliane Brum, na revista Época

Porque sentiremos falta de Aaron Swartz, programador e ativista que cometeu suicídio aos 26 anos – Felipe Ventura, no Gizmodo

Aaron Swartz (1986-2013) – Tatiane de Mello Dias, no Estadão

O fim do mundo não vale a pena

quinta-feira, 20 dezembro, 2012

Tenho lido e ouvido de muita gente que o fim do mundo seria uma ótima oportunidade para a humanidade se reinventar. Claro, o fim do mundo de amanhã é uma rematada bobagem, mas a ideia de que é necessário um cataclisma de grandes proporções para que a nossa civilização melhore é bem comum, arraigada em nossas crenças. Mas ela tem dois problemas, básicos. O primeiro: é ingenuidade imaginar que algo de bom irá brotar do caos social que um evento de destruição e escala global viria a causar. Infelizmente, como qualquer fã de Walking Dead e leitor de A Estrada ,de Cormac McCarthy, sabe, somos bem maus quando confrontados com a possibilidade de morrer no meio de uma multidão. Acreditar que a humanidade se reergueria melhorada de uma destruição em massa é otimismo demais para o meu gosto – e, no entanto, é exatamente o que acontece em Star Trek.

A segunda razão é bem mais simples: no fundo, no fundo, por mais que essas pessoas gostem de afirmar que gostariam de ver o apocalipse zumbi irromper para sacudir a nossa espécie, elas não querem que isso aconteça. Porque toda vez que penso em uma catástrofe, lembro-me das pessoas de quem gosto e que não gostaria de ver sofrer. É por isso que nos tornamos, até certo ponto, e com o avanço da idade, mais conservadores: não queremos que aqueles quem amamos sofram. Então, torcemos para que nada de trágico ocorra – estão fora de cogitação invasão alienígena, pandemia global, queda de meteoro, crise econômica severa e nem revoluções, que, no final das contas, acabam sendo banhos de sangue destinados a trocar, por algum tempo, uma elite por outra enquanto o povo se ilude com ideologias e circo.

É a nossa natureza, goste-se dela ou não: Vivemos para cuidar daqueles mais próximos de nós. O amor sincero por toda a humanidade é tão difícil e raro de se ter que, na nossa cultura ocidental, é representado na figura de um homem que, na verdade, é o filho de Deus. Entre nós, simples mortais, este desprendimento é tão raro que só ocorre em extremos: na dedicação extremada de alguns poucos e admirados personagens (quase sempre, terrivelmente solitários) e na perversão deste sentimento pelos psicopatas que fundam as ditaduras sob a desculpa de, assim, melhorar a vida de todos.

Não, eu não desejo o fim do mundo porque ainda tenho a quem desejar bem, tenho a quem cuidar. E, supremo paradoxo, se o fim vier, que venha calmamente e nos leve e a eles com todo o silêncio do vácuo interestelar quando chegar a hora – que não será amanhã.

A besteira de Von Trier e a histeria de Cannes

terça-feira, 24 maio, 2011

Não há dúvidas de que o cineasta Lars von Trier falou muita besteira em Cannes. Aliás, ele adora fazer este personagem – em entrevista anterior, insinuou que o ex-presidente norte-americano George Bush teria um caso com Condolezza Rice -, mas agora resolveu tocar na ferida aberta da Europa com o dedo sujo de ironia. Ao contrário do que a imprensa andou vendendo por aí, von Trier nunca afirmou ser nazista. A sua fala completa está transcrita no site Cinema em Cena, onde fica claro que sua tentativa desastrada de ser irônico só conseguiu mesmo afundá-la no mau gosto.

Por outro lado, a reação de Cannes foi desproporcional: tornado persona non grata, o cineasta foi sumariamente expulso do festival, mesmo depois de se desculpar. Em seguida, a distribuidora argentina de seu novo filme, Melancholia (do qual já falei brevemente aqui) decidiu cancelar a sua exibição. Mesmo que Melancholia tenha permanecido na competição, perdeu a Palma de Ouro para A Árvore da Vida, de Terêncio Maluco (copyright by Ana Maria Bahiana), embora a atriz Kristen Dunst tenha levado o prêmio para casa. O nazismo é uma sombra tão monstruosa sobre o sombrio continente europeu que mesmo a menção mais estúpida a ele acaba cercada por patrulheiros. Recentemente, o escritor Louis-Ferdinand Céline foi excluído das comemorações culturais francesas neste ano. Motivo: seu antissemitismo. Detalhe: Céline está morto há 50 anos.

Curiosamente, a mesma Cannes que expulsou von Trier recebe o maluco falastrão Mel Gibson de braços abertos com o filme dirigido pela sua amiga (talvez a única) Jodie Foster, The Beaver. E duvido seriamente que eles teriam ressalvas quanto a presença de Roman Polanski.

A humanidade: Quase nada

segunda-feira, 4 abril, 2011

Diante do tsunami e do acidente na usina de Fukushima, uma amiga foi enfática: a humanidade está em extinção. Pensei nisso e a conclusão a que cheguei é ligeiramente diversa: sempre estivemos em extinção. Na verdade, nossa existência é tão precária e frágil que podemos imaginá-la como um reles resultado de situações aleatórias (para quem não acredita em seres superiores) ou uma concessão revogável a qualquer momento por uma vontade superior (para quem acredita).

Isso, claro, me levou a Carl Sagan e a famosa foto Pálido Ponto Azul. Em 1990, 13 anos após seu lançamento, a sonda espacial Voyager 1 apontou sua câmera em nossa direção, a mais de 6 bilhões de quilômetros de distância. O resultado é uma foto única, em que o planeta Terra não é mais do que um ponto débil, minúsculo, insignificante em uma imensidão inimaginável. Título do livro que viria em seguida, a foto inspirou a seguinte (e longa) reflexão do astrônomo. Parece-me que este texto já apareceu até no programa da Ana Maria Braga (“Que derrota”, diria o Louro José), o que só comprova que há mensagens que superam os meios, só para ficar num clichê. De todo modo, segue o melhor resumo já feito sobre nossa irrelevância, insignificância e potencial grandeza:

A espaçonave estava bem longe de casa. Eu pensei que seria uma boa ideia, logo depois de Saturno, fazê-la dar uma ultima olhada em direção de casa.
De Saturno, a Terra apareceria muito pequena para a Voyager capturar qualquer detalhe, nosso planeta seria apenas um ponto de luz, um “pixel” solitário, dificilmente distinguível de muitos outros pontos de luz que a Voyager avistaria: Planetas vizinhos, sóis distantes. Mas justamente por causa dessa imprecisão de nosso mundo assim revelado valeria a pena ter tal fotografia.
Já havia sido bem entendido por cientistas e filósofos da antiguidade clássica, que a Terra era um mero ponto de luz em um vasto cosmos circundante, mas ninguém jamais a tinha visto assim. Aqui estava nossa primeira chance, e talvez a nossa última nas próximas décadas.

Então, aqui está – um mosaico quadriculado estendido em cima dos planetas, e um fundo pontilhado de estrelas distantes. Por causa do reflexo da luz do sol na espaçonave, a Terra parece estar apoiada em um raio de sol. Como se houvesse alguma importância especial para esse pequeno mundo, mas é apenas um acidente de geometria e ótica. Não há nenhum sinal de humanos nessa foto. Nem nossas modificações da superfície da Terra, nem nossas máquinas, nem nós mesmos. Desse ponto de vista, nossa obsessão com nacionalismo não aparece em evidência. Nós somos muito pequenos. Na escala dos mundos, humanos são irrelevantes, uma fina película de vida num obscuro e solitário torrão de rocha e metal.
Considere novamente esse ponto. É aqui. É nosso lar. Somos nós. Nele, todos que você ama, todos que você conhece, todos de quem você já ouviu falar, todo ser humano que já existiu, viveram suas vidas. A totalidade de nossas alegrias e sofrimentos, milhares de religiões, ideologias e doutrinas econômicas, cada caçador e saqueador, cada herói e covarde, cada criador e destruidor da civilização, cada rei e plebeu, cada casal apaixonado, cada mãe e pai, cada criança esperançosa, inventores e exploradores, cada educador, cada político corrupto, cada “superstar”, cada “líder supremo”, cada santo e pecador na história da nossa espécie viveu ali, em um grão de poeira suspenso em um raio de sol.
A Terra é um palco muito pequeno em uma imensa arena cósmica. Pense nas infindáveis crueldades infringidas pelos habitantes de um canto desse pixel, nos quase imperceptíveis habitantes de um outro canto, o quão frequentes são seus mal-entendidos, quanta ânsia têm por se matarem, e o quão fervorosamente eles se odeiam. Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores para que, em sua glória e triunfo, eles pudessem se tornar os senhores momentâneos de uma fração de um ponto. Nossas atitudes, nossa imaginária auto-importância, a ilusão de que temos uma posição privilegiada no Universo, é desafiada por esse pálido ponto de luz.
Nosso planeta é um espécime solitário na grande e envolvente escuridão cósmica. Na nossa obscuridade, em toda essa vastidão, não há nenhum indicio de que ajuda possa vir de outro lugar para nos salvar de nós mesmos. A Terra é o único mundo conhecido até agora que sustenta vida. Não ha lugar nenhum, pelo menos no futuro próximo, no qual nossa espécie possa migrar. Visitar, talvez; se estabelecer, ainda não. Goste ou não, por enquanto, a Terra é onde estamos estabelecidos.
Foi dito que a astronomia é uma experiência que traz humildade e constrói o caráter. Talvez, não haja melhor demonstração das tolices e vaidades humanas do que essa imagem distante do nosso pequeno mundo. Ela enfatiza nossa responsabilidade de tratarmos melhor uns aos outros, e de preservar e estimar o pálido ponto azul, único lar que conhecemos.

Uma sociedade de jogadores

terça-feira, 29 março, 2011

Artigo de Diógenes Muniz para a Folha de São Paulo (apenas para assinantes), A overdose dos games, aborda a gameficação (sim, o neolgismo é feio e desengonçado mesmo) da sociedade. A ideia é que a cultura dos games está se espalhando além das telas dos computadores e dos consoles. Em primeiro lugar, começa a ser percebida em nosso dia-a-dia; por exemplo, há bizarríssimos jogos instalados em mictórios japoneses – marca mais pontos os usuários, digamos, de mira mais apurada. Há jogos que envolvem ações cotidianas, como limpar a casa, e associam estes atos a pontos e fases.

Não há como negar a ascensão dos jogos eletrônicos: a indústria de games movimenta tanto ou mais dinheiro do que Hollywood. Alguns lançamentos são mais disputados e têm maior repercussão do que o blockbuster mais ruidoso do cinemão norte-americano. Eles invadiram áreas como as redes sociais (Farmville que o diga), o RH das empresas e até mesmo o jornalismo – muitos sites de notícias oferecem simulações de acontecimentos para que o leitor “experimente” a realidade descrita nas palavras. Os games são parte indissociável da cultura do século XXI e a tendência é continuar crescendo. Dois exemplos são o filme Scott Pilgrim Contra o Mundo, em que um nerd meio coitado (o eterno nerd meio coitado interpretado por Michael Cera) tem de combater os ex-namorados de seu interesse romântico, Ramona. Ainda mais do que nos quadrinhos nos quais se baseou, Scott Pilgrim é uma celebração da cultura gamer. A fábula infanto-juvenil de Salman Rushdie, Luka e o Fogo da Vida, estrutura-se como um jogo; em determinado momento da narrativa, o personagem principal volta a um ponto já vencido em sua trajetória, como uma punição por uma fase não completada.

Claro, como em toda novidade, há quem enxergue muito além. Talvez estejam certos, mas só teremos certeza daqui a uns bons anos. Com o título provocativo de Reality Is Broken, um livro lançado recentemente prega que os jogos nos farão melhores. Segundo sua autora, Jane McGoniga, os jogos são atraentes porque oferecem recompensa imediata e uma sensação perene de engajamento e participação no mundo. Mais: se tantas pessoas preferem universos gameficados, não seria este um sintoma claro de que a realidade não nos basta, de que suas regras, que nos não nos fazem felizes, são imperfeitas? Para a autora, a solução é clara: devemos gameficar a realidade.

Os críticos (e temo que, em parte, eu concorde com eles) dizem que esta é uma negação infantil da realidade, não um melhoramento dela. Seria apenas uma reação lógica de uma sociedade que tem, repetida e insistentemente, negado os aspectos negativos e inevitáveis da existência: a solidão, tristeza, tragédia e fracasso. Além disso, o fato é os jogos são incapazes de consertar a realidade: eles apenas acrescentam um espaço para o exercício destas ideias dentro da realidade. Não importa o quanto possamos jogar, vencer e voltar para início quando perdemos, ainda teremos o trânsito, as contas para pagar, as relações para discutir e os filhos para criar. Para estes críticos, a gameficação tem limites.

Estejam certos os integrados ou os apocalípticos, nos encontramos, de fato, num momento estranho da história. Sim, é um erro comum, terrivelmente comum, que todos os homens de todas as eras já cometeram: achar que o tempo em que vivem é, de alguma forma, especial. Mas é bastante provável que estejamos assistindo a um momento de transição entre dois mundos: a realidade, como sempre a vivos e sentimos; e a realidade reformada, virtualizada ou expandida, em que a união de cenários criados em computadores interagirá de tal forma com a realidade física que será praticamente impossível separá-los.

Talvez sejamos uma das últimas gerações analógicas da história. Game over.

Nota final: Rebelde líbio diz que aprendeu a atirar vendo filmes e jogando Playstation

1000 Lugares no Sistema Solar para se conhecer antes de desintegrar

segunda-feira, 24 janeiro, 2011

Poderia ser o título do novo livro de Douglas Adams, se estivesse vivo. A Nasa divulgou uma espécie de álbum de pontos turísticos do sistema solar, que deve servir de guia para os empreendedores do turismo espacial do (tão, tão distante…) futuro.

Sim, finalmente eu voltei. O post é curto, mas daqui a pouco tem mais.

Agora vou tomar vergonha na cara e responder os comentários que ficaram na fila. Mea culpa, mea maxima culpa.

Overdose de informação

domingo, 5 dezembro, 2010

Uma das afirmações mais repetidas nos telejornais e revistas é de que vivemos uma era de overdose de informação. Produzimos em poucos meses mais informação do que toda a humanidade produziu até o século XIX. Não há como negar isso, mas talvez o problema seja um pouco mais sutil.

Este ótimo gráfico resume bem o que caracteriza e diferencia dado, informação, conhecimento e sabedoria. Em resumo, dados são os números, tabelas, bancos de dados, palavras, etc. Informação é dado contextualizado, trabalhado, ao qual está associado um significado. Não é só isso, claro, e esta é uma redução meio grosseira, mas é por aí. O problema é que temos muita dificuldade em estabelecer o significado de tantos dados que nos são apresentados o tempo todo. Dito de outra forma, não sabemos distinguir o que é importante do que é irrelevante. A informação perde boa parte de seu sentido e nos parece um simples dado. E o excesso de dados aparentes é que o que nos estressa. O resultado desta avalanche é uma salada meio amalucada em que tudo se mistura e acaba se nivelando por baixo, tudo é importante e descartável ao mesmo tempo.

Mas não se engane: adoro a nossa era. Prefiro a abundância de opções à sua escassez. Talvez não haja solução para a suposta overdose, mas fico com a conslusão de um amigo: tenho pouco tempo. E aproximando-se da era pessoal dos “enta” rapidamente, meu tempo torna-se ainda mais precioso. Logo, só presto atenção ao que me interessa de verdade. Para mim, isso é informação. O resto? São apenas dados flutuando na realidade virtual do nosso tempo.

30 anos de Cosmos

quinta-feira, 30 setembro, 2010

Há 30 anos estreava na televisão norte-americana a série-avó de O Universo (History Channel) e Como Funciona o Universo (Discovery Channel): Cosmos, de Carl Sagan. Como uma série um pouco mais nova do que eu (uma forma eufemística para dizer “velha”) consegue ser uma referência indiscutível na divulgação da ciência até hoje? Afinal, seus efeitos especiais são datados, algumas extrapolações já não convencem tanto à luz de novas descobertas e a gola rolê que o Sagan usava saiu de moda.

Muito simples: Sagan transmitia uma visão grandiosa e poética não apenas do universo, mas da humanidade em toda a sua espetacular evolução e sua paradoxal insignificância. Era uma apaixonado pela ciência que queria contaminar seus espectadores – e conseguiu. Bom, pelo menos a mim, que assisti a todos os episódios reprisados nas manhãs de sábados e domingos da Rede Globo. Auxiliado pela trilha sonora de Vangelis, Cosmos fez, no formato de documentário, o que a série Star Trek havia conseguido mais de uma década antes: chamar a atenção de toda uma geração para a ciência. O que não é pouca coisa, especialmente se considerarmos o inacreditável grau de anafalbetismo científico do nosso tempo.

Curiosidade absolutamente nerd: há outra ligação entre Star Trek e Sagan. O cientista trabalhou na criação da placa de ouro acoplada às sondas Pionner 10 e 11 e na gravação dos sons da Terra levados num disco a bordo das sondas Voyager 1 e 2. Estes são os objetos criados pelo homem que se encontram atualmente mais distantes da Terra. O primeiro filme para o cinema de Star Trek, de 1979, conta como uma inteligência extraterrestre encontrou uma fictícia Voyager 6 (adotando o nome de V’ger) e rumou em direção a este planeta a procura de seu criador. Ainda no campo cinematográfico, pouco antes de falecer em 1996, Sagan ajudou a roteirizar seu romance Contato, que ganhou uma adaptação sensacional para as telas dirigida por Robert Zemeckis.

Além de Contato, Carl Sagan ainda escreveu, entre outros, os famosos O Mundo Assombrado Pelos Demônios e Bilhões e Bilhões em que apresenta sua visão otimista do progresso científico e suas objeções céticas. Mas ainda é Cosmos que melhor representa seu legado – e vale a pena reassisti-la, sempre.

Faça um nerd feliz

domingo, 1 agosto, 2010

Em um episódio de The Big Bang Theory, o übber-nerd Sheldon Copper recebe uma toalhinha de mesa assinada por Leonard Nimoy, o Sr. Spock de Star Trek. Eu tenho certeza de que alguns nerds ficariam muito felizes com um presetinho como este aqui – eu ficaria:

Se você não está vendo a figura acima, clique aqui para vê-la.