Archive for the ‘Comunidades’ Category

Duas dicas imperdíveis

terça-feira, 23 dezembro, 2008

Se você gostou do post De Norman Rockwell a Hugo Pratt, então siga o conselho da minha amiga e leitora do blog, Ana: neste endereço, há uma entrevista de Pratt em francês – no Youtube. Mesmo que o seu francês seja pedrestre como o meu, vale (muito) a pena vê-lo desenhando Corto Maltese.

Já o post que mais reações apaixonadas gerou, como quase todo texto ou posicionamento político, O Sonho Sombrio de Stálin (uma aliteração tão óbvia que parece letra dos Engenheiros do Hawai), ganhou um adendo respeitável graças ao leitor Zé das Couves: a versão legendada em português do documentário The Soviet Story. Em 13 partes no Youtube.

Certamente, a parte mais gratificante do trabalho de se manter um blog é quando ele começa a conectar pessoas, que chegam a contribuir com seus comentários. Obrigado aos meus poucos, porém fiéis leitores.

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Cinismo, morte e internet

domingo, 24 fevereiro, 2008

“Uma geração de cínicos. É isto que somos.” Assim começa, certeiro, o excelente texto do Paulo, que acabei lendo duas vezes, mesmo sem ter assistido ainda a Juno. No mesmo dia, li a aterradora matéria da revista Época sobre o suicídio de adolescentes que encontram apoio para dar fim a própria vida entre “amigos” da internet. É daqueles textos capazes de estragar o seu dia (o meu foi para o espaço) e te fazer pensar por dias, semanas, sem chegar a conclusão alguma. Se não fosse o post do Paulo, talvez eu não conseguisse escrever estas linhas.

Há uma ligação nítida entre os dois eventos: a criação de uma geração de cínicos e os impulsos de desagregação, solidão e, nos casos mais extremos, morte, de seus filhos. Falo aqui dos que têm entre 30 e 40 anos e seus filhos, a molecada que já nasceu na era da web e do iPod. Falo, de certa forma, de mim também, muito embora eu não tenha filhos e nem sei dizer se ainda pretendo tê-los. Como bem diz o Paulo, em algum momento do final dos anos 80 e 90 do distante e tão presente século passado, fomos imersos numa longa série de valores culturais em que o desprezo ao outro, o cinismo puro e a certeza de que o mundo é uma imensa latrina habitada por seres ainda mais horríveis do que nós mesmos foram as referências constantes. Do marxismo no limite do analfabetismo intelectual e da demência suave dos nossos professores aos filmes de Quentin Tarantino (de que gosto, confesso) e a música de Kurt Cobain, passamos a nos identificar como grupo que sabe sobreviver ao grande e mau mundo que nos cerca. Nada mais infantil, claro.

Não é coincidência que os meninos e meninas tenham apreendido isso de nós e, como sempre fizeram, reciclado os valores dos pais na tentativa desesperada se transformar em outra coisa. Do nosso cinismo originaram-se os chatos e inofensivos emos (uma tribo que desaparecerá como os góticos que ouviam The Cure vinte e cinco anos atrás) e também estes jovens suicidas. E não apenas eles: as anoréxicas, os viciados em drogas, os pedófilos, os espancadores. Todo um mundo de pessoas que não admite ter um problema a ser superado, não estão interessados em melhorar. Eles se afirmam como grupos legítimos: olhando apenas para o próprio umbigo, eles gritam que não precisam de reabilitação, de ajuda, de ninguém.

A internet é a terra deles; um lugar que poucos de nós habitam com a mesma desenvoltura, onde vivem (mesmo) de acordo com regras não escritas cuja crueldade nos assusta. Se nós fomos formados no cinismo, esta nova geração encontrou na web um terreno livre para a expansão daquele mundo apenas esboçado pelos pais – sim, felizmente ainda somos um bando de bundões. É um universo paralelo, adolescente, imaturo, que a cada dia parece-se mais e mais com O Senhor das Moscas, de William Golding, em que um grupo de crianças deixadas à própria sorte numa ilha deserta regridem à selvageria. Por outro lado, não deixa também de ser um retrocesso ao “mal do século”, a tuberculose dos românticos do século XIX, da idéia glamourizada da morte, da Noites na Taverna. E as pessoas, os anônimos que ajudam os suicidas a se matar, mesmo adultos, não passam de adolescentes – além de criminosos

A entrevista do psicanalista do jovem suicida é, ao mesmo tempo, incrivelmente lúcida e desesperada. Alguns trechos merecem destaque, para encerrar este texto que eu precisava escrever.

“Você não encontra um (Albert) Camus falando sobre suicídio [na internet]. Só encontra idiotas falando sobre suicídio.”

“É gente doente [os que incitam os suicidas a se matar] que exerce sua morbidez, seu sadismo. Eu acredito que deve ter algum grau de sinceridade nessa negatividade do mundo. O problema é que eles não sabem com quem estão falando. Não têm consciência da fragilidade das pessoas. Esse é o drama da internet. Acho que nenhum adulto conseguiria chegar para um adolescente e dizer, cara a cara: a vida não vale a pena, te mata.”

“Há um centro de valorização da morte na internet”.

Só uma ressalva: sempre achei esta historinha de sofrer porque vivemos sem utopias uma imensa bobagem. No mais, concordo com quase todo o resto da entrevista.