Archive for the ‘Educação’ Category

O que a perda de Aaron Swartz tem a dizer de nosso tempo

terça-feira, 22 janeiro, 2013

A esta altura, provavelmente você já sabe do suicídio de Aaron Swartz. Se não sabe, um resumo rápido: Swartz era um jovem genial, de apenas 26 anos, que foi processado por ter acessado e copiado documentos de um banco de dados de artigos acadêmicos. Ele poderia ser condenado a até 50 anos de prisão e a pagar 4 milhões de dólares de multa.

Entender a tragédia da morte de Aaron vai muito além do choque causado pela perda de um talento tão jovem e promissor, ela diz muito sobre o nosso próprio tempo e nossos erros absurdos. Aaron sempre foi um rapaz interessado em tecnologia e em como usá-la para melhorar a vida das pessoas (vivemos uma era tão cínica e estúpida que já antevejo alguns leitores fazendo cara de nojinho ao ler isso). Ajudou a criar a tecnologia de distribuição de informação que este blog, inclusive, usa, o RSS, aos 14 anos. Acreditava piamente que a sociedade poderia fazer uso da internet para apoiar candidatos realmente interessados em defender demandas legítimas, vindas dos eleitores e não dos financiadores de campanhas. Tinha um blog pessoal onde dividia textos sobre tecnologia com outros a respeito de política, cinema, ideias sobre como melhorar a vida das pessoas e depressão. Mas, acima de tudo, acreditava que a informação deveria circular livremente. Conhecimento produzido em universidades deveria ser de acesso público e irrestrito para que pudesse, nas mãos certas, gerar mais e melhor conhecimento.

Ele acessou o banco de dados de artigos acadêmicos, o JSTOR, e baixou milhares de artigos. Detalhes relevantes: o banco é público, mas o acesso a ele é pago (não pergunte); Swartz não divulgou os arquivos em lugar algum; e o JSTOR retirou o processo. Para seu azar , suas ações chamaram a atenção da procuradoria de Massachusets, que resolveu transformá-lo em símbolo. A procuradora Carmen Ortiz, interessada se candidatar ao governo de seu estado, jogou sobre o rapaz todo o poder daquilo que os norte-americanos chamam de “sistema”: rejeitou acordos, defesas e alegações dos advogados da família de Swartz. Seu objetivo era levá-lo a cadeia por tempo maior do que havia vivido e ainda impor uma multa milionária. Achava que este caso exemplar a coroaria. Resultou no suicídio do réu.

Não digo que o que ele fez foi certo, e mesmo seu mentor Larry Lessig (professor de Direito em Harvard e um dos cofundadores do Creative Commons) achava que Aaron não havia agido de forma totalmente correta. Mas a desproporcionalidade entre a ação e a punição salta aos olhos de qualquer leigo – sem mencionar o fato de que o maior interessado, o JSTOR, havia desistido de processar Swartz.

Um jovem simples e brilhante, preso em um processo kafkiano, arrasado financeira e pessoalmente, decidiu nos abandonar. Tímido, andava de bicicleta, conversava pouco, lia muito, escrevia bastante, movia as engrenagens a seu modo para tentar fazer as coisas nas quais acreditava. Talvez Eliane Brum, em seu artigo lúcido e tocante, tenha razão: Swartz possivelmente ofenderia este nosso mundo estúpido porque não queria ser um novo Mark Zuckeberg (criador do Facebook), mas apenas usar seu talento e sua inquietação para obter uma satisfação pessoal que nada tem a ver com ser milionário ou badalado, mas em contribuir, criar, construir, melhorar.

Como ele mesmo havia dito, é difícil manter a curiosidade pessoal acesa depois de passar pela escola, pela educação formal que se especializa em nivelar todos por baixo. Mas a sua curiosidade sobreviveu e prosperou. Infelizmente, não houve tempo para vê-la crescer ainda mais. É isso, antes de mais nada, que a perda de Aaron Swartz tem a dizer sobre nós, sobre estes estranhos dias que vivemos: que não há lugar para a curiosidade, a sinceridade, o embate de ideias, a delicada e silenciosa dedicação àquilo em que se acredita. Há que se esperar que o legado de Swartz seja mais poderoso do que esta conclusão sombria e trágica.

Perdão, Aaron Swartz – Eliane Brum, na revista Época

Porque sentiremos falta de Aaron Swartz, programador e ativista que cometeu suicídio aos 26 anos – Felipe Ventura, no Gizmodo

Aaron Swartz (1986-2013) – Tatiane de Mello Dias, no Estadão

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O papel das universidades

domingo, 13 novembro, 2011

Da revista Dicta e Contradicta, que citou a The New York Review of Books:

“Vast numbers of students come to university with no particlar interest in their courses and no sense of how these might prepare them for future careers. […] For most of them, in the end, what the university offers is not skills or knowledge but credentials: a diploma that signals employability and basic work discipline. Those who manage to learn a lot often—though happily not always—come from highly educated families and attend highly selective colleges and universities. They are already members of an economic and cultural elite. Our great, democratic university system has become a pillar of social stability—a broken community many of whose members drift through, learning little, only to return to the economic and social box that they were born into.”

Não, não vou dar opinião alguma sobre o papel das escolas e, mais especificamente, das universidades. Só vale mesmo dizer: tradicionalmente encaradas como um elemento promotor da mobilidade social, a universidade vem se tornado apenas uma emissora de diplomas – respondendo aos anseios mais simplórios de seus próprios alunos (atuais e futuros). Nada disso é novo, claro, mas demonstra outra vez que algumas coisas têm de continuar sendo reafirmadas: escola não faz milagre e é melhor aproveitada, via de regra, por aqueles que já vêm de um ambiente acolhedor a cultura e ao saber (sempre há exceções, evidente e felizmente).

E-Books: O inglês dominará?

segunda-feira, 18 abril, 2011

No post O mundo vai ler mais livros em inglês? no blog Painel das Letras, Josélia Aguiar fala da possibilidade de expansão no número de leitores que comprarão e-books em inglês. Claro, há muita coisa a ser considerada – se tivéssemos uma ideia clara das vendas de e-books por idiomas e países, poderíamos apontar uma tendência em curso, mas parece-me não ser este o caso. Muita gente já afirma que esta afirmação é mais uma típica amostra da arrogância anglo-americana.

Mas é bem provável que Mike Shatzin, entrevistado por Aguiar, esteja correto. Não é uma questão de arrogância, mas de mercado e de características próprias do e-book. Ao menos teoricamente, pela primeira vez, um público que pode ler em inglês e não tinha paciência para esperar a vinda de um livro do exterior, pode comprá-lo em um segundo e ter o título disponível em seu e-reader (ou tablet, PC, celular, etc…) no instante seguinte. Recentemente, eu quase comprei uma edição norte-americana de O Museu da Inocência, (já falei dele antes) de Orhan Pamuk, em paperback, além do Never Let Me Go/Não me Abandone Jamais, de Kazuo Ishiguro, autor de Os Vestígios do Dia, e que já está meio difícil de encontrar em português. Alguns meses antes e na mesma livraria, adquiri American Gods/Deuses Americanos, de Neil Gaiman, por um preço ridículo – edição em inglês, paperback. O livro está esgotado há anos no Brasil (será relançado em breve) e não era raro encontrá-lo em sebos por mais de uma centena de reais.

Mesmo com meu inglês mórólez, consigo ler alguns títulos com pouca dificuldade. Se tivesse um e-reader, eu já os teria comprado – não, ainda não me habituei a ler na tela do PC. É gente como eu que provavelmente inchará um pouco os números de leitores estrangeiros que se aventuram a ler em inglês. Não é tanta gente assim, convenhamos – ao menos, aqui no Brasil. Estaremos apenas aproveitando a agilidade do mercado literário de língua inglesa, que abraça o e-book rapidamente e disponibiliza boa parte dos títulos para a compra por gente de outros países. Não é arrogância deles, é um simples fato do mercado. Também me parece óbvio que, a medida em que os títulos forem aparecendo traduzidos para várias línguas, a maioria dos leitores preferirá lê-los assim. Já quem tiver um bom domínio do inglês e alguma pressa em adquirir uma obra, simplesmente não vai aguardar.

Muita gente também fala da ascensão do idioma chinês, ou melhor, dos livros escritos nesta língua, mas não me parece uma perspectiva muito provável para as próximas décadas. A língua chinesa escrita (e qualquer idioma, digamos, ideogramático) oferece uma dificuldade extrema de aprendizado para nós, ocidentais. A menos que a China passe a exercer uma influência cultural tão forte quanto a norte-americana e inglesa, não vejo famílias matriculando seus filhos de cinco anos em um curso de mandarim tão cedo. Claro que é um cenário perfeitamente possível, mas acredito que, muito antes disso, o chinês se tornará a língua predominante graças a multidão de falantes nativos.

A FEB e a história que poucos conhecem

terça-feira, 15 fevereiro, 2011

Ao contrário do que muito provavelmente você aprendeu na escola com seus professores, a história não é uma soma maluca de datas, movimentos e revoluções – também não é uma marcha inexorável rumo a superação do capitalismo, sinto dizer. A História (agora sim, com H maiúsculo) é feita por pessoas como eu e você, que viveram, sofreram, conquistaram, se estreparam. Parece óbvio, mas o Brasil se esquece disso com frequênca maior do que a maioria dos outros países.

Nós nos esquecemos da FEB – Força Expedicionária Brasileira – que lutou na Europa na Segunda Guerra Mundial. Quando o último dos veteranos desaparecer, não haverá notas no Jornal Nacional nem matéria na Veja. O Brasil terá perdido a chance única de demonstrar o respeito que estes senhores merecem e sempre mereceram – mas raras vezes conquistaram.

Pois bem, graças a este artigo no Contraditorium de Carlos Cardoso, HERÓIS: Currahee É Aqui, descobri a história espetacular de três soldados brasileiros que resistiram sozinhos a toda uma companhia alemã. É impossível não se emocionar com o que o oficial alemão fez após o triste e inevitável fim dos pracinhas: mandou que fossem enterrados em covas individuais e identificadas com os seus nomes. E marcou o local com uma inscrição: Drei brasianische helden, Três heróis brasileiros.

Felizmente, há dois projetos cinematográficos em andamento para contar esta e outras histórias: O média Heróis (blog oficial) e o longa A Montanha (teaser com cenas já gravadas na Itália). Vou acompanhá-los a partir de agora e posto por aqui as novidades. Mas leia o artigo do Cardoso: há mais informação lá sobre as façanhas da FEB do que em muitos livros de história por aí.

Para onde vai o português?

terça-feira, 8 fevereiro, 2011

Eu não sei. Aliás, ninguém sabe, embora alguns especialistas gostem de dar seus palpites. A internet tornou visível a quantidade absurda de formas diferentes de se falar a mesma língua. Acredito que o maldito miguxês esteja em decadência (algum anjo disse amém?) e em seu lugar vai surgindo um português mais pobre do ponto de vista ortográfico e mais complexo na interpretação de significados.

Ao ver a imagem acima, com a frase “Quero morrer” trocada por “Quero morre”, isso fica claro. Não há nenhuma estratagema gráfico que indique que o “morre” é o infinitivo do verbo “morrer”; nem mesmo um horroroso acento circunflexo no “e”, que tornaria a expressão perfeita para uma história do Chico Bento. É preciso interpretar o contexto para entender o que se quer dizer.

Considerando-se o resultado pífio do Brasil em exames como o Pisa, em que nossos alunos mostraram-se incapazes de interpretar mesmo textos simples, isso pode ser um problema. Ou talvez a simplificação seja a forma de lidar com estas limitações. O tempo dirá – ou não, como lembraria Caetano.

Eu, que já sou, de certa forma, um dinossauro, tenho e terei dificuldades em assimilar estas mundanças. Mas resistir a elas talvez seja mesmo inútil – e significa que sempre acharei algumas coisas feias. “Quero morre” é inacreditavelmente feio, mas funciona.

A Cultura dos Sebos, pelo criador da Estante Virtual

terça-feira, 23 março, 2010

Eu já elogiei a Estante Virtual aqui mais de uma vez. Criada por André Garcia quando, cansado da vida corporativa, voltou-se ao mundo acadêmico e encontrou dificuldades para encontrar alguns títulos de que precisava para concluir o mestrado. Logo percebeu uma lacuna interessantíssima no mercado. Nascia, depois de bastante trabalho, a Estante Virtual.

Nesta entrevista concedida a revista Língua Portuguesa, Garcia fala sobre o papel dos sebos, o seu alcance no Brasil e especialmente sobre como o leitura é sabotada nos tempos que vivemos, da escola ao dia-a-dia e chegando mesmo a internet. Cito o início da entrevista:

O brasileiro não gosta de ler ou não compra livros por achar muito caro?
Os dois. Há muita gente que poderia gostar e não gosta, mas há ainda mais gente disponível à leitura se o livro fosse barato. Para quem não gosta de ler, há a razão educacional: a escola ensina a não gostar, usa uma metodologia que tem êxito inverso. Temos uma base pedagógica em que ler é obrigatório e a biblioteca é vista como lugar de castigo. Mas leitura é subjetividade, é ver o que agrada à sensibilidade e se ajusta à sua forma de ser, ao seu momento. A escola nunca me deu esse espaço e duvido que, salvo exceção, garanta isso a muito aluno. Para os que driblam a escola e aprendem a gostar de ler, há um preço alto a ser encarado. Se você considerar só a lista dos dez mais vendidos, a média é de R$ 43 o exemplar. Lê esses livros quem tem mais recurso.

Muitos acham que best-seller estimula a leitura.
Tudo bem, o cara lê 800 páginas de Harry Potter. Mas esse tipo de livro leva mesmo a outra leitura que não seja a mais coisa parecida com Harry Potter? Outro dia, um membro da Câmara Brasileira do Livro disse num evento que se o brasileiro ler bula de remédio, ou revista de fofoca, já está ótimo. Na minha opinião, isso é só tecnicamente leitura. A leitura tem de estimular a imaginação e a reflexão. Qualquer leitura não é leitura.

O Brasil do futuro de olho no passado

terça-feira, 2 fevereiro, 2010

Texto imperdível do Daniel Piza, de onde cito o trecho a seguir:

Temos cronistas que morrem de medo do progresso e chegam a dizer que “não nascemos” para coisas como ciência e tecnologia. “Nosso negócio” é jogar futebol moleque, cantar canções para as morenas, fazer festa… Os mesmos que se dizem nacionalistas são os que desdenham bolsões de excelência como Embrapa, Embraer, Projeto Genoma, etc. E são os mesmos que nas aulas diziam para o professor “não levar tão a sério”, forçando a inclinação para o comodismo e a palpitagem, para a discussão de vaidades e futilidades em vez de ideias. Para essa gente, ler é chato, matemática é chato, arte é feita apenas de espontaneidade. E esperto é quem sonega, quem se dá bem sem precisar gastar os olhos em cima dos livros.

O Brasil é um escândalo (no mau, no pior sentido).

Era uma casa muito engraçada

sexta-feira, 11 setembro, 2009

No ensaio Do enigma ao mistério, publicado no primeiro número da revista Dicta & Contradicta e editado por Guilherme Malzoni Rabello, o poeta Bruno Tolentino conta que, durante sua infância, via a casa frequentada por gente como Manuel Bandeira, Otto Maria Carpeaux e Gilberto Freire. Não tive tantos nomes ilustres povoando meus primeiros anos, mas sofri uma influência tão decisiva quanto inestimável: nasci numa casa de leitores. Minha mãe lia desde menina, ainda muito pobre, qualquer coisa que lhe caísse nas mãos; como boa parte de sua geração, conheceu o mundo descrito nas páginas de romances água-com-açúcar para mais tarde procurar por outros autores. Meu pai lia poucos romances, mas lembro-me de que era obcecado pela Conde de Montecristo de Dumas. Sua rotina de leitura era constituída especialmente por jornais – que, com as finanças sempre apertadas, comprávamos com maior frequência aos domingos – e algumas revistas, adquiridas quando o assunto de capa lhe interessava. Aliás, ele passou longos anos sem ler coisa alguma depois que seus irmãos o apelidaram de “velho” por gostar de jornais – mas isso foi bem antes de eu aparecer.

Em notícia divulgada hoje, a Câmara Brasileira do Livro dá novos números ao que todos já sabemos: o brasileiro lê pouco, muito pouco. Mas, finalmente, alguém chega a outra conclusão, tão óbvia quanto oculta:

“É preciso difundir nas crianças não o hábito da leitura, mas sim o gosto pela leitura”, defende João Carneiro, presidente da Câmara Riograndense do Livro, que põe por terra outro mito: o de que a professora é quem desperta a criança para a leitura. “Está comprovado, por diversos estudos, que é a mãe quem primeiro incentiva a leitura. É a cultura de ler, contar histórias para o filho, antes mesmo de ele ser alfabetizado. Isto é marcante no gosto futuro pela leitura”.

Infelizmente, os professores (por que “a professora”?) acabam sendo vítimas do nosso modelo de ensino incapaz de salvar leitores. Se é verdade que a família é a primeira referência nesta atividade, também é um fato inegável que doze, treze anos sentado num banco escolar desmembrando orações e suportando a ideia de leitura obrigatória são mais do que suficientes para minar a disposição da maioria dos futuros homens e mulheres de livros.

Mais uma vez: Chega de gramática!

Chega de gramática!

terça-feira, 8 setembro, 2009

A todo momento, alguém diz duas coisas que parecem óbvias e verdadeiras, mas que não são nem uma coisa nem outra: que a infância de antigamente era melhor e que as crianças de hoje são mais inteligentes que seus pais foram. Talvez sejam mesmo, mas basta pedir para um adolescente argumentar, defender um desejo ou ponto de vista (não precisa ser grande coisa em termos de argumentação; digamos, ir a casa noturna mais nova da cidade no sábado da reunião de família na casa da avó) para percebermos que está faltando alguma coisa. A inteligência pode até estar lá, mas ela não domina as ferramentas que a fazem prosperar – especialmente a capacidade de raciocínio lógico, de construir argumentações, ouvir, aceitar e rebater alegações. É muito duro dizer isso, especialmente para um nerd que admite que até gostava da escola, ou de algumas das disciplinas, mas não dá mais para negar: a escola brasileira emburrece, ou, na melhor das hipóteses, embota a inteligência.

Entre outras coisas sobre as quais eu gostaria de pensar melhor antes de afirmar, não tenho receio de apontar o modo como a língua portuguesa é tratada e ensinada como um monstruoso equívoco, a gênese do desempenho vergonhoso do Brasil em exames como o Pisa – no qual somos eternos lanterninhas.

Não ensinamos a ler ou a interpretar textos. Estamos mais preocupados em estripar, desmembrar as orações e palavras do que em usar a língua e sua beleza para aprimorar e afiar a mente dos alunos. Passamos mais de dez anos estudando gramática e análise sintática para que possamos escrever mal e ler pior ainda -geração após geração, vamos nos tornamos uma nação inteira de analfabetos funcionais. Toda a magnífica experiência da leitura é transformada num exercício burocrático e sem sentido digno dos Vogons do Guia do Mochileiro das Galáxias. A nossa obsessão pela gramática e pela análise sintática destrói completamente o que há de mais valioso na leitura: a descoberta do significado, o reconhecimento de uma visão de mundo única, pessoal, deste ou daquele escritor. Alie-se a esta maluquice a xenofobia literária que torna os alunos reféns da literatura brasileira quando poderiam descobrir Tolstoi, Shakespeare e Dostoievisk ao lado de Machado, Graciliano e Rosa. Além da chatíssima mania de estudar os movimentos literários (simbolismo, barroco, parnasianismo, naturalismo, lembra-se disso?) e não os autores e suas obras.

Não há paixão à leitura que resista a este bombardeio de burocracia.

No ótimo livro Para Ler Como Um Escritor, a autora Francine Prose relata o horror de perceber que a maioria dos alunos e professores de letras não gostava de literatura. Quando muito, estavam preocupados com macroestruturas e análises psicológicas e marxistas das obras – muitas vezes, sequer haviam lido os livros que defendiam ou rechaçavam. São estes professores que ensinarão nossos filhos e mais tarde reclamarão da incapacidade deles em interpretar um texto simples – mas como entender um texto se eles só sabem separar e não juntar?

É como ensinar um futuro médico a autopsiar um cadáver e fazê-lo decorar a função e características de cada órgão, tendão, osso e nervo do corpo e jamais permitir que ele aprecie as maravilhas cinéticas do movimento: a leveza de uma bailarina ou a explosão de força de um atleta. Como respeitar e admirar a beleza do paciente deitado na mesa de cirurgia se tudo o que o futuro médico sabe dele é nomear as propriedades de seus pedaços, das horríveis partes dispostas separadamente?

Já passou da hora de admitir que estamos fazendo algo profundamente errado com nossas crianças e perceber que precisamos mudar o rumo com urgência, porque talvez já seja tarde demais. O Brasil precisa de mais leitores e menos gramáticos. Recomendo duas leituras que me inspiraram e me fizeram pensar no assunto: Pelo ensino do prazer de ler, no Livros e Afins do Alessandro Martins e Parem de ensinar gramática, no O Indivíduo do Pedro Sette Câmara.

A propósito: Eu não vivo sem o Caldas Aulete digital e o Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa do Cegalla aqui ao meu lado.

Velha nova polêmica

sexta-feira, 14 agosto, 2009

É, aconteceu de novo. Um tirinha do Chico Bento, personagem de Maurício de Souza, causou polêmica ao ser incluída numa cartilha distribuída pela Secretaria da Educação da Bahia. Na tirinha, após ouvir um filho de “coroné” se gabar das cabeças de gado de seu pai, Chico manda o moleque meter o rebanho inteirinho numa área anatômica que raramente vê a luz do dia. Sejamos sinceros: as chances de Maurício de Souza publicar uma tira destas devem ser as mesmas de o Sr. Spock se materializar agora, na sua frente, vestido de Carmen Miranda e cantando A Balada de Bilbo Baggins em russo. Então, de onde veio a tirinha que causou a celeuma toda?
Da internet, claro.
É muito comum encontrar versões pornográficas de personagens famosos ou tiras com as falas trocadas, geralmente transbordando de palavrões. É humor adolescente e de mau gosto, ao estilo do (hilário e cretino) Batman-Feira da Fruta. Acreditamos que um profissional de educação, destes que selecionam o material que o seu filho vai estudar, tem a capacidade de discernir entre o material não-oficial e o legítimo. Mais: temos a certeza absoluta de que ele lê o que recomenda e que sabe muito bem que o fato de o conteúdo se apresentar na forma de quadrinhos não significa que seja adequado a crianças, certo? Estou excluindo a possibilidade de sabotagem ou brincadeira de mau gosto porque o histórico está contra as escolhas. Se a tirinha realmente foi selecionada por alguém cuja responsabilidade inclui aquilo que as crianças estudarão nas escolas, então jamais deveria trabalhar com isso.
Na verdade, estes casos são tão inacreditavelmente bizarros que só me permitem uma conclusão, nada nova: somos um país de analfabetos funcionais e de preguiçosos crônicos. E pior: alguns destes analfabetos e preguiçosos (muitas vezes as duas coisas numa única pessoa) estão ligados aos órgãos educacionais, lugares onde o senso comum diz que este tipo de profissional seria naturalmente excluído e barrado.