Archive for the ‘Típico do Brasil’ Category

Observações ridículas para o início do ano

quinta-feira, 7 janeiro, 2010

Por que os primeiros dias do ano tem que ser um festival de más notícias? A combinação de impostos, comerciais de samba-enredo de escolas de samba e Big Brother Brasil são mais do que suficientes para desejar que 2011 chegue logo.

***

Aliás, não vejo telenovela, BBB ou carnaval, isso tudo mundo já sabe. O que a maioria ignora é que tais assuntos são tão presentes e repetitivos que acabamos conhecendo suas características mesmo se não os consumirmos. Por isso não consigo deixar de pensar que BBB é a versão trash de uma telenovela do Manoel Carlos: a maior reunião de personagens chatos da ficção televisiva atual.

***

Falando sério, se eu fosse produtor do History Channel já teria mandado o pessoal de Monsterquest e Caçadores de ÓVNIs para a vala. Os primeiros nunca revelaram uma criatura que se julgava extinta ou mitológica. Os últimos ainda não capturaram um OVNI sequer. Caçadores de primeira.

***

Notícia bizarra do dia (apenas para quem já viu Avatar): o DVD trará uma cena adicional de sexo (sim, sexo) entre o avatar humano e a alienígena Na’vi. Conexão de USBs, claro.

***

O fato de eu escrever estas notinhas algo ridículas só prova que preciso aprender a usar o Twitter. Promessa para 2010: Universo Tangente no serviço da baleia voadora.

Desta vez, não nos esqueceram

segunda-feira, 5 outubro, 2009

A escolha do Brasil, mais especificamente do Rio de Janeiro, como sede das Olimpíadas de 2016 não chegou a ser surpresa. Não para um grupo bastante específico de sujeitos: os nerds.

Quinze anos atrás, eu assisti a um dos filmes idiotas mais divertidos já realizados: Independence Day, de Roland Emmerich. Mais estranho do que um vírus criado num computador terráqueo capaz de infectar toda a frota alienígena, é a absoluta ausência da América Latina no roteiro. Se você tiver paciência, reveja (ou assista pela primeira vez) o filme e note que nós não somos sequer citados, nem uma única vez – sim, a foto da nave alienígena sobre a Baía de Guanabara foi uma montagem do Jornal do Brasil.

Este ano, o mesmo Emmerich resolveu incluir sequências da destruição do Cristo Redentor na sua última produção apocalíptica, 2012. Há até um cartaz dedicado exclusivamente a nós.

Cartaz de 2012

Cartaz de 2012

E se pode parecer de mau gosto a alguns exibir uma imagem como esta bem no meio da euforia ufanista deflagrada pela escolha do Rio para 2016, basta lembrar que outro símbolo brasileiro foi alvo da fúria extraterrestre no ano passado. Na desnecessária refilmagem do clássico da ficção científica O Dia Em Que A Terra Parou, bilhões de bilhões de nanomáquinas reduzem o Congresso Nacional a escombros. Uma cena rápida, mas que agradou a alguns brasileiros tanto quanto a destruição da Casa Branca no já clássico da tosqueira Independence Day.

Cena do trailer de V

Cena do trailer de V

Tem mais, e é outra refilmagem: V – A Batalha Final foi uma série de TV exibida nos anos 80, que mostrava aliens bonzinhos e atléticos que escondiam sua verdadeira natureza reptiliana e desejo de dominação da Terra – atrás de água, claro. Os trailers da refilmagem mostram naves flutuando sobre metrópoles (por que estas joças nunca sobrevoam Pindamonhagaba?) ao redor do mundo, enquanto uma agradável voz feminina anuncia o ideal comunitário dos ETs a população. Qual cidade brasileira tem a honra de ser mostrada? O Rio, claro, mas a intérprete alienígena não tinha sotaque carioca. Bom, não dá para ser perfeito.

Mais uma vez, os fãs de cinema e séries fantásticas estavam a frente: O Brasil voltou a receber atenção global.

Não preciso dizer que este post não deve ser levado a sério, preciso? A única coisa verdadeira aqui são as cenas de filmes e séries descritas.

Então é isso?

sábado, 19 setembro, 2009

Há uns dois meses, escrevi sobre o respeito que tenho pelos profissonais que trabalham na produção do pior produto da televisão brasileira: a telenovela. Mas talvez eu tenha subestimado a ruindade da coisa. Não, talvez coisa alguma – eu fui bonzinho mesmo.

Assisti a meio capítulo da nova produção das oito horas, uma tal de Viver a Vida do Manoel Carlos (ou seja: Leblon + Helena + Bossa Nova + Toneladas de paciência). Primeiro, me chamou a atenção o logotipo da abertura ser tão parecido com um comercial de banco que é exibido no mesmo horário. Depois tentei prestar atenção a algum personagem ou trama, mas descobri que é impossível. Não há como se interessar por personagens tão rasos e estúpidos que resumem seus dramas a um desfile entediante de estilos de vida igualmente tediosos e superficiais. Isso não é dramaturgia, é a tradução para movimento e som das fotos que recheiam revistas de consultório médico como Caras e Quem. O mais curioso fica para o final dos capítulos, com depoimentos de pessoas comuns e seus dramas pessoais. Confesso que estes momentos, que duram uns três minutos, devem ser muito mais interessantes do que a ladainha de quarenta minutos que os precedem. Claro que é também um truque baratíssimo: trata-se de tentar igualar a vida comum ao universo ficcional da telenovela, ou melhor, tenta-se conectar o espectador a história da telenovela insinuando que aquela poderia ser a sua história.

O Felipe Neto relata, no seu blog Controle Remoto, ter assistido a uma palestra com Fernanda Montenegro, quando ela teria dito:

O modelo de novelas está acabando, é apenas uma questão de mais alguns anos. O mercado foi invadido pelos seriados e pelas sitcoms americanas e esse será o novo modelo de televisão.

Algum  anjo disse amém? Hein?

Tudo bem, eu sei que há uma infinidade de séries ruins e apenas algumas muito boas ou excelentes. Mesmo assim, o saldo para os seriados é positivo, já que as telenovelas são uniformemente ruins, e algumas insuportáveis.

Era uma casa muito engraçada

sexta-feira, 11 setembro, 2009

No ensaio Do enigma ao mistério, publicado no primeiro número da revista Dicta & Contradicta e editado por Guilherme Malzoni Rabello, o poeta Bruno Tolentino conta que, durante sua infância, via a casa frequentada por gente como Manuel Bandeira, Otto Maria Carpeaux e Gilberto Freire. Não tive tantos nomes ilustres povoando meus primeiros anos, mas sofri uma influência tão decisiva quanto inestimável: nasci numa casa de leitores. Minha mãe lia desde menina, ainda muito pobre, qualquer coisa que lhe caísse nas mãos; como boa parte de sua geração, conheceu o mundo descrito nas páginas de romances água-com-açúcar para mais tarde procurar por outros autores. Meu pai lia poucos romances, mas lembro-me de que era obcecado pela Conde de Montecristo de Dumas. Sua rotina de leitura era constituída especialmente por jornais – que, com as finanças sempre apertadas, comprávamos com maior frequência aos domingos – e algumas revistas, adquiridas quando o assunto de capa lhe interessava. Aliás, ele passou longos anos sem ler coisa alguma depois que seus irmãos o apelidaram de “velho” por gostar de jornais – mas isso foi bem antes de eu aparecer.

Em notícia divulgada hoje, a Câmara Brasileira do Livro dá novos números ao que todos já sabemos: o brasileiro lê pouco, muito pouco. Mas, finalmente, alguém chega a outra conclusão, tão óbvia quanto oculta:

“É preciso difundir nas crianças não o hábito da leitura, mas sim o gosto pela leitura”, defende João Carneiro, presidente da Câmara Riograndense do Livro, que põe por terra outro mito: o de que a professora é quem desperta a criança para a leitura. “Está comprovado, por diversos estudos, que é a mãe quem primeiro incentiva a leitura. É a cultura de ler, contar histórias para o filho, antes mesmo de ele ser alfabetizado. Isto é marcante no gosto futuro pela leitura”.

Infelizmente, os professores (por que “a professora”?) acabam sendo vítimas do nosso modelo de ensino incapaz de salvar leitores. Se é verdade que a família é a primeira referência nesta atividade, também é um fato inegável que doze, treze anos sentado num banco escolar desmembrando orações e suportando a ideia de leitura obrigatória são mais do que suficientes para minar a disposição da maioria dos futuros homens e mulheres de livros.

Mais uma vez: Chega de gramática!

Chega de gramática!

terça-feira, 8 setembro, 2009

A todo momento, alguém diz duas coisas que parecem óbvias e verdadeiras, mas que não são nem uma coisa nem outra: que a infância de antigamente era melhor e que as crianças de hoje são mais inteligentes que seus pais foram. Talvez sejam mesmo, mas basta pedir para um adolescente argumentar, defender um desejo ou ponto de vista (não precisa ser grande coisa em termos de argumentação; digamos, ir a casa noturna mais nova da cidade no sábado da reunião de família na casa da avó) para percebermos que está faltando alguma coisa. A inteligência pode até estar lá, mas ela não domina as ferramentas que a fazem prosperar – especialmente a capacidade de raciocínio lógico, de construir argumentações, ouvir, aceitar e rebater alegações. É muito duro dizer isso, especialmente para um nerd que admite que até gostava da escola, ou de algumas das disciplinas, mas não dá mais para negar: a escola brasileira emburrece, ou, na melhor das hipóteses, embota a inteligência.

Entre outras coisas sobre as quais eu gostaria de pensar melhor antes de afirmar, não tenho receio de apontar o modo como a língua portuguesa é tratada e ensinada como um monstruoso equívoco, a gênese do desempenho vergonhoso do Brasil em exames como o Pisa – no qual somos eternos lanterninhas.

Não ensinamos a ler ou a interpretar textos. Estamos mais preocupados em estripar, desmembrar as orações e palavras do que em usar a língua e sua beleza para aprimorar e afiar a mente dos alunos. Passamos mais de dez anos estudando gramática e análise sintática para que possamos escrever mal e ler pior ainda -geração após geração, vamos nos tornamos uma nação inteira de analfabetos funcionais. Toda a magnífica experiência da leitura é transformada num exercício burocrático e sem sentido digno dos Vogons do Guia do Mochileiro das Galáxias. A nossa obsessão pela gramática e pela análise sintática destrói completamente o que há de mais valioso na leitura: a descoberta do significado, o reconhecimento de uma visão de mundo única, pessoal, deste ou daquele escritor. Alie-se a esta maluquice a xenofobia literária que torna os alunos reféns da literatura brasileira quando poderiam descobrir Tolstoi, Shakespeare e Dostoievisk ao lado de Machado, Graciliano e Rosa. Além da chatíssima mania de estudar os movimentos literários (simbolismo, barroco, parnasianismo, naturalismo, lembra-se disso?) e não os autores e suas obras.

Não há paixão à leitura que resista a este bombardeio de burocracia.

No ótimo livro Para Ler Como Um Escritor, a autora Francine Prose relata o horror de perceber que a maioria dos alunos e professores de letras não gostava de literatura. Quando muito, estavam preocupados com macroestruturas e análises psicológicas e marxistas das obras – muitas vezes, sequer haviam lido os livros que defendiam ou rechaçavam. São estes professores que ensinarão nossos filhos e mais tarde reclamarão da incapacidade deles em interpretar um texto simples – mas como entender um texto se eles só sabem separar e não juntar?

É como ensinar um futuro médico a autopsiar um cadáver e fazê-lo decorar a função e características de cada órgão, tendão, osso e nervo do corpo e jamais permitir que ele aprecie as maravilhas cinéticas do movimento: a leveza de uma bailarina ou a explosão de força de um atleta. Como respeitar e admirar a beleza do paciente deitado na mesa de cirurgia se tudo o que o futuro médico sabe dele é nomear as propriedades de seus pedaços, das horríveis partes dispostas separadamente?

Já passou da hora de admitir que estamos fazendo algo profundamente errado com nossas crianças e perceber que precisamos mudar o rumo com urgência, porque talvez já seja tarde demais. O Brasil precisa de mais leitores e menos gramáticos. Recomendo duas leituras que me inspiraram e me fizeram pensar no assunto: Pelo ensino do prazer de ler, no Livros e Afins do Alessandro Martins e Parem de ensinar gramática, no O Indivíduo do Pedro Sette Câmara.

A propósito: Eu não vivo sem o Caldas Aulete digital e o Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa do Cegalla aqui ao meu lado.

Topifaive Até parece que não sou brasileiro

sábado, 5 setembro, 2009

1. Não ligo para futebol

Eu estava para escrever um post sobre isso, mas achei que o assunto não renderia mais do que algumas linhas mesmo. Em algum momento, eu perdi o interesse pelo futebol – talvez o fato de eu ter sido um dos dez piores jogadores da história da humanidade tenha ajudado. Não acompanho campeonato algum, não sei nome de jogadores, técnicos, hoje em dia sequer torço para um clube. E, paradoxalmente, acho esta minha escolha um tanto bizarra.

2. Detesto carnaval

Se o futebol não me diz coisa alguma, o carnaval me dá arrepios. Fujo para qualquer lugar bem distante que não tenha um folião durante os dias de momo (de uns anos para cá, Minas Gerais tornou-se uma filial da Bahia, com micaretas pipocando em dezenas de cidades do interior o ano todo). Não suporto os noticiários nem as ridículas transmissões de desfiles e trios elétricos pela TV – são deprimentes.

3. Nao bebo cerveja

Nada contra a cerveja – simplesmente nunca consegui gostar.

4. Não bebo café

De novo, nada contra. E até gosto de uns cafés ao estilo capuchinno. Mas a propaganda oficial pró-grão-preto (repita isso três vezes sem engasgar) acabou me dando ainda mais preguiça de me render a ele.

5. Acho que o jeitinho é mais maléfico do que benéfico

Aqui a coisa é mais séria. Eu sei que citar a si mesmo é perigoso, mas não vou reescrever o que já disse antes; basta copiar e colar: a adversidade treinou alguns dos profissionais brasileiros mais interessantes do mercado internacional, mas é uma cultura está por trás de toda corrupção, da cervejinha para o guarda aos desvios bilionários de recursos.

40 anos esta noite

sexta-feira, 4 setembro, 2009

No dia 02 de setembro, a Internet fez 40 anos. Em comemoração a esta data, os políticos brasileiros decidiram bocoitá-la, censurá-la, diminuir a sua (falo com você mesmo) participação, dirigi-la, de forma que possa ser a menos daninha possível aos interesses deles. A eterna tentação autoritária dá novamente as caras – na verdade, ela nunca se ausenta totalmente – da forma mais absurda, escancarada, ilógica; querem proibir até mesmo as charges políticas em tempos de eleição.

Não se engane: a sedução do tacape estende-se a todos os espectros políticos. Na reunião que tratou deste projeto, não houve uma única voz discordante. Da esquerda à direita, todos foram favoráveis ao cerceando da nossa liberdade. Foi preciso que o STF dissesse o óbvio, sobre a inconstitucionalidade do projeto, para que ele fosse revisto e desmontado – e ainda assim, corremos o risco desta estrovenga ser votada no Congresso.

Como sempre em se tratando de ideias equivocadas sobre a internet, há o dedinho do Eduardo Azeredo, que, mesmo após a gritaria contrária às restrições, ainda insiste em equipar o Youtube às concessões de rádio e TV. Já percebeu que, nos noticiários televisivos, sempre que um candidato é citado, logo em seguida entram notas sobre seus adversários? Não, não é uma tática jornalística; é uma imposição estatal. A mesma imposição que eles desejam estender a internet.

Para variar, o Brasil vai de vento em popa rumo ao passado.

Topifaive Sugestões para Gramado

quarta-feira, 19 agosto, 2009

Depois que a Xuxa (sim, a Xuxa, ela mesma) foi homenageada no Festival de Cinema de Gramado, gostaria de deixar algumas sugestões para as próximas edições:

1.Paulo Cesar Pereio: Precisa explicar? Ninguém no cinema nacional diz(ia) um sonoro palavrão como ele.

2. Selton Mello, Lázaro Ramos e Wagner Moura: De cada 10 filmes nacionais dos últimos anos, 11 têm ao menos um destes. Eles são ótimos atores, mas mereceriam o prêmio arroz-de-festa.

3. Guilherme Fontes: O cara que recebeu para fazer um filme e não fez. No mundo do software existem programas apelidados de vaporware, ou seja, sistemas prometidos e jamais entregues. Chatô é o primeiro vapormovie do cinema nacional. Um marco.

4. Carla Perez: Se a Xuxa pode, então a atriz(?) de Cinderela Baiana(???) também, já que seus filmes estão no mesmo nível (entenda isso como quiser, ou melhor, da única forma possível).

5. O Rambú do Amazonas: Se a ideia é premiar trasheira, que se reconheça um trash legítimo, autêntico e divertido.

Velha nova polêmica

sexta-feira, 14 agosto, 2009

É, aconteceu de novo. Um tirinha do Chico Bento, personagem de Maurício de Souza, causou polêmica ao ser incluída numa cartilha distribuída pela Secretaria da Educação da Bahia. Na tirinha, após ouvir um filho de “coroné” se gabar das cabeças de gado de seu pai, Chico manda o moleque meter o rebanho inteirinho numa área anatômica que raramente vê a luz do dia. Sejamos sinceros: as chances de Maurício de Souza publicar uma tira destas devem ser as mesmas de o Sr. Spock se materializar agora, na sua frente, vestido de Carmen Miranda e cantando A Balada de Bilbo Baggins em russo. Então, de onde veio a tirinha que causou a celeuma toda?
Da internet, claro.
É muito comum encontrar versões pornográficas de personagens famosos ou tiras com as falas trocadas, geralmente transbordando de palavrões. É humor adolescente e de mau gosto, ao estilo do (hilário e cretino) Batman-Feira da Fruta. Acreditamos que um profissional de educação, destes que selecionam o material que o seu filho vai estudar, tem a capacidade de discernir entre o material não-oficial e o legítimo. Mais: temos a certeza absoluta de que ele lê o que recomenda e que sabe muito bem que o fato de o conteúdo se apresentar na forma de quadrinhos não significa que seja adequado a crianças, certo? Estou excluindo a possibilidade de sabotagem ou brincadeira de mau gosto porque o histórico está contra as escolhas. Se a tirinha realmente foi selecionada por alguém cuja responsabilidade inclui aquilo que as crianças estudarão nas escolas, então jamais deveria trabalhar com isso.
Na verdade, estes casos são tão inacreditavelmente bizarros que só me permitem uma conclusão, nada nova: somos um país de analfabetos funcionais e de preguiçosos crônicos. E pior: alguns destes analfabetos e preguiçosos (muitas vezes as duas coisas numa única pessoa) estão ligados aos órgãos educacionais, lugares onde o senso comum diz que este tipo de profissional seria naturalmente excluído e barrado.

Rumo à Estação Irrelevância

quinta-feira, 16 julho, 2009

Você conhece a Mayara? Não? Mas está sabendo da foto famosa de Obama (que, no final das contas, não estava olhando) e Sarkozy observando a derriére de uma menina brasileira durante reunião do G8, não está? Acredito que sim, mesmo que você tenha tido a decência de evitar os noticiários nos dias seguintes ao fato. Então deixe que eu os apresente: a menina chama-se Mayara. E não, ela não estava lá por causa de seus atributos físicos, ela foi convidada da UNESCO como representante brasileira de jovens que atuam em prol de suas comunidades. Certamente, isso não foi noticiado, ou se o foi, apenas por uns poucos segundos. Eu fui um dos ingênuos que quis acreditar (I want to believe, diria o Fox Mulder) que a mídia teria um mínimo de vergonha na cara e não exploraria excessivamente o caso. Veja bem o que eu disse: excessivamente. Porque era certo que Mayara (lembra?) viraria notícia por culpa da maldita foto. Em outras palavras, encarnei ao mesmo tempo os três macacos idiotas, ora com as mãos sobre os olhos ora sobre os ouvidos e a boca. Mas isso ao menos serviu para que eu inventasse uma nova teoria, a partir de outra, de origem bem mais nobre.

Dizia Nelson Rodrigues que o brasileiro sofre de complexo de vira-lata. Antes mesmo de se informar sobre o estado de alguma coisa por aqui, já acredita que fora do país certamente a situação é melhor. Eu mesmo já fui acusado de ser portador deste complexo. Nego e renego a acusação. Eu apenas não consigo fingir que tudo está indo bem quando claramente vivemos numa terra que dá voltas ao redor de si mesma indefinidamente nos últimos… 509 anos, eu acho. Há coisas admiráveis aqui? Sim, há pessoas fantásticas, algumas poucas públicas, além de uma multidão de anônimos que merecem o respeito e o reconhecimento que provavelmente jamais terão.

Porque a maioria gosta mesmo é de auto-engano. Na falta de características positivas relevantes que possam ser eleitas como marcos admiráveis de nossa cultura, digo, da cultura nacional, tratamos de identificar traços de cultura periféricos e damos aura de grande coisa a eles. É o complexo de vira-latas reverso. O Brasil pode ter uma elite política abominável, péssimos índices educacionais, uma população que ainda acredita em boa parte na força do tacape ditatorial e uma desigualdade social equiparável a um abismo, mas ainda é o melhor lugar do mundo para se viver porque nossas mulheres são mais sensuais, nosso carnaval mais bacana e nosso jeitinho, opa, capaz de resolver qualquer problema. Veja que não estou negando nada disso. Ok, a mulher brasileira é bonita sim (mas colocá-las todas no mesmo caldeirão que comporta, sei lá, a Mulher-Melancia, é ofender quem deseja se destacar pela inteligência e não pela bunda, e a Mayara aí do primeiro parágrafo concordaria comigo), o carnaval é gigantesco (detesto carnaval, todo mundo sabe disso; mas gera muito emprego e movimenta boa parte da indústria do turismo, o que ofusca muitos outros eventos e cidades mil vezes mais interessantes do que esta festança besta) e o jeitinho tem lá seu lado positivo (a adversidade treinou alguns dos profissionais brasileiros mais interessantes do mercado internacional, mas é uma cultura está por trás de toda corrupção, da cervejinha para o guarda aos desvios bilionários de recursos). O fato é que tudo isso é acessório: não melhora nossos índices sociais, não aumenta a eficiência do estado e não educa ninguém.

Pelo contrário: a nossa obsessão pelo supérfluo serve apenas para desmotivar quem deseja o aprimoramento pessoal verdadeiro ou até mesmo quem, como Mayara, quer ajudar seus próximos. O orgulho da nossa sensualidade, nosso estilo e nossa ginga, por mais interessantes que sejam, serve também para esconder o óbvio: que estamos fracassando em quase tudo que é relevante. E não, a bunda de uma menina (ela tem 17 anos) sob os olhares atentos do presidente francês não é relevante. O trabalho de Mayara e a quase inútil esperança de que gente como ela faz parte de um Brasil menos estúpido, de mau gosto, machista e atrasado é que deveria ser relevante.

Do jeito que vamos, nosso destino é o igual ao nosso passado: de irrelevância.

Post inspirado em Mayara, Obama e a imprensa ridícula.