Archive for the ‘Literatura’ Category

Woolf, de novo, e ficção científica

quinta-feira, 28 fevereiro, 2013

A maioria dos escritores ditos “sérios” faz cara de nojinho quando termos como ficção científica, fantasia e até o mais aceito realismo mágico acaba caindo no seu colo, mas poucos sabem que vários de seus pares e ídolos ou eram leitores do gênero ou arriscaram-se a escrever algumas obras, ainda que atrás de pseudônimos. Brincando com esta esta ideia, o artigo Virginia Woolf’s secret career as a science fiction writer who inspired Attack of the 50 Foot Woman, publicado no site especializado io9, descreve a segunda carreira fictícia da autora de Orlando, tomando emprestada a existência de um autor real, ou melhor, um pseudônimo real, EV Odle. Nesta mesma matéria, ficamos sabendo que Virginia Woolf era admiradora de um influente escritor de FC, Olaf Stapleton, e chegou a escrever uma carta para ele, como fã. A matéria toda é muito interessante e pode ser lida aqui: The Science Fiction Writer Who Received Fan Mail From Virginia Woolf. Nota: Aparentemente, a carta não apareceu entre as que ela teria escrito, mas apenas no acervo de Stapleton, recuperado pelo também escritor de FC Kim Stanley Robinson.

Mas, sejamos justos. Ao contrário do que o artigo afirma, o estilo de Woolf não mudou completamente após a leitura de Stapleton. Como muito bem aponta o comentário do usuário Pope John Peeps II (tradução canhestra minha):

Woolf estava constantemente evoluindo, deliberadamente experimentando tanto com a escrita quanto com a linguagem  ao longo de toda a sua carreira, e era sempre influenciada pelo ambiente literário ao seu redor. Dizer que um livro mudou totalmente sua forma de escrever é dizer que, antes deste livro, ela estava estática e, logo após, foi alguma forma “libertada”.

Não vou entrar na rivalidade artificial e tola entre os leitores e escritores “realistas”/mainstreams e os que não ligam para gêneros específicos; basta lembrar  que Guimarães Rosa escreveu contos decididamente pulp e Salman Rushdie foi orientado por seus editores a não participar de premiações de FC (seu primeiro romance, Grimus, é uma ficção científica) por receio de que ele fosse “rotulado” pelo mercado, para ver que os limites são, muitas vezes, bem tênues.

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De Virginia Woolf a Patti Smith e Sebald

De Virgina Woolf a Patti Smith e Sebald

quarta-feira, 20 fevereiro, 2013

Não ouvi muita coisa (além do básico) da cantora, compositora e roqueira Patti Smith ainda, apesar do interesse pela sua biografia, Só Garotos. Mas a citação ao seu trabalho no blog da editora L & PM chamou a minha atenção.

A admiração de Patti Smith pela autora de Mrs. Dalloway não é de hoje: o álbum “Wave”, de 1979, foi batizado assim em homenagem à Virginia. Além disso, a exposição “Patti Smith: Camera Solo”, realizada em 2011, exibia fotos feitas por Patti na casa onde Virginia se refugiava durante suas crises de depressão, em Sussex. Uma das fotos mostra o Rio Ouse, onde a escritora se suicidou em 26 de março de 1941:

rioouse_pattismith

Esta foto pede para ser a capa de um livro – que esteja à altura de Virgina Woolf, claro. De alguma forma, talvez por culpa do preto e branco, Patti Smith produziu uma imagem ao mesmo tempo poderosa e melancólica. Talvez mesmo se não soubéssemos do que aconteceu neste rio, ela ainda seria assim. Lembram-me as fotos igualmente melancólicas de W. G. Sebald, autor que as combinava (às vezes, de formas misteriosas) com textos que escapam às tentativas de classificação (memórias? guias de viagem? romances?).

Não me pergunte porque fiz estas conexões, apenas tive o desejo de registrá-las aqui.

Sobre a identificação com personagens

sexta-feira, 18 maio, 2012

Se existe uma reclamação que nunca consegui entender muito bem, é quando alguém diz que não conseguiu ler um romance porque não se identificou com o protagonista. Afinal de contas, o que é esta tal identificação? É reconhecer no personagem alguma característica familiar? Perceber que uma determinada situação ficcional se parece com outra, real, vivida e/ou testemunhada? Desconfio que, no fundo, quando falamos em identificação com um personagem, estamos apenas reconhecendo nele uma série de qualidades que não possuímos, ou melhor, que gostaríamos de possuir – o nosso duplo. De todo modo, e falando francamente, identificar-se ou não com ele simplesmente não tem relação alguma com a qualidade do livro. Mas, talvez, tenha a ver com o que alguns leitores entendem por qualidade da leitura.

Na verdade, a identificação com personagens é crucial nas primeiras leituras, na infância, pois estabelecem uma ligação rápida e geralmente prazeirosa com o livro. Aparentemente, muitos mantêm este padrão pelo resto da vida; de fato, por experiência própria, percebo que uma boa parte das pessoas que conheço e que leem regularmente prefere obras em que consigam entender ao menos algumas as motivações dos protagonistas, por serem, em certo nível, parecidas com as delas. E isso não as faz mais ou menos inteligentes ou interessantes. Por outro lado, não há como negar que ler uma obra em que tudo, ou boa parte, é diferente do mundo que se conhece e onde nos movemos todos os dias, exige um esforço mental que pode ser exaustivo – por exemplo, o cenário apocalíptico e desesperançado de A Estrada, de Cormac McCarthy, ou a tensão entre o ocidente e o oriente, a Turquia tradicional e a moderna que servem de pano de fundo para os delicados romances de Orhan Pamuk, como Neve. Mas também há uma recompensa intelectual que não deve ser desprezada quando atravessamos as páginas inicialmente difíceis – a primeira centena de páginas de O Nome da Rosa, de Umberto Eco, veio a memória – e, quando menos percebemos, já estamos envolvidos pela história, pela prosa, personagens ou por tudo isso junto.

Para mim, a identificação é algo pouco importante. Já li livros excepcionais em que me identifiquei com algum dos personagens e outros nos quais nada, absolutamente nada, lembraria minha existência ou pessoas que conheço. A imersão provocada pelo conjunto mencionado (trama, história, prosa, construção de personagens…), isso sim, é algo que chama a minha atenção.

Além disso, um livro protagonizado pelo Marcelo Lopes que escreve aqui seria bem chato.

Quer comprar uma estante para livros?

segunda-feira, 9 janeiro, 2012

Lendo o artigo de Claudio de Moura Castro na Veja, Onde comprar estantes de livros?, lembrei-me da minha própria peregrinação. Ao me mudar, trouxe um grande e sólido móvel que me serve de estante e escrivaninha, além de acomodar o computador, impressora, modem, DVDs e uma réplica do DeLorean de De Volta Para O Futuro que foi presente do meu irmão. Mas, quando a quantidade de livros acabou superando as dimensões deste móvel, saí a procura de uma estante para eles, acreditando piamente que seria algo trivial, fácil de se encontrar.

Após andar em todas as lojas e sites mais conhecidos e, claro, depois de descartar as opções muito feias e as ridiculamente caras, fui encontrar duas pequenas “bibliotecas” (assim eram descritas nas etiquetas) em uma loja perto de casa. O preço era justo e a qualidade, boa. Tenho as duas aqui ainda e já estão chegando aos seus limites. Logo terei de tomar a decisão que a maioria dos proprietários de livros acabam sendo obrigados a tomar: improvisar ou mandar fazer suas estantes sob medida. Mas o que Claudio de Moura Castro não deixou escapar em seu artigo é tão óbvio quanto aterrorizante: Não existe mercado para estantes de livros no Brasil porque quase ninguém lê.

Aliás, lembro-me bem de não encontrar, na maior parte das casas de amigos e conhecidos, livros. Não falo de uma estante ou uma biblioteca, mas apenas alguns livros, empilhados em algum canto, ou enfileirados ao lado da televisão. De preferência, livros nitidamente manuseados, as folhas marcadas, e não estas edições monstruosas de arte, compradas apenas para combinar com o quadro ou os jarros, e que foram vistas na capa de alguma revista de decoração.

No final do artigo, o autor sugere a criação de um índice semelhante ao Índice BigMac , para medir a educação e hábitos de leitura de um país a partir da quantidade de estantes para livros disponíveis em sites das lojas de móveis locais. Nem é preciso dizer onde estaríamos na lista resultante deste suposto índice.

É assim que os livros funcionam…

segunda-feira, 6 junho, 2011

Não encontrei os créditos da ilustração. Se alguém souber, por favor me avise nos comentários.

O romance, assim como o rock, vive cercado por coveiros afoitos

segunda-feira, 9 maio, 2011

“Não acho que uma época que tem J. M. Coetzee, Javier Marías, Philip Roth e Lobo Antunes permita que se diga que o romance está morto.”

Michel Laub, em entrevista ao Rascunho.

Sobre literatura, amizade, decência e generosidade

segunda-feira, 2 maio, 2011

Antes de mais nada, confesso: li quase nada escrito por David Foster Wallace (na verdade, acho que no Brasil só saiu mesmo o Breves Entrevistas Com Homens Hediondos). E de Jonathan Franzen, estou com As Correções na lista de leitura. Enfim, nada posso realmente dizer sobre a obra de um ou outro – geralmente muito elogiados, em especial Foster. Para quem não sabe, Foster escreveu em 1997 Infinite Jest, obra que muita gente considera o grande romance norte-americano contemporâneo. Ele cometeu suicídio em 2008 e desde então, sua popularidade tem crescido – bom, ao menos entre os leitores do que chamaremos, à falta de expressão melhor, de “literatura séria”. E Franzen era seu amigo. Recentemente, Franzen escreveu um artigo na New Yorker, misto de ensaio com memórias, citando Foster. Deveria ser uma homenagem, mas segundo este imperdível artigo no Aguarrás, A morte do autor (neste caso, David Foster Wallace) e a suprema falta de elegância (para não chamar de grosseria cósmica) de Jonathan Franzen: uma reflexão sobre arte, literatura, amizade e decoro, de Manuel Carreiro, não passou de uma grosseria.

Franzen revela detalhes e faz julgamentos constrangedores de Foster, de forma, digamos, impune, uma vez que o amigo não está mais vivo para se defender. Por exemplo, o chama de narcisista e culmina com:

Franzen diz que Wallace estava doente sim, e que a história da sua amizade com Wallace é simplesmente esta: “ele amava um sujeito que era um doente mental.” (Página 90 da revista). E continua: “o deprimido se matou, de modo a inflingir o máximo de dor naqueles que mais amava, e nós que o amávamos ficamos com raiva, nos sentindo traídos. Traídos não somente pela falha do amor que investimos, mas pelo fato de que o suicídio tirou aquela pessoa de nós e o tornou uma lenda junto ao público”.

Há dois pontos que acho interessante destacar no artigo de Manuel Carreiro. Em primeiro lugar, a grosseria e falta de decoro de Franzen para com um amigo. Não consigo resumir esta ideia melhor do que a citação do seguinte parágrafo:

Conheço pessoas que pensam (seriamente) que o mundo de hoje não comporta dignidade moral, honradez, acatamento, respeito a si e aos outros. Ah: estes são sinônimos de decoro. Já me foi dito que estes são valores antiquados, que o mundo de hoje é dinâmico, rápido, interativo: não precisamos fazer cerimônia para nos apresentarmos um ao outro, para tratarmos um ao outro. Até tento compreender esta mudança de paradigma comportamental, mas nunca consigo. E vejo que a morte do decoro resultou numa quebra de hierarquia (que poderia ser celebrada, não fosse a maneira tosca como foi feita), resultou num destrato ainda maior para com o próximo, num exacerbado narcisismo onde nos exibimos, nos escancaramos (postamos pensamentos e fotos íntimas) para todos os amigos e ainda para qualquer conhecido que vimos uma vez na vida e incorporamos no nosso show particular na rede.

Assino embaixo.

O outro ponto, também abordado por Carreiro, diz respeito a natureza do amor e da amizade. Sim, a frase é vulgar, mas o raciocínio, sincero. Franzen diz ter investido na amizade com Foster e foi privado, com o suicídio, do retorno deste investimento. Que diabos é isso? Ele imagina a amizade como um tipo de caderneta de poupança, investimento seguro e certo? Sinto dizer, mas é uma bolsa de valores, volátil e incerta. Se não é capaz desta generosidade, de oferecer sua amizade sem visar imediatamente algo em troca, então Franzen não foi amigo de Foster – foi algo menor, ainda que talvez acreditasse, e acredite até hoje, ter sido seu amigo.

Então, volto a noção de que escrever, contar uma história é um ato de generosidade. E requer o despreendimento absurdo de não esperar algo em troca. Se você pretende escrever para receber elogios, está no negócio errado, aliás, muito errado. O Paulo Polzonoff escreveu um post muito bom sobre o assunto: Generosidade.

E-Books: O inglês dominará?

segunda-feira, 18 abril, 2011

No post O mundo vai ler mais livros em inglês? no blog Painel das Letras, Josélia Aguiar fala da possibilidade de expansão no número de leitores que comprarão e-books em inglês. Claro, há muita coisa a ser considerada – se tivéssemos uma ideia clara das vendas de e-books por idiomas e países, poderíamos apontar uma tendência em curso, mas parece-me não ser este o caso. Muita gente já afirma que esta afirmação é mais uma típica amostra da arrogância anglo-americana.

Mas é bem provável que Mike Shatzin, entrevistado por Aguiar, esteja correto. Não é uma questão de arrogância, mas de mercado e de características próprias do e-book. Ao menos teoricamente, pela primeira vez, um público que pode ler em inglês e não tinha paciência para esperar a vinda de um livro do exterior, pode comprá-lo em um segundo e ter o título disponível em seu e-reader (ou tablet, PC, celular, etc…) no instante seguinte. Recentemente, eu quase comprei uma edição norte-americana de O Museu da Inocência, (já falei dele antes) de Orhan Pamuk, em paperback, além do Never Let Me Go/Não me Abandone Jamais, de Kazuo Ishiguro, autor de Os Vestígios do Dia, e que já está meio difícil de encontrar em português. Alguns meses antes e na mesma livraria, adquiri American Gods/Deuses Americanos, de Neil Gaiman, por um preço ridículo – edição em inglês, paperback. O livro está esgotado há anos no Brasil (será relançado em breve) e não era raro encontrá-lo em sebos por mais de uma centena de reais.

Mesmo com meu inglês mórólez, consigo ler alguns títulos com pouca dificuldade. Se tivesse um e-reader, eu já os teria comprado – não, ainda não me habituei a ler na tela do PC. É gente como eu que provavelmente inchará um pouco os números de leitores estrangeiros que se aventuram a ler em inglês. Não é tanta gente assim, convenhamos – ao menos, aqui no Brasil. Estaremos apenas aproveitando a agilidade do mercado literário de língua inglesa, que abraça o e-book rapidamente e disponibiliza boa parte dos títulos para a compra por gente de outros países. Não é arrogância deles, é um simples fato do mercado. Também me parece óbvio que, a medida em que os títulos forem aparecendo traduzidos para várias línguas, a maioria dos leitores preferirá lê-los assim. Já quem tiver um bom domínio do inglês e alguma pressa em adquirir uma obra, simplesmente não vai aguardar.

Muita gente também fala da ascensão do idioma chinês, ou melhor, dos livros escritos nesta língua, mas não me parece uma perspectiva muito provável para as próximas décadas. A língua chinesa escrita (e qualquer idioma, digamos, ideogramático) oferece uma dificuldade extrema de aprendizado para nós, ocidentais. A menos que a China passe a exercer uma influência cultural tão forte quanto a norte-americana e inglesa, não vejo famílias matriculando seus filhos de cinco anos em um curso de mandarim tão cedo. Claro que é um cenário perfeitamente possível, mas acredito que, muito antes disso, o chinês se tornará a língua predominante graças a multidão de falantes nativos.

Uma nova forma de arte?

sexta-feira, 1 abril, 2011

Continuando a discussão sobre os jogos, mas indo para outras searas, deixo os links de dois posts interessantes do escritor Bráulio Tavares:

Uma nova forma de arte

Literatura e joguinhos

Sim, os jogos podem ser uma nova forma de arte. Como Tavares assinala muito bem :

São duas culturas diferentes, porque os games (assim como o cinema) não surgiram num contexto “artístico” e sim no contexto de uma nova tecnologia de produção de imagens que rapidamente se converteu numa diversão popular e numa indústria lucrativa. A Arte talvez seja o próximo passo para os games, como foi para o cinema, cem anos atrás.

Vale a pena ler também na Saraiva Conteúdo, um artigo em que autores brasileiros relatam sua experiência com os jogos e a influência em sua literatura:

Literatura e Games: Parceria cada vez maior

O caso Céline

domingo, 20 fevereiro, 2011

Há uma celeuma em andamento no mundo literário. Tudo culpa de Céline e do governo francês. Para quem caiu de para-quedas aqui, Louis-Ferdinand Céline (1894-1961) é considerado um dos melhores e mais influentes autores do século XX, tendo escrito Viagem ao Fim da Noite e Morte a Crédito. Infelizmente, também era um antissemita que escreveu uma série de odiosos panfletos entre os anos de 1937 e 1941. Só escapou à morte no pós-guerra por ter se bandeado para a Holanda, que se recusou a extraditá-lo.

Você tem de ser profundamente ingênuo para acreditar na superioridade moral dos escritores e artistas. É o tipo de pensamento tolo típico dos manuais de auto-ajuda e de quem nada sabe sobre o mundo das letras e das artes. Escritores são pessoas comuns, com preconceitos, taras, manias, horrores e unha encravada. Quando eu digo que a genialidade é uma qualidade pura, quero dizer que, até certo ponto, ela se encontra isolada das demais características de um indivíduo. É perfeitamente possível ser um canalha, um renomado mau caráter e, ao mesmo tempo, um gênio. Esta constatação, tão simples para nós, que gostamos de livros, é uma equação bem indigesta para governos.

A França, por exemplo, acada de excluir o sr. Destouches (seu sobrenome verdadeiro) das comemorações culturais deste ano. É duro dizer isso, mas talvez tenha feito a coisa certa, ao menos do seu ponto de vista. Governos não trabalham com a realidade, mas com a sua percepção. E, a partir da ideia que a maioria absoluta das pessoas têm dos escritores como seres acima da média, homenagear um escritor espetacular que se alinhou às ideias e ações mais sombrias do nazismo é um péssimo negócio. Além disso, persiste, entre os governos, a ideia de que a literatura é um tipo de patrimônio cultural que serve para alimentar o monstro do nacionalismo. Na verdade, junto à ideia maluca da moralidade angelical dos autores, o povo acredita realmente que possui direitos sobre a obra de um escritor de seu país, assim como acredita que as conquistas de uma seleção de jogadores de futebol que atua há anos fora das fronteiras nacionais de alguma forma também lhe pertencem. O caso francês, claro, é um tanto mais delicado pela vergonha que o colaboracionismo de Vichy ainda evoca, mas a verdade é que povo algum gostaria de ter, entre seus herois culturais, um escritor que se empolgava mais com a solução final de Hitler do que muitos dos acólitos mais dedicados do carniceiro megalômano de Berlim.

Admitir que existe um abismo entre a genialidade e a infâmia e que este abismo pode habitar a alma de um mesmo sujeito é pedir demais para o grande público. Ao menos, por agora. Talvez em um futuro próximo, tenhamos a maturidade para distinguir estas esferas: admirar a obra de Céline e repudiar suas opiniões. Por enquanto, Destouches vai continuar companheiro dos leitores e estudiosos, distante do chamado “patrimônio cultural” de seu país. Talvez seja melhor assim; ao menos, não teremos estátuas vulgares em sua homenagem, como é de praxe que os estados façam com seus escritores.

O Estadão publicou um artigo do peruano Vargas Llosa, A Literatura não é edificante, cuja leitura é imperdível. Ele aponta as contradições e problemas envolvidos no caso Céline. Cito a seguir alguns parágrafos que me pareceram os mais interessantes:

Considerando que a genialidade artística não é um atenuante contra o racismo – eu a consideraria antes um agravante -, a meu juízo, a decisão do governo francês envia à opinião pública uma mensagem perigosamente equivocada sobre a literatura e cria um péssimo precedente. Sua decisão parece supor que, para ser reconhecido como um bom escritor, é preciso escrever também obras boas e, em última instância, ser um bom cidadão e uma boa pessoa. A verdade é que se o critério fosse esse, apenas um punhado de polígrafos se qualificaria.

Entre eles há alguns que correspondem a esse padrão benigno, mas a imensa maioria padece das mesmas misérias, taras e barbaridades que o comum dos seres humanos. Somente na rubrica do antissemitismo – o preconceito racial ou religioso contra os judeus – a lista é tão extensa que seria preciso excluir do reconhecimento público uma multidão de grandes poetas, dramaturgos e narradores, entre os quais figuram Shakespeare, Quevedo, Balzac, Pio Baroja, T.S. Eliot, Claudel, Ezra Pound, E.M. Cioran, e muitíssimos mais.

O fato de que essas e outras eminências fossem racistas não legitima o racismo, em primeiro lugar, e é antes uma prova contundente de que o talento literário pode coexistir com a cegueira, a imbecilidade e os extravios políticos, cívicos e morais, como o afirmou, de maneira impecável, Albert Camus.