Archive for the ‘Típico do Brasil’ Category

Frankly, my dear, I don’t give a damn (*)

segunda-feira, 16 janeiro, 2012

Infelizmente, talvez eu seja um “elitista” cultural, o que é um palavrão equivalente, na escala de horrores modernos, a “reacionário” (algo que espero sinceramente não ser). Não pensei em ser assim, entenda; apenas aconteceu. Isso não me faz melhor nem mais interessante; mas definitivamente me transforma em um alienado cultural, especialmente em relação ao Brasil. O que acho disso? Leia o título de novo. Estou pouco me lixando, para usar uma gíria que já era velha quando a lia em quadrinhos.

Penso nisso enquanto leio as chamadas para notícias que falam de um possível abuso sexual naquele reality show – o mais famoso e de maior audiência do país. Se for verdade, é algo grave, gravíssimo. Eu não subestimo a seriedade da situação, e espero realmente que seja esclarecida e os envolvidos, punidos – claro, eu poderia desejar que o programa fosse obrigado a sair do ar por inviabilidade, mas eu estaria contradizendo as próximas afirmações, porque não quero e nem vou acompanhar o programa por causa disso. Aliás, nada me faria assisti-lo ou ler mais do que as chamadas nos portais de notícias. Por quê? Simplesmente porque eu escolhi.

Escolho constantemente ler, assistir e saber apenas o que acredito, com convicção, me dirá algo. Não, não interprete isso daquela forma óbvia: não estou a procura de obras com “mensagem” ou “valores positivos”; afinal, já sou adulto e sei (ou deveria saber) discernir as coisas. Procuro boas obras. Ou, melhor dizendo, obras que eu suspeito de que vou gostar. Desprezo sem cerimônia programas, livros, filmes, shows, séries que não me interessam. Coincidentemente, isso exclui a quase totalidade da programação da TV aberta brasileira. Elitismo? Ok, chame do que quiser. Eu chamo de poder de escolha: decidi não desperdiçar tempo (nosso tempo é ridiculamente curto neste mundo; ainda por cima, eu não acredito em reencarnação, logo…) com produtos culturais apenas porque todos os consomem e eu deveria estar a par deles. E quer saber? Sinto-me muito bem com esta decisão.

(*) A citação é do filme E O Vento Levou… e pode ser traduzida de forma educada como “Francamente, minha querida, eu não dou a mínima”.

Quer comprar uma estante para livros?

segunda-feira, 9 janeiro, 2012

Lendo o artigo de Claudio de Moura Castro na Veja, Onde comprar estantes de livros?, lembrei-me da minha própria peregrinação. Ao me mudar, trouxe um grande e sólido móvel que me serve de estante e escrivaninha, além de acomodar o computador, impressora, modem, DVDs e uma réplica do DeLorean de De Volta Para O Futuro que foi presente do meu irmão. Mas, quando a quantidade de livros acabou superando as dimensões deste móvel, saí a procura de uma estante para eles, acreditando piamente que seria algo trivial, fácil de se encontrar.

Após andar em todas as lojas e sites mais conhecidos e, claro, depois de descartar as opções muito feias e as ridiculamente caras, fui encontrar duas pequenas “bibliotecas” (assim eram descritas nas etiquetas) em uma loja perto de casa. O preço era justo e a qualidade, boa. Tenho as duas aqui ainda e já estão chegando aos seus limites. Logo terei de tomar a decisão que a maioria dos proprietários de livros acabam sendo obrigados a tomar: improvisar ou mandar fazer suas estantes sob medida. Mas o que Claudio de Moura Castro não deixou escapar em seu artigo é tão óbvio quanto aterrorizante: Não existe mercado para estantes de livros no Brasil porque quase ninguém lê.

Aliás, lembro-me bem de não encontrar, na maior parte das casas de amigos e conhecidos, livros. Não falo de uma estante ou uma biblioteca, mas apenas alguns livros, empilhados em algum canto, ou enfileirados ao lado da televisão. De preferência, livros nitidamente manuseados, as folhas marcadas, e não estas edições monstruosas de arte, compradas apenas para combinar com o quadro ou os jarros, e que foram vistas na capa de alguma revista de decoração.

No final do artigo, o autor sugere a criação de um índice semelhante ao Índice BigMac , para medir a educação e hábitos de leitura de um país a partir da quantidade de estantes para livros disponíveis em sites das lojas de móveis locais. Nem é preciso dizer onde estaríamos na lista resultante deste suposto índice.

A Conquista do Mundo Começou

terça-feira, 3 janeiro, 2012

Quando, em meados dos agora longíquos anos 80, as rádios tocavam, em sua maioria, sucessos vindos dos EUA e Inglaterra, havia quem se escandalizasse. Segundo estes críticos, ouvíamos apenas lixo importado, pop sem qualidade em uma língua que não entedíamos. Eu tinha vontade de dizer: “Tolos! Tenho certeza de que um dia a programação das rádios tupiniquins estará recheada de lixo nacional legítimo e puro. E digo mais: o Brasil exportará o que de pior produz para o resto do mundo”(seguido por uma risada malévola de vilão de séries antigas). Pois bem, conseguimos. Não vou entrar em detalhes para não atrair trolls e outras estranhas criaturas que habitam os becos escuros da internet. Mas temos de ter orgulho: Agora fornecemos ao mundo músicas tão horríveis quanto aquelas a que somos expostos.

A FEB e a história que poucos conhecem

terça-feira, 15 fevereiro, 2011

Ao contrário do que muito provavelmente você aprendeu na escola com seus professores, a história não é uma soma maluca de datas, movimentos e revoluções – também não é uma marcha inexorável rumo a superação do capitalismo, sinto dizer. A História (agora sim, com H maiúsculo) é feita por pessoas como eu e você, que viveram, sofreram, conquistaram, se estreparam. Parece óbvio, mas o Brasil se esquece disso com frequênca maior do que a maioria dos outros países.

Nós nos esquecemos da FEB – Força Expedicionária Brasileira – que lutou na Europa na Segunda Guerra Mundial. Quando o último dos veteranos desaparecer, não haverá notas no Jornal Nacional nem matéria na Veja. O Brasil terá perdido a chance única de demonstrar o respeito que estes senhores merecem e sempre mereceram – mas raras vezes conquistaram.

Pois bem, graças a este artigo no Contraditorium de Carlos Cardoso, HERÓIS: Currahee É Aqui, descobri a história espetacular de três soldados brasileiros que resistiram sozinhos a toda uma companhia alemã. É impossível não se emocionar com o que o oficial alemão fez após o triste e inevitável fim dos pracinhas: mandou que fossem enterrados em covas individuais e identificadas com os seus nomes. E marcou o local com uma inscrição: Drei brasianische helden, Três heróis brasileiros.

Felizmente, há dois projetos cinematográficos em andamento para contar esta e outras histórias: O média Heróis (blog oficial) e o longa A Montanha (teaser com cenas já gravadas na Itália). Vou acompanhá-los a partir de agora e posto por aqui as novidades. Mas leia o artigo do Cardoso: há mais informação lá sobre as façanhas da FEB do que em muitos livros de história por aí.

Sobre o Sete de Setembro

terça-feira, 7 setembro, 2010

Quando eu era menino, adorava o desfile de Sete de Setembro. Na verdade, como todo moleque, eu gostava mesmo era da oportunidade de apreciar máquinas que se não vê (felizmente!) todo dia: tanques, aviões, blindados e canhões. Àquela época, eu costumava pedir aos meus pais para que comprassem livros sobre maquinário de guerra e que formavam uma coleção vendida em bancas. Nem preciso dizer que, com as finanças sempre oscilantes de minha família, jamais consegui completar todos os números faltantes.

Curiosamente, jamais quis ser militar. Nem mesmo quando bem novo; na verdade, lembro-me bem de que aos seis ou sete anos de idade já torcia para não ser selecionado para prestar o serviço obrigatório quando chegasse aos dezoito anos. Não, eu não tinha coisa alguma contra o mundo fardado; era uma consciência excessivamente precoce de minhas próprias limitações. Eu era fraco, franzino, desajeitado – como eu me daria bem em um universo que exige exatamente o contrário? Não foi surpresa alguma quando fui dispensado do serviço. Com a contradição típica de um adolescente, me senti mal por uns dias, como se minha entrada na vida adulta houvesse sido rejeitada ou adiada.

Talvez eu não teria me dado tão mal assim durante o meu período de serviço obrigatório, mas também é verdade que eu nunca tive a menor vontade de ingressar na carreira militar. Logo, eles saíram no lucro – menos um cadete chato e incompetente para cuidar.

Aproveitando o assunto, está mais do que na hora de as forças armadas serem tratadas com mais respeito: caças caindo aos pedaços não combinam com a imagem de país (supostamente) bem-sucedido que os últimos tempos tentam impor.

Banalidade

quinta-feira, 3 junho, 2010

Imagine uma notícia horrível – basta abrir qualquer página de qualquer jornalão, é fácil. Um fato incompreensível, violento e revoltante, que nos faz imaginar o que faríamos se estivéssemos naquela hora e lugar. Imaginou? Certo. Agora pense no texto desta notícia com trechos que mais parecem propaganda do estabelecimento comercial onde se deu a tragédia – que resultou em uma morte. Parece algo saído do filme Robocop, de Paul Verhoeven, não parece?

Não. É uma matéria quase inacreditável publicada na Folha de São Paulo online.

Uma última observação sobre Niterói

domingo, 11 abril, 2010

Em 1992, quando eu ainda morava em Contagem, Minas Gerais, uma tragédia semelhante a que se abateu sobre o Morro do Bumba aconteceu lá: a Vila Barraginha foi soterrada por uma avalanche de terra e lixo proveniente de um aterro sanitário. Lembro-me de ouvir alguns dizendo que as pessoas que moravam ali seriam as culpadas – coisa que alguns membros do chamado “poder público” andaram insinuando nas chuvas recentes do Rio.

Só que essas pessoas não são lixo. E não são burras.

Elas não moram em encostas e lugares de risco por gosto e escolha. Eles não colocam a sua vida e a dos filhos em risco por opção.

É ao contrário. Eles fazem isso por falta dela.

O ocupamento desordenado de Niterói, que vem agressivamente aumentando a população desde a fusão dem 1975, tem se agravado nos últimos 20 anos. Os governos sucessivos de Jorge Roberto Silveira e seus aliados tem se preocupado muito mais em maquiar a cidade e alterar o plano urbano do municipio para torná-lo agradável a grandes investimentos imobiliários do que investir em obras de infraestrutura. Não houve um plano de transito, urbanização… e não houve contenção de encostas.

São as palavras de Ana Cristina Rodrigues em seu post When the world falls down… que merece ser lido.

O Brasil não decepciona os seus críticos

sábado, 10 abril, 2010

Philipe, do site Mundo Gump, escreveu o texto Niterói, o Retrato do Brasil, que merece ser lido e do qual cito dois parágrafos, exemplares:

O Brasileiro vota obrigado, e não reclama. O Brasileiro é vilipendiado nos seus direitos mais básicos como educação, segurança e saúde e não reclama. O Brasileiro vê a família inteira sumir num desabamento de Ex-lixão e não reclama. Só chora. Os protestos contra a administração pública do país são pífios, mas em contrapartida basta um trio elétrico passar na rua e milhares de pessoas seguem atrás, sambando. Então, o povo, o pobre e o rico, tem suas respectivas parcelas de culpa pelas desgraças deste país.

Niterói, no caso, é o retrato da nação brasileira, que posa de bonita lá fora, banca de superior oferecendo ajuda humanitária até para quem não precisa, mas estende seu telhado de vidro para as pedradas dos críticos, ao lidar com a mais completa incompetência para com os problemas internos.

E o que os governos que permitiram a ocupação das encostas ao longo de décadas, interessados em votos rápidos e baratos, exercendo um populismo vulgar, dissimulado e desastroso fazem para impedir estas tragédias? Chamam a Fundação Cobra Coral e pedem para rezar pela ausência de chuvas (sim, isso aconteceu no Reveillon do Rio de Janeiro).

Questão de identificação

sábado, 20 março, 2010

Tenho pelo Big Brother Brasil (e praticamente todos os reality shows) o mesmo carinho profundo que tenho pelo Carnaval (sim, isto foi uma ironia). E também conheço muita gente boa, amigos e conhecidos, que adoram o programa. São capazes de perder horas discutindo se Fulano ou Sicrana deve ser eliminado, se Beltrano traiu a confiança do grupo e outros assuntos que me causam um tédio tão forte que logo descamba para o sono. Por isso mesmo, nunca entendi muito bem porque eu não tenho o menor interesse pelo jogo televisivo que se transformou em mania aqui no Bananão.

Até que, finalmente, navegando por acaso no UOL, me deparo com o blog do jornalista Mauricio Stycer, que leva a TV brasileira a sério – de um jeito que eu não tenho a menor paciência para levar; para mim, a única coisa boa da telinha hoje em dia é o CQC. Em um de seus posts (perdi o link e não vou procurar agora), ele escreveu que as pessoas gostam do BBB porque, de um jeito ou de outro, se identificam com seus participantes.

Bingo! É isso, finalmente entendi. Eu não me identifico com os tipos que frequentam o programa. Mais do que isso: não apenas eles não me dizem nada, eu sequer gostaria de ser um deles. Sabe o que isso significa? Apenas isso. Não sou melhor nem pior do que eles, mas suas histórias e valores não me interessam. Eu poderia até dizer que gente que deseja ser celebridade também não me diz coisa alguma, o que também é verdade, mas ex-BBB lá é celebridade que se preze?

O Brasil do futuro de olho no passado

terça-feira, 2 fevereiro, 2010

Texto imperdível do Daniel Piza, de onde cito o trecho a seguir:

Temos cronistas que morrem de medo do progresso e chegam a dizer que “não nascemos” para coisas como ciência e tecnologia. “Nosso negócio” é jogar futebol moleque, cantar canções para as morenas, fazer festa… Os mesmos que se dizem nacionalistas são os que desdenham bolsões de excelência como Embrapa, Embraer, Projeto Genoma, etc. E são os mesmos que nas aulas diziam para o professor “não levar tão a sério”, forçando a inclinação para o comodismo e a palpitagem, para a discussão de vaidades e futilidades em vez de ideias. Para essa gente, ler é chato, matemática é chato, arte é feita apenas de espontaneidade. E esperto é quem sonega, quem se dá bem sem precisar gastar os olhos em cima dos livros.

O Brasil é um escândalo (no mau, no pior sentido).