Archive for the ‘Uncategorized’ Category

Sonífera ilha

sábado, 28 junho, 2008

J.P. Coutinho, na Folha de São Paulo, escreve o que mais de 99% dos homens já sabia: Sex and the City é um poderosíssimo sonífero para os portadores de cromossomos XY. Eu, particularmente, nunca vi graça alguma nesta série, mas foi este parágrafo que fez com que eu me identificasse com o seu autor imediatamente:

O problema, creio, está nas “conversas de gênero”: previsíveis, entediantes, circulares. Serei caso único? Não creio. E há vários anos que defendo “audiobooks” só com homens, ou só com mulheres, conversando os temas habituais entre si. Seriam vendidos em farmácias sem necessidade de receita médica. Não há coisa mais narcótica.

Não sei dizer se é um problema, mas certamente ele não é caso único.

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Até a volta

domingo, 23 dezembro, 2007

Recesso natalino no Universo Tangente.

Boas festas a todos!

Briqueabraque

quinta-feira, 13 dezembro, 2007

Economia é apenas uma dentre as várias coisas sobre as quais gostaria de saber mais. Sou profissional de TI, como vocês (meus dois leitores e meio) provavelmente já sabem. Mas posso afirmar que tive ótimas aulas de administração, enquanto a economia foi uma disciplina razoavelmente neglicenciada no meu curso superior. Lembro-me bem das primeiras aulas, em que a professora comparava a economia de livre mercado à planificada, dando como única vantagem da última o fato de ser “socialmente mais justa” (certamente, países em que a elite da burocracia estatal detém toda a riqueza da nação são exemplos a ser seguidos, pólos avançadíssimos de desenvolvimento, como Coréia do Norte e Cuba). Neste dia percebi que, se quisesse mesmo aprender alguma economia, teria que me esforçar sozinho. Nem preciso mencionar que, desde então, meus estudos restringiram-se a dezenas de leituras desorganizadas, artigos na internet e livros pela metade. Bom, pelo menos agora, não há mais desculpa.

De qualquer forma, mesmo confessando minha ignorância teórica, não consigo acreditar que alguém leve mesmo a sério estas historinhas que andaram pipocando pelos jornais nas últimas semanas. Brasil, quinta economia do mundo em 2052? Atrás apenas de EUA, China, Índia e Japão?


(…)


Desculpe-me, estava recuperando o fôlego depois da gargalhada. Certamente, há economistas e gurus lucrando em cima da exploração do nome BRIC, cobrando por predições que acabam por incluir o nome do Brasil entre os países que liderarão o capitalismo do mundo plano. Sim, sim, eu sei das esquisitices de Índia e China, mas seria melhor que não seguíssemos os caminhos de nenhum destes dois, pois não? Ditadura e castas são duas coisas que não consigo digerir muito bem.

Na verdade, as coisas parecem bem melhores se vistas do lado de fora, especialmente se, onde lê-se “as coisas”, lemos “as estatísticas”. A exposição pura e simples de números esconde habilnente o quanto estamos atrasados em relação a muitos outros países. Qualquer brasileiro cuja mente não esteja condicionada a identificar o paraíso como uma mistura suada e arfante de pagode, futebol e bunda, sabe que o capitalismo não pegou por estas terras – aliás, não pega bem nem mencionar esta palavra sem fazer cara de nojinho. Logo, sem uma cultura pronta para abraçar alguns valores tipicamente liberais (só para citar alguns: meritocracia, propriedade privada, igualdade perente as leis e o Estado), nossas chances não são muito boas. Em uma ótima reportagem recente, a revista Época Negócios dissecou bem algumas das razões que nos impedem de ser inovadores (o mantra da atualidade), e são todas culturais, ainda mais importantes do que as razões estruturais. A saber: não há um ambiente propício a criação de negócios próprios, o relacionamento entre as pessoas é ditado pela necessidade de ganhos rápidos que protejam-nos do egoísmo dos outros e qualquer um que obtenha sucesso pelo próprio esforço é logo acusado de enriquecimento ilícito.

Até que alguém perceba que as causas que explicam o fracasso de alguns países e o sucesso de outros são majoritariamente culturais, o B vai continuar ali pregado ao RIC. Mas, provavelmente muito antes de 2052, terá sido substituído por um M, C ou Z. De Zâmbia.

Agora, por favor, se você ainda acredita que vai sair algum coelho desta floresta tropical, leia isto aqui.

Grotesco e vil

sábado, 11 agosto, 2007

Agradeço a Deus todos os dias por ter amigos normais. Gente com neuras, barriguinha, chatices, impaciência, lapsos, pequenos egoísmos, ausências, espinhas, birras, opiniões ridículas. Espero jamais ter que conviver com um destes tipos perfeitos que encontramos dando entrevistas nas revistas e na TV. Essa gente certa, equilibrada, que faz dieta, exercício, ioga, cuida do corpo e acredita cuidar de sua mente. Pessoas sem falhas que, na sua humildade calculada, arrogam-se o direito de criar regras para mim, me orientando no meu modo de viver, o que devo comer e como devo pensar. Esta raça robótica de sujeitos equilibrados, certos, seguros, que pensam positivo todo o tempo e ainda querem que eu leia os seus livros, veja os seus filmes e me converta a sua religião sem deidades.

Pensei em escrever aqui o quanto sempre me impressionaram os diálogos ouvidos por acaso e, os piores, os nos quais fui obrigado a participar. Na versão pessoal deles, são superiores ao mundo, às dores e traições e a sua própria insignificância. Não estivessem tão intoxicados de auto-estima, saberiam rir de si mesmos como às vezes sou tentado a fazer por ter de ouvi-los – por sorte, ou azar, sou educado demais para gargalhar disso. Mas lembrei-me de que é melhor, muito melhor, deixar que Fernando Pessoa, em um de meus poemas preferido, resuma tudo.

Poema em linha recta

Nunca conhecí quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasito,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe —todos eles príncipes— na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ô príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que hà gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos —mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.