Archive for the ‘Música’ Category

Os últimos sobreviventes do nascimento do blues no Mississipi

quarta-feira, 28 janeiro, 2015

Volto aos poucos, e espero que definitivamente.

Com alguns textos aguardando revisão, deixo apenas este link, do Huffington Post: These Are The Last Remaining Old School Mississippi Blues Musicians

De onde vem o trecho de Beefsteak , cravado na lápide do bluesman James “Son” Thomas:

Give me beefsteak when I’m hungry,
Whiskey when I’m dry,
Pretty women when I’m living,
Heaven when I die

Aqui um resumo de sua vida (que inclui o trabalho colhendo algodão, uma namorada que tentou matá-lo e um breve encontro com Nancy Reagan) e a música no Youtube.

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De Virgina Woolf a Patti Smith e Sebald

quarta-feira, 20 fevereiro, 2013

Não ouvi muita coisa (além do básico) da cantora, compositora e roqueira Patti Smith ainda, apesar do interesse pela sua biografia, Só Garotos. Mas a citação ao seu trabalho no blog da editora L & PM chamou a minha atenção.

A admiração de Patti Smith pela autora de Mrs. Dalloway não é de hoje: o álbum “Wave”, de 1979, foi batizado assim em homenagem à Virginia. Além disso, a exposição “Patti Smith: Camera Solo”, realizada em 2011, exibia fotos feitas por Patti na casa onde Virginia se refugiava durante suas crises de depressão, em Sussex. Uma das fotos mostra o Rio Ouse, onde a escritora se suicidou em 26 de março de 1941:

rioouse_pattismith

Esta foto pede para ser a capa de um livro – que esteja à altura de Virgina Woolf, claro. De alguma forma, talvez por culpa do preto e branco, Patti Smith produziu uma imagem ao mesmo tempo poderosa e melancólica. Talvez mesmo se não soubéssemos do que aconteceu neste rio, ela ainda seria assim. Lembram-me as fotos igualmente melancólicas de W. G. Sebald, autor que as combinava (às vezes, de formas misteriosas) com textos que escapam às tentativas de classificação (memórias? guias de viagem? romances?).

Não me pergunte porque fiz estas conexões, apenas tive o desejo de registrá-las aqui.

A Conquista do Mundo Começou

terça-feira, 3 janeiro, 2012

Quando, em meados dos agora longíquos anos 80, as rádios tocavam, em sua maioria, sucessos vindos dos EUA e Inglaterra, havia quem se escandalizasse. Segundo estes críticos, ouvíamos apenas lixo importado, pop sem qualidade em uma língua que não entedíamos. Eu tinha vontade de dizer: “Tolos! Tenho certeza de que um dia a programação das rádios tupiniquins estará recheada de lixo nacional legítimo e puro. E digo mais: o Brasil exportará o que de pior produz para o resto do mundo”(seguido por uma risada malévola de vilão de séries antigas). Pois bem, conseguimos. Não vou entrar em detalhes para não atrair trolls e outras estranhas criaturas que habitam os becos escuros da internet. Mas temos de ter orgulho: Agora fornecemos ao mundo músicas tão horríveis quanto aquelas a que somos expostos.

Adeus, Amy

sábado, 23 julho, 2011

Haverá sempre, na imprensa especializada e seus fãs (entre os quais me incluo desde que ouvi Back to Black pela primeira vez, há cinco anos), quem associe o monumental talento de Amy Winehouse a sua vida amalucada e ao consumo constante e crescente de álcool e drogas. É uma bobagem descomunal. A grande ironia está no fato de que a genialidade artística resiste ao modo estúpido com que gente como Amy trata o próprio corpo e a mente. O talento ultrapassa os limites impostos pela existência comezinha, pelo dia-a-dia, é quase uma doença, uma necessidade que apenas os portadores dela sabem como funciona. Não; esta constatação óbvia não redime os gênios de suas opiniões absurdas, de suas ações detestáveis ou da tendência a autodestruição que contagia alguns deles. Apenas os tornam adorável e terrivelmente humanos.

Por isso mesmo a morte de Amy Winehouse é tão dolorosa. Não a perdemos para as drogas, como alguns gostam de dizer, de modo um tanto simplista; a perdemos para a estupidez mesmo. E a estupidez autodestrutiva é sempre, sempre, muito triste.

Resistir não é inútil

segunda-feira, 19 julho, 2010

Quando era menino e ainda assistia a Sessão da Tarde, era relativamente comum alguma comédia mostrando um soldado japonês que, décadas após o fim da Segunda Guerra Mundial, continuava guardando uma ilhota em algum ponto igualmente remoto do pacífico. Não era comédia: estas histórias inspiravam-se em casos reais e ao menos um deles tem ligação com o Brasil. Hiroo Onoda permaneceu na ilha Lubang, nas Filipinas, até 1974, quando seu antigo comandante e amigo finalmente o liberou de sua missão. Onoda mudou-se para o Brasil, onde tornou-se fazendeiro e vive até hoje.

A comparação que farei é tosca e injusta, mas às vezes me sinto como o tenente Onoda, entrincheirado num beco solitário – ao menos no ramo da música e gosto pessoal. Lembro-me do início dos anos 90, em plena malfadada era Collor, quando a música breganeja explodiu de vez no país. Eu não consigo devincular uma coisa da outra e nunca consegui gostar de nenhum, nem unzinho, daqueles artistas. Mais tarde vieram a axé music e o funk carioca para tomar o posto de sensação temporária. Infelizmente, e ao contrário do rock brasileiro, que parece cada vez mais fadado a diminuir sua influência, estes gêneros não desapareceram; na verdade, tornaram-se onipresentes, parte da paisagem musical tupiniquim permanente.

As duplas breganejas vicejam e todo ano surge algum novo nome. Bom para quem gosta, claro, e para os artistas também. Já disse que os respeito, mas não gosto de suas músicas. Conheço alguns amigos que capitularam e hoje cantam estas canções alegremente, mas não faço parte desta turma. Contento-me em me esforçar um pouco para não parecer chato. É claro que nem sempre consigo.

De qualquer forma, ainda há esperanças: meu antigo vizinho de apartamento colocava Queen para o filho de três anos ouvir. O menino adorava.

Apenas Uma Vez

terça-feira, 23 junho, 2009

Tenho uma certa inveja dos músicos; tudo por culpa das jam sessions, ou qualquer encontro parecido. A quem vive fora do universo musical, como eu, parece improvável que duas ou mais pessoas que jamais se viram possam se juntar em um palco ou estúdio e, a partir de um início relativamente tímido, ir ganhando confiança exclusivamente por meio da música até interpretar ou mesmo criar uma composição. Esta capacidade que a música tem de irmanar seus amantes devotos (os diletantes ficam assistindo) é explorada admiravelmente na mais bela sequência do igualmente belo filme Apenas Uma Vez, que assisti ontem depois de mais de um ano de atraso.

Produção independente irlandesa de 2008, vencedora do Oscar de melhor música por Falling Slowly, Apenas Uma Vez é um filme simples, delicado e (pasmem!) musical. Mas não é um musical ao estilo da, digamos, antiga Hollywood (uma forma cujos últimos exemplares talvez tenham sido Chicago, Moulin Rouge e Todos Dizem Eu Te Amo). Aqui as canções surgem naturalmente porque os personagens principais, Ele e Ela, são músicos. Na sequência que citei, ambos vão a loja em que Ela toca um piano emprestado. Ele sugere que tentem cantar uma de suas composições (Falling Slowly, naturalmente). No início, eles tentam se entender, olham constantemente um para o outro, experimentam com algum receio as cordas e as teclas. No final, criam no mesmo ritmo, reconhecem-se na experiência criadora, que se torna uma metáfora simples e exata da experiência amorosa – que, no caso dos personagens de Apenas Uma Vez, já os machucara profundamente.

Aliás, vale dizer que a trilha sonora do filme é marcada por letras simples, mas não simplórias. Atingir a simplicidade é algo dificílimo para um compositor. A estrofe exata, a precisão na descrição de sentimentos, a elegância, a transmissão de um estado interior imediatamente reconhecido por quem ouve a música – no filme, uma combinação de perda, solidão, tristeza e superficialmente paradoxais esperança e redenção.

Aproveitarei para ressuscitar o Todos os Filmes com minha opinião sobre Apenas Uma Vez – por isso mesmo não falarei mais sobre ele aqui. Mas desde já recomendo sem restrições.

ATUALIZAÇÃO: Resenha publicada no Todos os Filmes.

Mad World

sexta-feira, 5 junho, 2009

Graças ao filme Donnie Darko, de onde vem o nome e a imagem do banner deste blog, conheci a belíssima versão que Gary Jules fez para a música do Tears for Fears, Mad World. O clipe a seguir foi dirigido por Michael Gondry, o mesmo dos filmes Rebobine, Por Favor e Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças.

Nota: Quem recebe este post por email pode ver o clipe clicando aqui.

All around me are familiar faces
Worn out places
Worn out faces
Bright and early for the daily races
Going no where
Going no where
Their tears are filling up their glasses
No expression
No expression
Hide my head I wanna drown my sorrow
No tomorrow
No tomorrow
And I find it kind of funny
I find it kind of sad
The dreams in which I’m dying are the best I’ve ever had
I find it hard to tell you
I find it hard to take
When people run in circles its a very very
Mad world
Mad world

Children waiting for the day they feel good
Happy birthday
Happy birthday
And I feel the way that every child should
Sit and listen
Sit and listen
Went to school and I was very nervous
No one knew me
No one knew me
Hello teacher tell me what’s my lesson
Look right through me
Look right through me
And I find it kind of funny
I find it kind of sad
The dreams in which I’m dying are the best I’ve ever had
I find it hard to tell you
I find it hard to take
When people run in circles its a very very
Mad world
Mad world
Enlarging your world
Mad world

O Brasil de dois baianos

quinta-feira, 18 dezembro, 2008

Não gosto do filme Tieta , de Cacá Diegues. Aliás, confesso que a obra de Jorge Amado já não me atrai há alguns bons anos. Também acho o refrão da música-tema, A Luz de Tieta, composta e interpretada por Caetano Veloso um equívoco (eta-eta-eta …) que destoa dos demais versos – um resumo afiado das misérias desta terra e do modo bastante singular da inveja tupiniquim:

Todo dia é o mesmo dia
A vida é tão tacanha
Nada novo sob o sol
Tem que se esconder no escuro
Quem na luz se banha
Por debaixo do lençol…

Nessa terra a dor é grande
A ambição pequena
Carnaval e futebol
Quem não finge
Quem não mente
Quem mais goza e pena
É que serve de farol…

[…]

Toda noite é a mesma noite
A vida é tão estreita
Nada de novo ao luar
Todo mundo quer saber
Com quem você se deita
Nada pode prosperar…

É domingo, é fevereiro
É sete de setembro
Futebol e carnaval
Nada muda, é tudo escuro
Até onde eu me lembro
Uma dor que é sempre igual…

[…]

Versos que acabaram por me lembrar do famoso poema satíritico Reprovações, do também baiano Gregório de Matos (1623-1693). Lembro-me de que era a única obra dele que estudávamos (mal) no ensino fundamental; acredito que hoje em dia, sequer é lembrado (corrijam-me se estiver enganado). Segue a transcrição:

Se sois homem valoroso,
Dizem que sois temerário,
Se valente, – espadachim,
E atrevido se esforçado.

Se resoluto, – arrogante,
Se pacífico, sois fraco,
Se precatado, – medroso,
E se não o sois, – confiado.

Se usais justiça, um Herodes,
Se favorável, sois brando,
Se condenais, sois injusto,
Se absolveis, estais peitado.

Se vos dão sois um covarde,
E se dais sois desumano,
Se vos rendeis, sois traidor,
Se rendeis, – afortunado.

Se sois plebeu, sois humilde,
Soberbo, se sois fidalgo,
Se sois segundo sois pobre,
E tolo se sois morgado.

Se brioso, tendes fumos,
E se não, sois homem baixo,
Se sois sério, descortês,
Se cortês, afidalgado.

Se defendeis, sois amigo,
Se não o fazeis, sois contrário,
Se sois amigo, suspeito,
Se não o sois, – afeiçoado.

Se obrais mal, sois ignorante,
Se bem obrais, foi acaso,
Se não servis, sois isento,
E se servis, sois criado.

Se virtuosos, fingido,
E hipócrita, se beato,
Se zeloso, – impertinente,
E se não, sois um pastrano.

Se não compondes, sois néscio,
Se escreveis, sois censurado,
Se fazeis versos, sois louco,
E se não o fazeis, sois parvo.

Se corado, figadal,
Descorado, se sois alvo,
Se grande nariz, judeu,
Se trigueiro, sois mulato,

Se honesto sois, não sois homem,
Impotente s sois casto,
Se não namorais, fanchono,
Se o fazeis, estragado.

Se andais devagar, – mimoso,
Se depressa, sois cavalo,
Mal encarado, se feio,
Se gentil, – efeminado.

Se falais muito, palreiro,
Se falais pouco, sois tardo,
Se em pé, não tendes assento,
Preguiçoso, se assentado.

E assim não pode viver
Neste Brasil infestado,
Segundo o que vos refiro
Que não seja reprovado.

Um toque de clássico

sexta-feira, 21 novembro, 2008

Na noite (na verdade, madrugada) de terça-feira assisti a biografia de Beethoven no Biography Channel e voltei a me interessar por música erudita. Meu conhecimento não vai além daquelas coletâneas comuns e obras mais populares. Sempre que ouço música erudita, volta a vontade de conhecê-la melhor; pouco tempo depois, a tal vontade é soterrada pelo dia-a-dia. Como qualquer grande área do conhecimento, é preciso dedicação e paciência para desbravá-la. Eu gosto de ter uma boa idéia geral de um campo antes de mergulhar em algum de seus aspectos, porque tenho certa tendência enciclopedista – o que acho bacana, mas também problemático, afinal, vivemos num mundo de especialistas.

E não é que eu encontrei, ou melhor, a tal idéia geral desejado me encontrou na leitura diária dos 8956 feeds de blogs que assino? Graças ao Alessandro , fiquei sabendo que o Milton Ribeiro está iniciando uma série intitulada O Imprescindível na Música Erudita, incluindo links para baixar as músicas. Já sou leitor fiel não apenas da série, mas agora do (ótimo) blog também.

A propósito, o título deste post veio de um programa de rádio da Guarani FM daqui de Beagá, que toca música erudita quase sem intervalos entre as 12 e 14 horas, de segunda a sexta.

Coisas que eu gostaria de ter dito – 5

quarta-feira, 27 agosto, 2008

Voltar de um retiro involuntário e sombrio citando Diogo Mainardi é pedir, de antemão, para receber umas pedradas virtuais no cocoruto. Enfim, o que posso fazer a não ser acrescentar este post a longa série de coisas que eu gostaria de ter dito? Vamos a elas.

O Brasil fracassa no esporte pelo mesmo motivo que fracassa como país: temos uma sociedade acovardada, fujona, avessa à luta. Tudo aqui é feito para desestimular a disputa, para reprimir o desafio pessoal, para amolecer o caráter: o parasitismo estatal, a política fundada no escambo, a cultura baseada no conchavo, a repulsa por idéias discordantes. Esse nosso temperamento de rebanho inibe qualquer forma de atrito, qualquer tipo de inconformismo, qualquer espécie de enfrentamento.
Diogo Mainardi em sua coluna semanal de Veja – edição 2075 – 27 de agosto de 2008

Como disse um amigo meu quando compáravamos a nova geração de debilóides com a geração dos anos 80, Renato Russo não era nenhum Rimbaud, mas pelo menos sabia quem foi Rimbaud.
Marcos Matamoros, no Torre de Marfim, comentando parcerias musicais de doer os ouvidos.

estão fazendo as escolhas erradas? não duvido. depois de anos aprendendo a assisir às maiores futilidades na televisão, por que esperar que vão procurar ensaios críticos sobre proust na internet? se ninguém se deu ao trabalho de desligar a televisão para, digamos, ler um livro sobre física nuclear, por que esperar que essa gente vá à internet pesquisar sobre a biodiversidade no congo?
Olivia Maia, do Forsit, refutando a idéia de que a internet deixou toda uma geração burra.