Archive for the ‘Referências’ Category

De novo, o sentido da arte?

segunda-feira, 11 janeiro, 2010

Já se disse que todo escritor, no fundo, escreve apenas um livro. Dito de outra forma, significa que ele espalha seus ideias, obsessões, preconceitos, inclinações, preocupações e valores em todas as suas obras, de forma mais ou menos irregular, mas constantemente repetindo-se. Talvez a gente possa dizer que todo blogueiro escreve apenas um post – ok, estou exagerando um pouco só para introduzir um assunto quase caduco aqui no Tangente.

Ontem a noite acompanhei um casal de amigos a uma peça de teatro aqui em Belo Horizonte. Estamos, pela trigésima-sexta vez, sob a Campanha de Popularização do Teatro e Dança, uma iniciativa bacana que atrai a atenção de um público geralmente pouco afeito aos palcos (confesso, com um pouco de vergonha, que ainda faço parte desta turma). Infelizmente, os poucos hábitos do público acabam por se manter mesmo durante a temporada de preços populares: a predileção maciça pelas comédias e/ou peças estreladas por atores globais, ainda que a segunda seja algo bastante raro aqui na capital dos mineirinhos. As razões para isso são óbvias demais para se discutir, então avancemos: ontem eu também assisti a uma comédia. Não direi qual, mas não era ruim; apenas um pouco irregular, dividida em esquetes, alguns ótimos e outros que pareciam, francamente, lutar para sair dali e constituir uma peça a parte e uma ou outra vulgaridade meio deslocada.

Após a peça, o rápido e inevitável diálogo, que não nasceu de mim: a peça não foi compreendida pelos meus amigos porque os esquetes apenas tangenciavam o título da peça, ou seja, usavam o título como ponto de partida para, digamos, divagações em torno do mesmo tema. Mas alguns insistiam que deveria haver uma correspondência direta entre os dois, afinal, qual seria a mensagem de cada um daqueles trechos?

De novo. A tal “mensagem”. Já falei desta praga aqui mais de uma vez e não consigo entender porque, afinal, tanta gente insiste em que a arte tenha que lhe dizer alguma coisa concreta. Ou, pior ainda, resolver um problema que ela mesma apresenta. Esta mania será culpa dos contos de fada? Dos livros de auto-ajuda? Das telenovelas? Não sei. Sei apenas que esta bizarra necessidade por uma aplicabilidade prática da arte acabará por sufocá-la, ou melhor, acabará por fazer desaparecer a arte mesmo – aquela que se interessa pelo problema, pelo homem, pelo fracasso, pela morte e a ausência (ou sensação de ausência) de sentido.

Vista por este ângulo, a peça é muito boa. Não pretende dar lição alguma, mensagem nenhuma. Apenas diverte e entrega exatamente o que se propõe.

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Mensagem Para Você

O Visionário

segunda-feira, 20 julho, 2009

Em 1960, quando Fellini lançou A Doce Vida, teve de arcar com a incompreensão de boa parte do público e a rejeição de uma fatia da Igreja – o que, na Itália daquele tempo, ainda era um veto considerável. O livro Fellini Visionário transcreve os roteiros deste filme e de 8 1/2 e Amacord, além de trechos de entrevistas memoráveis, como o que vai abaixo, concedida a Alberto Moravia, publicada no jornal L’Expresso, em 1965:

Tudo que faço é apresentar um problema da maneira mais eficaz. Por que deveria propor uma solução? Por acaso sou santo ou líder? Os outros que encontrem a solução, os pastores de almas, os reformadores da sociedade. Sou um diretor que faz um filme. De resto A Doce Vida não tem nenhuma intenção social. É uma fábula contada como uma balada.
Todo artista vive uma realidade que não pode ignorar. Essa realidade não me agrada nem um pouco, bem entendido. No entanto, meu filme não é apenas isso. Em A Doce Vida também observo o homem com uma atenção diferente e, creio eu, mais nobre do que a de um sociólogo. Examino a miséria de sua alma, as doenças de seu espírito; parto com ele em busca de uma luz indispensável.[…]
Sempre houve em meus filmes algp de provocante. Digo isso sem me vangloriar, pois nunca é o que tenho em mente. […] Ocorreu uma cisão entre os que admitem um discurso sincero e os que o temem: entre aqueles que, mesmo correndo o risco de se enganar, tentam encontrar a verdade – ainda que seja uma pequenina verdade – e aqueles que por preguiça se recusam a procurá-la. Sou apenas um nômade, com os olhos bem abertos para conhecer a vida.

Algo que todo artista precisa entender.

O exercício da generosidade

quinta-feira, 18 junho, 2009

Como qualquer um, tenho ambições. Ambição é uma palavra que, aqui, abaixo da linha do Equador brazuca, é sinônimo de palavrão – como capitalismo, cultura clássica e lucro. Quando se menciona esta palavrinha, muita gente  se lembra de vilões de telenovela, invariavelmente empresários ricos ou vilãs dispostas a tudo para subir na vida, esse tipo de bobagem.

Quase são esquecidas as várias formas de ambição: material, intelectual, espiritual. Nenhuma delas é necessariamente ruim, mas as formas de exercê-las é que podem causar problemas tanto a mim quanto às pessoas que me cercam. E, em algum grau, temos todas as formas citadas, sendo que uma ou outra ganham certa prioridade.

A ambição da qual quero falar, no entanto, é outra, talvez a mais complicada, a mais difícil de se exercer e, paradoxalmente, a mais simples e suave. Lembrei-me dela ao ler este post do blog do Hiro contando sua visita ao estúdio-casa da lenda da ilustração Brad Holland. Holland recebeu o desconhecido brasileiro com simpatia e simplicidade, mostrou a casa, seus (belíssimos) trabalhos, conversou, lembrou-se de quando esteve em Florianopólis. Para quem não sabe, é mais ou menos como ser um cineasta iniciante (o Hiro não é um iniciante no mundo da ilustração, pelo contrário, mas mantenho a metáfora assim mesmo) sendo recebido, digamos, por Francis Ford Coppolla; um mergulhador por Jacques Costeau. E ser agraciado com generosidade e simpatia pelo mestre.

É esta generosidade que ambiciono ter, mais do que ser referência em alguma coisa.

Sobre o Nosso Tempo

sexta-feira, 12 junho, 2009

Tenho algumas anotações aqui, que esperam ser transformadas em posts, especialmente depois desta pausa de uma semana no blog. Estava com vontade de falar sobre a minha releitura (no sentido de “ler pela segunda vez”, não naquele sentido que artistas e sociólogos dão ao termo) de O Coração das Trevas, de Joseph Conrad, mas percebi que não combinava nem um pouco com a data. Deixemos Conrad para outra hora.

O blog do Polzonoff, que sempre acompanhei, virou um índice para as suas twittadas diárias. E quer saber? Ficou ótimo, tanto que estou até pensando em entrar seriamente para a turma dos twitteiros – ao menos uma vez por dia, e olhe lá. De lá veio o link para um livro cujo título é bastante curioso e está na estante de auto-ajuda da Livraria Cultura: 50 Motivos Para Amar o Nosso Tempo . Sim, todos sabem a aversão que tenho a auto-ajuda, mas, concordo quando ele diz acreditar na sinceridade dos leitores que desejam, simples e naturalmente, melhorar algum aspecto de suas vidas. Mas não foi isso que me atraiu no livro e seu título curioso.

Lembrei-me de um artigo do escritor de ficção científica Isaac Asimov na versão brasileira da revista que leva o seu nome, em que ele narra um encontro com jovens. Um deles teria dito que sua vida seria bem melhor na Grécia ou Roma antigas. O escritor replicou, afirmando que ele teria uma ótima vida como escravo, que era a mais provável “ocupação” que o jovem conseguiria. A saudade por um tempo jamais vivido é uma bobagem, a qual todos sucumbimos, por algum tempo de nossas vidas. Somos bombardeados o tempo todo com afirmações categóricas sobre como tudo era melhor no passado, a vida mais leve e fácil. E não é difícil dar alguma razão a estes argumentos diante das complexidades da nossa existência moderna. O outro lado é igualmente enganoso: acreditar que estamos no melhor dos tempos, o que também é inevitável. A isso gosto de dar o nome de cronocentrismo (termo que tem acepções mais rigorosas na academia, a minha é bem relaxada…), ou seja, a crença de que nossa época é o ápice da suposta evolução da humanidade. Não lembro bem e peço que me corrijam, mas parece-me que Aristóteles teria dito que tudo o que era preciso para facilitar a vida do homem já havia sido inventado e restava-nos a filosofia e o estudo do funcionamento do universo. Do Iluminismo a Revolução Industrial, passando, claro, pelo fim da história pregado por socialistas e liberais (cada um a sua maneira, claro), a ilusão de que o tempo em que vivemos é o último degrau da humanidade é tão comum e perniciosa quanto o saudosismo.

Seja lá qual for a sua opinião sobre nossa era, nem eu ou você podemos escapar a sina de ser um “homem ou mulher de nosso tempo”. Gosto de ler sobre o século XIX, o Renascimento e a Idade Média, mas nada me fará um burguês londrino, um pintor italiano ou um templário. E, como eu não acredito em reencarnação, não fui nenhum destes personagens. Resta-me apenas esta existência, que muita gente diz ser menor e menos interessante do que a maioria das que me precederam. Não concordar com esta postura, parece-me, é o mote deste 50 Motivos Para Amar o Nosso Tempo. Uma lufada de otimismo com olhos céticos.

E as grandes vedetes deste otimismo sem apelação a síndrome de Pollyana são, certamente, as conquistas das quais nem damos conta: tecnologia e ciência e os resultados sociais destas mudanças. Não percebemos, mas talvez estejamos no meio de uma grande revolução no modo como produzimos, consumimos e distribuímos informação. E informação, lembre-se sempre disso, não faz muito tempo, era algo exclusivo de uma parcela quase irrisória da humanidade. Sim, ainda é uma parcela bem raquítica a que tem acesso a tudo isso, mas é o suficiente para criar pressão por liberdades e direitos num ritmo e volume jamais experimentados. É tudo muito confuso? É, bastante, e deixa eu dizer uma coisa: o mundo sempre foi e sempre será uma confusão assustadora.

É preciso ter a consciência do preço que foi pago (em vidas, inclusive e especialmente) para que a humanidade chegasse até aqui; é necessário, sim, conhecer o passado. Mas adorá-lo cegamente nos impede de identificar e usar as gigantescas possibilidades que certos recursos modernos nos oferecem.  Exatamente os recursos tornam a vida hoje tão interessante e excitante – e naturalmente difícil.

Só para citar um exemplo: Desde quando uma pessoa qualquer, como eu, teria leitores de todas as partes graças a um esforço técnico relativamente pequeno? Faz muito pouco tempo que isso se tornou possível – menos de duas décadas.

O mundo sem ninguém

sexta-feira, 3 abril, 2009

Li, em algum lugar, que o competente diretor Francis Lawrence pode voltar ao cenário apocalíptico de Eu Sou a Lenda (sim, o filme é bom, apesar do final e do CGI) em uma produção inspirada pelo livro The World Without Us, de Alan Weisman. Não o li, mas assisti ao impressionante especial do History Channel, Life After People, conhecido por aqui como O Mundo Sem Ninguém. Nele, cientistas extrapolam as já conhecidas consequências da ausência de atividade humana em um ponto do planeta (em Chernobyl, por exemplo) para todo o mundo e um período de 10.000 anos. O resultado é mórbido e fascinante.

Sem a constante manutenção que providenciamos todos os dias, nossas cidades rapidamente seriam retomadas por plantas e animais. Após alguns milhares de anos, nossa civilzação, tão intrincada e poderosa, não deixaria quase marca alguma no planeta: os prédios ruirão, o cimento desaparecerá, as pontes cairão. Nem mesmo o legado cultural deixaremos de nossa passagem por este mundo: armazenados em meios digitais e papel, nosso riquíssimo acervo intelectual e artístico está fadado a desaparecer poucas centenas de anos a frente. E não haverá nenhum Wall-e para ficar recolhendo nossas tralhas e dando-lhes algum sentido – aliás, nem tralhas sobrarão. A ironia final é que as únicas construções com alguma chance de sobreviver ao lento apocalipse da natureza são as mais antigas, erigidas em pedra, como a Muralha da China e o Coliseu – talvez uma das poucas obras modernas a sobreviver seria o Monte Rushmore. Sim, nosso mundo moderno é de uma fragilidade desconcertante.

Ainda mais curioso: é a simples fala de um personagem de histórias em quadrinhos que resume a perfeição o aspecto perturbador deste Life After People. No capítulo final da última aventura do Super-Homem, brilhantemente escrita por Grant Morrison e ilustrada por Frank Quietily, All-Star Superman 12, Kal-el (o nome verdadeiro do kriptoniano de azul que usa sunga vermelha por cima da calça) confronta uma última vez seu pai, Jor-el (sim, Marlon Brando no filme dos anos 70). Diante da destruição de seu planeta natal, o cientista diz:

Nossa arte, nossa história orgulhosa, nossos nomes… Apagados das telas da posteridade. Considere-nos uma civilização inteira de super-homens reduzida a poeira por um capricho da cosmologia. Aí, pense em como são preciosas e frágeis as pequenas coisas a que dá valor.

Eu confesso: já quis ser publicitário

quarta-feira, 5 novembro, 2008

A história é velha conhecida: o menino gosta de escrever (escreve mal, mas pode melhorar) e de desenhar (desenha um pouco melhor, mas precisa melhorar), cria umas histórias sem pé nem cabeça. O que ele imagina ser quando crescer neste país? Publicitário, claro. Sim, por algum tempo estive entre a tecnologia de informação e a publicidade. O que me fez escolher a primeira foi conhecer os ambientes de trabalho da segunda. Talvez tenham sido as pessoas com quem conversei, as empresas que visitei, os pobres-coitados dos estagiários que falaram de sua rotina, não sei dizer com certeza. O fato é que me bandeei para a TI e estou nela até hoje. Mas confesso que, vez ou outra, vejo uma propaganda tão bacana, mas tão bacana que quase me dá vontade de estudar bastante para criar uma máquina do tempo e voltar atrás – felizmente, não sou um gênio da matemática e a máquina ficará mesmo na prancheta imaginária do meu cérebro.

Por Deus, não imagine que sou desses sujeitos que rolam de rir de peças publicitárias da TV e as transformam em referências e piadas, não é nada disso. O que chamou a minha atenção é algo mais sutil: esta peça da agência Salve para a coleção Segredos da Segunda Guerra Mundial, da Editora Abril:

peca_rockwell

Para quem não percebeu (ou desconhece), ela homenageia o quadro The Gossip, de Norman Rockwell:

gossip_norman_rockwell1

É fantático o uso que os criadores desta peça fizeram das fotos. Algumas, de personalidades; outras, de anônimos suficientemente parecidos e em poses adequadas para parecerem a mesma pessoa, em duas situações. Genial.

Nota: Quem lê o Universo Tangente por feeds e o recebe pelo e-mail talvez não veja as imagens. Clique no título do post para ir direto ao blog onde poderá vê-las e entender o texto.

Topifaive Implicâncias pessoais

segunda-feira, 2 junho, 2008

Chame de preconceito, se quiser. Aliás, este era o título original, preconceitos pessoais, mas como a palavrinha é pesada e tem o péssimo hábito de atrair trolls (não sabe o que é um troll? Descubra aqui), mudei para algo mais ameno e levemente efeminado: implicância. Porque homem que é homem não implica com algo, o algo é que enche o seu saco. Mas as regras de etiqueta aqui não recomendam postar um título como “topifaive coisas que me enchem o saco”, então fica do jeito que está mesmo. Sem mais delongas, vamos em frente.

1) Dan Brown

É sério. Eu tentei ler O Código da Vinci, de verdade, com alguma fé e paciência. Não passei da décima página. Ao contrário do que podem pensar, eu gosto de histórias ridículas que misturam teorias de conspiração a fatos históricos, ação e sacadas absurdas, desde que não se levem a sério, poxa vida! O livro de Brown clama por ser lido como uma versão legítima da história e por isso se estrepa; deixa de ser diversão descompromissada para virar chateação. Nem Arquivo X se levava tão a sério, e, vez por outra, até ria de si mesmo. Falando em seriedade e ironia, vale a pena dar uma olhada neste artigo, O Código Dan Brown, do finado site Sobrecarga.

2) Filmes com cara de TV

Bom, isso não vale apenas para os filmes nacionais, mas pensava exatemente neles enquanto escrevia esta lista. Temos uma longa tradição televisiva se comparada a cinematográfica, e é mais do que normal esperar que a linguagem da TV se reflita em boa parte dos filmes brasileiros lançados no cinema. Isso, na verdade, não diz nada sobre as qualidades das obras, e há exemplos de filmes bons (Se Eu Fosse Você) e ruins (Olga) dirigidos por veteranos da televisão – nos casos citados, Daniel Filho e Jaime Monjardim. Mas eu confesso que não me sinto confortável em ver na telona filmes pensados, fotografados, encenados e escritos como se fossem ser exibidos na telinha. Um exemplo contrário é Luiz Fernando de Carvalho, que trabalha sempre pensando em cinema, mesmo quando está dirigindo uma telenovela.

3) Literatura do Oriente Próximo feita para emocionar ocidentais

Sim, Persépolis é uma ótima exceção a esta regrinha. E não estou me referindo aqui aos relatos jornalísticos, mas às histórias de ficção. E também excluo Orham Pamuk, escritor turco de primeiríssima. Então, do que estou falando, então? De romances best-sellers como O Livreiro de Cabul e O Caçador de Pipas. Não sei se são bons – desconfio que não – , mas tenho certeza de que não me agradariam. Isso se eu não tivesse tanta preguiça em encará-los. Não me parecem histórias sinceras, sempre me passam a incômoda impressão de ser obras apenas à procura da sensibilidade (e dos bolsos) da classe média ocidental. Posso estar enganado, mas lembra-se do título do post? É implicância mesmo.

4) Filmes com Jennifer Lopez

Não vou entrar nos méritos artísticos de Lopez, mais conhecida pelas características físicas, aliás, por uma delas, que só pode ser vista quando ela se vai – entendeu? Mas o fato é que a Srta. Lopez simplesmente não sabe escolher projetos. À exceção de um ou dois filmes bons ou bonzinhos, são quase todas bombas no pior sentido cinematográfico da palavra. As mulheres sempre reclamam quando digo isso, mas Nunca Mais é um dos piores, mais apelativos e previsíveis dramas que já vi. Olhar de Anjo? Soporífero. Maid in Manhattan? Chato. Anaconda? Insira aqui a risada do Dr. Plausível. A Sogra? Leia minha opinião aqui (momento jabá). Gigli? Está na lista dos piores do IMDB e afundou a carreira de todo pobre diabo que se envolveu com ele. O melhor filme com Lopez é Menina dos Olhos/Jersey Girl, escrito e dirigido pelo nerd Jeff Smith, papel que dura uns… dez minutos mais ou menos, já que ela morre bem no início da trama. Nada contra ela, na verdade, mas vai ter mau gosto assim na hora de escolher papéis.

5) O verbo elencar

De onde veio isso? Sério, quem deu à luz a este neologismo horroroso deveria ser obrigado a escrever “Não vou mais criar palavras feias” no quadro-negro da escola do Bart Simpson umas mil vezes. Claro que vai aparecer um espertinho para dizer que o Houaiss aceita esta forma (e aceita mesmo, mas só para assinantes UOL), porém, eu não estou dizendo que o verbo é certo ou não, só queria dizer que ele é feio pra dedéu. Evito ao máximo usá-lo, o que não é fácil, já que virou mania entre os profissionais de TI (meu habitat habitual) já faz algum tempo.

Coisas que eu gostaria de ter dito – 4

quarta-feira, 28 maio, 2008

Um Indi em 2008 é o mesmo que sentir o cheiro daquela flor que você não sentia desde a infância ou ouvir aquela música que você não ouvia há 20 anos, coisas que fazem aflorar milhões de sentimentos separados por décadas, sensações há muito esquecidas, feridas há muito cicatrizadas. Ver um Indi hoje no cinema tem efeitos muito mais conspícuos que uma sessão de análise, com os méritos de que é mais barato e divertido.
Mis Spigott, falando a respeito de Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, que ainda não vi.

Sei não, acho que mais importante do que saber do que se gosta, é saber o quanto se suporta fazer o que não se gosta. Ou, encontrar um emprego em que os níveis de expectativa não sejam soterrados pelos níveis de frustração.
Léo, chegando a conclusão de que trabalhar com que se gosta não é hobby.

[…]não vejo como não observar: terá havido alguma época em toda a história na qual é possível viver num mundo de referências culturais absolutamente próprias? […] com o aumento do mercado, da atividade capitalista, da aceleração das trocas, isto é, das compras e vendas, ficou infinitamente mais fácil escapar da “tirania do gosto” da sua própria época. […] As modas sempre existiram e sempre existirão, mas [hoje em dia] você pode escapar delas com facilidade quase absoluta.
Pedro Sette Câmara, demonstrando com clareza que o capitalismo promove a libertação do gosto, graças às inúmeras opções oferecidas pelo mercado.

Mais um? (ou Esta Semana no Todos os Filmes – 1)

quarta-feira, 14 maio, 2008

Não, eu não aprendo. Mal dou conta aqui do Universo Tangente e acabei criando outro blog. No Todos os Filmes, dedico cada post a um único filme, de forma simples e direta, sem artigos longos nem firulas. Não são críticas embasadas em décadas de contato com a cultura cinematográfica, são apenas opiniões de um palpiteiro que assiste a mais filmes do que deveria. E é uma experiência de criação de textos também; separo entre 20 a 40 minutos para cada post, nunca mais do que isso.

A partir de agora, toda quarta-feira trarei a lista dos filmes comentados lá no Todos os Filmes, com links, para quem tiver interesse. Desde que foi criado, falei de:

O Novo Mundo

Evolução

Memórias de uma Gueixa

Jin-Roh

Sunshine – Alerta Solar

Amazing Grace

Como se vê, bons filmes ao lado de bombas e produções medianas; não tenho critério algum na escolha, não espere uma linha a ser seguida. Em Todos os Filmes cabe qualquer um.

Há uma gota de Charlie Brown em cada mané ou da realidade metida no meio da ficção

segunda-feira, 5 maio, 2008

Se eu tenho escrito com alguma frequência (é, o trema foi abolido na última reforma ortográfica) sobre as coisas que permeiam obras de arte, não significa que eu as negue. Todo artista sofre uma grande influência do seu meio, seu tempo, das outras obras que lhe são caras. O que vai distinguir o grande artesão do mediano e da multidão de descartáveis será sempre sua habilidade em traduzir tudo isso, somado a suas idéias, numa obra que possa resistir aos anos. É bastante óbvio para qualquer um que a realidade influencia os escritores, e isso inclui sua vida pessoal; para citar um lugar-comum, experiência não é o que o tempo fez com a gente, mas o que a gente fez que o tempo que já passamos. Daí que ecos das biografias surjam aqui e ali, nas obras artísticas, o que é bastante comum e absolutamente normal.

Para citar um caso bem conhecido, sabe-se que Tolkien negou veemente, em suas cartas, que a guerra pelo Um Anel tivesse alguma relação com as duas Grandes Guerras do século XX – ele participou da Primeira e nela perderia seus melhores amigos. É também verdade que a oposição entre a natureza industrial de Mordor e o restante da Terra Média, verdinha, verdinha, pode ter origem na mudança ocorrida em sua infância, tendo se mudado da África do Sul para a Inglaterra urbana. Mas os exemplos mais curiosos (e melancolicamente românticos) que descobri nos últimos dias são mesmo os de Charles Schultz e Herman Raucher.

Comecemos pelo menos conhecido: Raucher é o roteirista de O Verão de 42 , que aqui recebeu o título Houve uma vez um Verão. O filme ficou mais conhecido pela belíssima música-tema de Michel Legrand e narra a adolescência de três amigos, ao mesmo tempo em que um deles se apaixona por uma mulher mais experiente, cujo marido está no front. O roteiro oscila entre os desastrados e rudes moleques que começam a perceber que estão crescendo e a delicadeza triste do relacionamento entre os dois, que culmina na cena em que ela, logo após receber a notícia de que o marido morrera na guerra, acolhe o garoto com imensa ternura e desespero. No dia seguinte, ela deixaria a ilha e nunca mais se veriam. Pois bem, o mesmo aconteceu com Raucher. Cito o post do Inagaki a respeito: “Herman Raucher, roterista do filme, de fato passou férias em uma ilha em 1942, teve um amigo chamado Oscy (que veio a falecer no front da Guerra da Coréia) e, vejam só vocês, envolveu-se com uma mulher mais velha chamada Dorothy. Exatamente do mesmo modo que foi mostrado no filme, na manhã seguinte ao encontro amoroso dos dois, Dorothy deixou a ilha (e um bilhete destinado a Herman) e eles não mais se encontraram.”. Anos depois, Raucher receberia várias cartas de mulheres que teriam sido a sua Dorothy, e uma delas chamou-lhe a atenção pela exatidão dos detalhes. Ainda assim, ela não se permitiu aproximar mais uma vez e desapareceu, agora definitivamente.

Schultz ficou recentemente famoso por causa de uma biografia que teria revelado detalhes pouco admiráveis (e humanos) de sua personalidade retraída. É terrivelmente tentador compará-lo a Charlie Brown, mas é uma analogia bastante redutora, talvez até simplista. De qualquer forma, a Garotinha Ruiva (ou The Little Red Haired Girl) foi inspirada numa mulher real, o que motiva esta comparação. Donna Johnson foi namorada de Schultz por longos três anos, mas ela recusou sua proposta de casamento e ainda por cima acabou casando-se com outro sujeito pouco tempo depois. Schultz obviamente ficou arrasado, mas mantiveram a amizade até a morte de Charles, em 2000 (Aqui você pode ver uma foto de Donna em 2001, com cara de vovó simpática e abraçada a um Snoopy de pelúcia). Minha geração conhece os Peanuts pelo desenho animado aqui conhecido como “Snoopy” ou “Turma do Snoopy” ou algum outro nome criativo surgido no SBT. Este desenho não é fiel, de forma alguma, à idéia que Schultz fazia de sua Garotinha Ruiva. Ela jamais apareceu nos quadrinhos, a não ser em um único quadro em 1950 e sua ausência gráfica representa o amor platônico, impossível, doloroso e jamais realizado. Surpreendentemente, Minduim teve uma namorada, por um breve período nas tirinhas; seu nome era Peggy Jean , e apareceu por volta de 1990. Será mesmo preciso dizer como este caso terminou? Peggy revela que possui um namorado e vai embora.

Sei que fugirei um pouco do tema, mas sou obrigado a dizer que a maior qualidade de Peanuts é exatamente esta tristeza que, vez ou outra, irrompia das situações mais cotidianas e simples. Não me parece preciso dizer que o mundo infantil criado por Schultz seja uma versão das neuroses adultas; acredito que ele via o mundo dos seus pequenos do mesmo tamanho que eles próprios, com seus conflitos, pequenas alegrias e tragédias. A genialidade de Peanuts está na sua capacidade de dar a estes eventos a dimensão do mundo de seus protagonistas. E não é sempre assim? Aquilo que nos enternecia ou feria anos atrás perde seu tamanho com o tempo e torna-se uma lembrança incômoda que tendemos a desprezar (erroneamente) nos mais jovens do que nós.